Revista Rua

2019-01-18T16:02:41+00:00 Património

Óbidos, onde o movimento aquece e o silêncio entorpece

Filipa Santos Sousa
Filipa Santos Sousa18 Janeiro, 2019
Óbidos, onde o movimento aquece e o silêncio entorpece

Portugal é um país repleto de maravilhas e, sem dúvida, Óbidos integra este leque. Considerado um dos destinos nacionais mais turísticos, e não obstante a sua história secular, a verdade é que a vila se tem renovado ano após ano. Os eventos culturais multiplicam-se, de forma a atrair visitantes continuamente, desde os miúdos aos graúdos, e há acontecimentos para todos gostos.

Conhecida pelo seu famoso castelo e muralhas, ruas medievais e registos de arquitetura doutros tempos, pela ginja servida em copos de chocolate e pela beleza pictórica das suas casas coloridas em tons de azul e amarelo, Óbidos afirma-se também como uma paragem obrigatória para todos os amantes da Literatura. De facto, é reconhecida como património literário da UNESCO, desde 2015. Porquê? Ora, não nasceram ali autores de louvor nacional, como Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner Andresen, mas as entidades locais têm implementado muitos esforços, com o objetivo de dinamizar o lugar. Por isso, não é de estranhar a existência das várias livrarias que têm florescido pelas estreitas ruelas.

Dentro das muralhas, os motivos para visitar Óbidos são mais que muitos. No entanto, e como não se pretende apresentar uma lista vasta, serão apenas aqui apresentados os pontos que mais nos cativaram numa visita recente à vila. Dois dias foram suficientes para os encantos locais deixarem memórias e intenções de um regresso, que não se prolongue demasiado no tempo. Assim sendo, destacamos quatro aspetos cruciais e que não podem falhar numa deslocação até à zona Centro.

Castelo e Muralhas de Óbidos

Para revisitar o passado de Óbidos é preciso recuar até D. Afonso Henriques, altura em que conquistou este e outros castelos aos Mouros, numa ânsia de expansão do, então, recém-criado reino de Portugal. O castelo apresenta uma particularidade, uma vez que após a sua oferta de D. Dinis à sua esposa D. Isabel, tornou-se pertença da Casa das Rainhas durante a monarquia.

O terramoto de 1755 não causou estragos só em Lisboa, mas também por estes lados, tendo o castelo e as muralhas sofrido sérios danos. No entanto, e a posteriori, verificaram-se algumas obras de reconstrução e hoje ainda é possível observar tal imponente imóvel. Classificado como Monumento Nacional, o castelo acolhe a luxuosa Pousada de Óbidos, desde a década de 50. Os apaixonados por História podem sempre aventurar-se à volta das muralhas e contemplar a deslumbrante vista sobre a vila, que adquire especial esplendor ao por-do-sol.

Considerado um dos destinos nacionais mais turísticos, e não obstante a sua história secular, a verdade é que a vila se tem renovado ano após ano.

Livraria de Santiago (Ler Devagar)

No lugar onde outrora se celebraram missas, hoje a única eucaristia visível é a dos muitos ‘livrólicos’ que afluem à Livraria Santiago. Sem dúvida, este é um lugar a ter em conta numa visita a Óbidos, quer deseje comprar livros ou não. A beleza do espaço adaptado da igreja, edificado no séc. XII e reconstruído após a catástrofe que abalou o país em 1755, não deixa ninguém indiferente.

Com um rés-do-chão que valoriza o altar do legado religioso, os livros – de vários tipos e categorias – parecem colocados em perfeita comunhão com a envolvente. No ar mantém-se o silêncio, não só pelo respeito dos peregrinos literários, mas também por aqueles que ali chegam movidos por outra fé: a cristã. Como não poderia deixar de ser, aproveitamos o ambiente para folhear umas quantas obras e não saímos de lá sem mais uma para a coleção.

Ambiente pictórico

Se fosse necessário descrever Óbidos numa só palavra seria: pitoresco. A vila, só em si mesma, parece um quadro vivo; cheio de cores, flores e a música trazida pelos visitantes, de linguarejar diferentes e de sítios distantes. É incrível como cada canto parece ter sido traçado, talvez, por Josefa d’Óbidos, pintora de referência do séc. XVII.

Em cada esquina não se encontra um amigo – contrariando a canção de Zeca Afonso -, contudo há, isso sim, lugares para comes e bebes, sem esquecer a ginja. No entanto, toda esta azáfama diurna transforma-se em ‘deserto’ e solidão para os noctívagos. Melhor assim, é da maneira que se consegue finalmente sentir a vila: cada passo ao ritmo da sua calma são motivos que aquecem os mais introspetivos dos poetas.

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