Revista Rua

2021-06-30T12:51:00+01:00 Opinião

Olhos de profeta

Histórias
Cláudia Paiva Silva
30 Junho, 2021
Olhos de profeta

Reza a lenda que a origem dos Profetas do Porto Santo se deve a Fernão Nunes, O Bravo, que tocado por poderes miraculosos e pela presença do próprio Espírito Santo o levaram a “chamar a atenção das gentes da pequena ilha às injustiças que por eles caíam, nomeadamente à forma como eram explorados”, sem acesso a qualquer educação com exceção daquela que a Igreja única e exclusivamente achava que era a necessária: doutrina da Fé. Não é fácil prever que em pleno século XVI, Fernão acabou os seus dias no cárcere do Limoeiro, na capital do reino, após ter sido admoestado pela Santa Inquisição e quase queimado vivo na fogueira que tudo expurgava. Afinal não era bonito pôr em causa o que estava pré-estabelecido. Ficou assim conhecido o homem e o povo do Porto Santo, como “Profetas”, embora na verdade não passassem de constatações bem reais à sociedade expansionista.

Felizmente os séculos viraram, e entre várias outras ditaduras que proibiram as pessoas de falar, hoje pelo menos ainda, temos a capacidade de raciocínio e a possibilidade de falarmos, o bom e o que é mau. O que pensamos e o que achamos que deve mudar.

João Ornelas tem no rosto as rugas da experiência e o olhar dos verdadeiros profetas da ilha. Nascido no Porto Santo há 77 anos, ocupa os seus dias de reforma entre a sua horta para os lados de Campo de Cima, paralela à pista do aeroporto, e a venda dos produtos que a terra lhe dá, numa das várias barraquinhas típicas junto à “marginal” da Vila Baleira.

Pai de três filhos (duas raparigas e um rapaz, agora já gente crescida), todos a viver no continente, fez a tropa da Madeira e depois, já em Lisboa, fez parte do Regimento de Paraquedismo, tudo antes de se tornar agente da PSP, profissão que exerceu também na sua relativamente curta passagem por Portimão, num Algarve de “outros tempos”, como diz, “numa altura em que só havia meia dúzia de casas e pessoas, sem a insegurança de hoje”. Não se pense que este senhor vive o sonho do passado. Bem pelo contrário, João Ornelas está atento à atualidade e coloca as mesmas questões que todos nós, nomeadamente qual o futuro da sociedade numa altura de tanta incerteza. Com igual receio de qualquer aumento de casos na sua terra por via da pandemia instalada em todo o lado, tem perfeita noção que a sua faixa etária o coloca numa situação mais vulnerável, embora diga que já viveu muito.

Ainda fazendo jus às suas capacidades enquanto agente da autoridade, o Sr. Ornelas tem igualmente olho aberto para os vários casos de vandalismo noturno que pautam na “ilha dourada”, de há vários anos a esta parte, mas com maior incidência durante o Verão. Alguns destes casos foram reportados por vários órgãos de comunicação social durante o ano de 2020 e, nem mesmo a presença do Presidente da República fez travar as atitudes menos responsáveis. “Menina, é uma vergonha!”, conta. “Não têm respeito nenhum. Aparecem, eles e elas aos molhos e chegam a andar por aqui nus, no meio da rua!” As autoridades sabem-no e repudiam, mas os magotes continuam e as gentes da ilha começam a ter medo, tal como João Ornelas, que acarreta o peso e respeito que a idade lhe exige: “Nos dias de hoje, tanta gente junta? Tenho muito receio do que possa acontecer daqui a dias”. Curioso e malandro, também inquisidor pelos nossos interesses, João Ornelas é um dos antigos do Porto Santo, sem papas na língua, registando todos os momentos e falando o que tiver de falar. Assim o seja por vários anos mais.

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