Revista Rua

2018-05-03T10:59:53+00:00 Opinião

O vagabundo aristocrata (II)*

Partilhar Artigo:
João Palhares
João Palhares
2 Fevereiro, 2018
O vagabundo aristocrata (II)*

Não foi por ser o cineasta mais bem-sucedido do mundo que Chaplin caiu nas boas graças do sistema ou da sociedade americana. Como ainda hoje acontece e como aconteceu durante os anos vinte, na ressaca do escândalo em que envolveram injustamente Roscoe “Fatty Arbuckle”, o mentor de Chaplin e de Buster Keaton (ainda hoje injuriado – a última vez foi numa mesa redonda de actrizes de Hollywood, por Jessica Chastain – e escorraçado da indústria, no seu tempo, apesar da declaração veemente dos jurados do seu último julgamento e que começava com as mais resolutas das afirmações: “a absolvição não é suficiente para Roscoe Arbuckle. Achamos que lhe foi cometida uma grande injustiça”, etc, etc.), Chaplin começou a ser perseguido pelo país que o tinha recebido e cuja indústria de cinema ajudara a construir e a levantar aos cumes que se conhecem. O processo começou com a estreia de Tempos Modernos e arrastou-se até ao seu exílio forçado na Suíça, logo depois da estreia inglesa de Luzes da Ribalta. Suspeitando das suas inclinações comunistas, supostamente ilustradas por Tempos Modernos e pelo Grande Ditador, o FBI de John Edgar Hoover fez tudo o que pôde para virar a opinião pública contra Chaplin, provocando a curiosidade muito inconveniente do comité de actividades anti-americanas. É a John E. Rankin, que ajudou a estabelecer esse mesmo comité, que se devem as seguintes palavras: “A própria vida de Chaplin é prejudicial para o tecido moral da América. Se ele for deportado, os seus filmes asquerosos podem ser retirados da frente dos olhos da juventude americana. Devemos deportá-lo e livrar-nos dele imediatamente”.

O ano passado, por muitas coisas justas e necessárias que possam ter acontecido (e ainda resta apurar quantas delas são mesmo justas e mesmo necessárias), cancelaram-se retrospectivas nos antigos bastiões da liberdade, retiraram-se obras “perigosas” de museus, apagaram-se actores inconvenientes de filmes já terminados só a pensar na temporada de prémios e retiraram-se outros filmes de circulação em nome do “tecido moral”. Acreditando que cada um de nós é livre de pensar por si próprio sem que intercedam associações, movimentos ou personalidades, perdemos todos e perde o verdadeiro tecido moral, se é que existe. Vivemos anos demais a pensar que tínhamos evoluído como sociedade e afinal não mudou mesmo nada. Monsieur Verdoux, ainda o filme mais complexo e fascinante de Chaplin, é feito no rescaldo das difamações ao realizador inglês e é feito contra os defensores do “tecido moral”; é uma obra a equiparar às “viagens ao fim da noite” que puderam chegar até nós e que entram em diálogo com o inconsciente colectivo mais sombrio, dos martírios e dos pecados de Caravaggio à indiferença e ao sonambulismo impostos pelo mundo de Céline; é para defender com todas as forças exactamente por incomodar.

*O Lucky Star – Cineclube de Braga vai exibir longas-metragens de Charles Chaplin durante o mês de Fevereiro.

Nota: Este artigo não foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Partilhar Artigo:
Fechar