Revista Rua

2019-10-17T11:53:17+01:00 Opinião

Obrigado, Pedro

Sociedade/Política
João Rebelo Martins
17 Outubro, 2019
Obrigado, Pedro

Há quem defenda que na política, na causa pública, não se agradece. Eu não sei se concordo com isso porque tenho como princípio o valor do altruísmo, o desprendimento do poder, para se poder exercer um cargo de eleição ou de escolha. A capacidade de dizer “não”, sempre necessária nestes momentos, não se coaduna com a de um emprego, um salário ao fim do mês e, por isso, quando se abraça a causa pública, será sempre com prejuízo da profissão e da família. Por isso é necessário agradecer, e eu agradeço neste momento: obrigado, Pedro Passos Coelho.

Obrigado pela oposição a Sócrates após a derrota eleitoral de 2009, e por ter levado o PSD ao poder.

Obrigado porque, sem a linha ideológica de matriz social-democrata, tentando reescrever a história do partido, deixando de ser anti-maçónico (vá lá, continuou anti-comunista), com a liberalização da economia florescente e a nacionalização do prejuízo, escancarou a porta à direita portuguesa que conseguiu, pela primeira vez desde o 25 de Abril, controlar um grande partido que lhes possibilitasse estar na governação.

Inexplicavelmente, com Vítor Gaspar e, posteriormente, Maria Luís Albuquerque à frente das Finanças de Portugal, foi usada uma métrica Marxista-Leninista: a criação de uma superestrutura e de uma infraestrutura, através do brutal aumento de impostos para as famílias da chamada classe-média e para as empresas, aumentando o fosso entre ricos e pobres, e houve a nacionalização por parte do Estado Chinês do monopólio da energia eléctrica, através da aquisição da REN e da EDP. Inexplicavelmente, como dizia, porque tais medidas foram conhecidas como medidas da direita, da burocracia de Bruxelas, e são-no, claramente, medidas típicas da esquerda. A esquerda que quer o controlo do Estado e distribui os dividendos por onde bem lhe interessa.

Obrigado por ter definido como objectivo das autárquicas 2013 a colocação de amigos a concorrerem às principais cidades portuguesas. A derrota foi estrondosa. Obstinado, teimoso como os seus mais próximos lhe chamam, repetiu a fórmula em 2017 e o resultado foi o mesmo. O PSD perdeu a malha do seu suporte, a ligação directa com o povo através da figura do autarca, que Sá Carneiro, Cavaco, Durão Barroso, Marques Mendes e Ferreira Leite souberam, independentemente das circunstâncias ou estratégia, preservar.

Obrigado por ter dado voz ao até então desconhecido André Ventura.

Obrigado pela linha orientadora do partido, que se baseou na experiência de vida e política de muitos think tanks, bloggers, estagiários e compagne de route da JSD dos anos 80 e 90. Para quê contar com a experiência da sociedade civil e da Academia, se os nossos mais queridos amigos estavam ali para dizerem aquilo que o Pedro queria ouvir, e ocuparem lugares tenente na estrutura do Estado e do PSD?!

Porquê agradecer agora? De facto, já o poderia ter feito – e de alguma forma o fiz – desde 2011; ou 2008. Mas foi agora que o PSD teve que recuperar da imagem que a direcção de Pedro Passos Coelho deixou junto do eleitorado.

16,70%, 834.455 votos, 531 mandatos nas autárquicas de 2013.

16,07%, 831.536 votos, 493 mandatos nas autárquicas de 2017.

21,94%, 727.207 votos, nas europeias de 2019.

O PSD chegou a estas legislativas destroçado, roto e corrompido por ataques externos e internos – quem não se lembra de Montenegro e do seu grupo em Janeiro?!, a criação do Aliança?!, os colóquios, jantares, reuniões onde se conspirava contra o líder?! – e completamente acossada ao canto da direita portuguesa, que foi aí que a anterior direcção do PSD posicionou o partido.

Este reposicionamento à direita do maior partido político, durante anos, e não tendo Rui Rio a capacidade de contrapor toda a inércia adjacente a esse facto, teve como resultado o que se viu no Domingo de eleições:

O PS a ocupar todo o centro da vida política, indo ocupar terrenos do PSD, o PSD a encostar à direita e a forçar o quase desaparecimento do CDS, e a manutenção do Bloco como força capaz de disputar um eleitorado social democrata – como referiu Catarina Martins durante a campanha.

Será Rui Rio capaz de inverter essa tendência e devolver o PSD ao centro? Acredito que sim; para isso é preciso tempo e estabilidade. Mas tais coisas, com a ajuda de Luís Montenegro, Miguel Relvas, Cavaco Silva, Pedro Duarte, José Eduardo Martins e muitos órfãos do passismo, não será possível.

Há anos escrevi que Pedro Passos Coelho iria ter apenas um parágrafo na história de Portugal, dada a sua legislatura. Enganei-me. Com a sua acção, o ex-PM alterou – quiçá para sempre – a composição da Assembleia da República e a importância dos ditos “partidos tradicionais” no destino do futuro dos portugueses. É uma nova República.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

Os artigos de opinião publicados em revistarua.pt são de exclusiva responsabilidade dos autores.

Partilhar Artigo: