Revista Rua

2019-07-17T10:34:56+00:00 Opinião

Onde a terra se acaba e o mar começa

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
17 Julho, 2019
Onde a terra se acaba e o mar começa

As paredes neste quarto acordam-me de estar desperto, entro no sono de contornar a verdade e dá-me ganas de fazer as palavras cruzadas nos jornais gratuitos. O por-do-sol aqui é sempre igual dia após dia, mas sempre único e inédito, torno-me tão pequeno nesta cadeira quando o sol se põe, as pessoas diminuem na minha frente e como é que se esconde o medo do abandono ou da solidão, esclareçam-me lá isso se fizerem favor, lembro-me que a minha avó tem sempre um rádio ligado na cozinha para lhe fazer companhia, o que nos vale é o mar lá no fundo que engole a tristeza e as lembranças por um minuto. O tempo faz coisas maravilhosas com a gente, resolve tudo aquilo que não somos capazes de arrumar e a saudade é a brutalidade serena de pensar no que amamos sem que a mão o alcance mais, não é possível que a areia da praia que ainda se avista daqui esteja tão longe quando se fecha os olhos, a brisa salgada que seca os lábios, as árvores e os pássaros que são coisas repletas de tempo, tempo antigo, por isso não as entendemos mas sentimo-nos em paz connosco quando as olhamos, uma frincha de luz num beco muito escuro mais adiante, abre-se a memória e começamos a perceber as viúvas, percebe-se a compaixão, percebe-se que nada vem do nada, que é preciso ver, estar e não julgar, estar no silêncio até que neste surjam ruídos que desconhecemos, vozes que a princípio não trazem nada mas depois uma entoação conhecida, volto a ser pequeno e via de manhã muito cedo uma primeira sombra de camélias, cheia de solidão naquelas beiras de passeio desertas de luz, cheias de outros verões que não vivi, cheia de pessoas antigas,

(as pessoas do passado não podem ser tristes, não é verdade?)

nas mesmas expressões dos retratos nas molduras, cheias de belezas tapadas por um véu de patine que oculta um pingo de sorriso que afinal não esqueci, como poderia esquecer um pingo de sorriso, quanto mais penso mais encanto ganham estes desconhecimentos, o por-do-sol aqui é sempre igual dia após dia, sempre único e inédito, torno-me pequeno de novo e não é que somos tantos medos quando olhamos o céu de noite? Torno-me pequeno, falta-me colo, falta-me um abraço e o tempo é o grande desconhecido que se estende entre nós os dois.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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