Revista Rua

2020-11-16T10:20:53+00:00 Opinião

Os 20 anos de Kid A

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
16 Novembro, 2020
Os 20 anos de Kid A

A entrar no último trimestre do ano 2000, os Radiohead estavam prontos para voltar com um novo trabalho discográfico. Não era um disco qualquer, era o sucessor do mais-que-perfeito OK Computer, de 1997. OK Computer é ainda hoje um dos discos mais ouvidos no mundo todo; seja nas plataformas de streaming, seja pelas vendas de discos em formato vinil ou compact disc, vulgo cd. Para compreender Kid A, precisamos de falar do seu antecessor e situar no tempo e no espaço criativo a posição do quinteto britânico.

Os 90’s foram uma década de autêntica revolução cultural e tecnológica. Como qualquer década, os noventas passaram por inúmeras tendências no que diz respeito à música. Começou-se com o Grunge, passou-se pela febre das Boys e Girls Bands, pela Brit Pop, à universalização do Hip-Hop, do arranque, já mais para o final da década, do fulminante e passageiro NU Metal, mas foi sobretudo uma década onde a música eletrónica deu um salto qualitativo e quantitativo como até então não se tinha visto. É sobretudo neste último aspeto que importa daqui para a frente falar: da descoberta da música eletrónica numa altura de revolução tecnológica que influenciou Kid A, o disco mais gélido dos Radiohead.

©D.R.

Ora, vindos de dois trabalhos extremamente bem-sucedidos – The Bends de 1995 e OK Computer de 1997 -, os Radiohead mostraram ao mundo que eram muito mais do que o tema pós-punk melancólico que todos conhecemos. Sim, estou a falar da “Creep”. Voltando a OK Computer, este foi o Joshua Tree dos Radiohead, isto é, foi com este disco que os britânicos cruzaram o Atlântico e se tornaram (re)conhecidos na América, numa fase em que Oasis e Blur lutavam pelo título de reis da nova Brit Pop e, duma maneira mais lata, do próprio Rock, que ficara órfão de novas referências com o declínio do Grunge. Mais do que abrir as portas à América e ao resto do mundo, os Radiohead, com OK Computer, abriram as portas a eles próprios à exploração, à experimentação e à música eletrónica que, em fusão com a identidade própria da banda, iria definir o novo som do quinteto.

Quando o Kid A saiu, eu lembro-me do meu irmão o comprar e de o ter cá em casa. Na altura, tinha 13 anos e foi o meu primeiro contacto com aquela que viria a ser, anos mais tarde, a minha banda de eleição. Aquele primeiro contacto, talvez pela forma tão precoce e ingénua, fez-me ouvir o disco de uma forma completamente despida, como se de uma tábua rasa se tratasse. É óbvio que não estava preparado para ouvir aquilo. Kid A é um disco frio, gélido, como já disse em cima, estranho, que nos confronta, e que requer habituação. Kid A foi o responsável por eu dizer durante alguns anos “não gosto nada de Radiohead”. Felizmente, um par de anos mais tarde, lá consegui encaixar a sonoridade do grupo e, desde então, nunca mais ouvi nada que se superiorizasse (no meu entender).

Reza a história que Kid A foi criado num processo muito tumultuoso e complicado para os Radiohead. Thom York passava por um bloqueio criativo e a banda procurava um novo rumo. No meio de tanta indefinição, de tanta neblina criativa, foi numa disquete com alguns sons criados de forma experimental por um dos cientistas da música eletrónica, chamado Paul Lansky, que Thom York encontrou o tal desbloqueador que precisava, isto é, o som que viria a criar e a definir a nova fase dos Radiohead. Mild und Laise é uma composição eletrónica criada em 1973 por Paul Lansky sem grande fio condutor, que ali por volta do segundo 43 tinha o sample dum dos temas mais marcantes de Kid A, nomeadamente, do tema “Idioteque”. Foi ali, naquela fração de segundos, que se projetou a nova identidade da banda. Os mais curiosos podem pesquisar no YouTube.

Depois dum disco ultra bem sucedido como OK Computer, duma tour que durou dois anos, de records de discos vendidos e de prémios, os Radiohead saltaram para o desconhecido e montaram um disco de 11 temas que viaja pela música eletrónica, pelo jazz, pelo experimental, pela esquizofrenia, pelo sem sentido, que usa o som da guitarra em apenas 1/3 do disco e coloca o sintetizador e as programações ao mesmo nível da voz. Nada era como antes e nada era como o que os Radiohead, à altura, acabavam de fazer.

A importância deste álbum ainda hoje é construída e assimilada por críticos e músicos de todo o mundo. Kid A é provavelmente o disco com mais mérito dos Radiohead, precisamente porque fugiram do óbvio e arriscaram como talvez nunca nenhuma banda tinha arriscado até então. Diferente, disruptivo, estranho e demasiado à frente para o tempo dele. Não é assim que os Radiohead são na sua essência?

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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