Revista Rua

Os Azeitonas: “A nossa base é o amor, é a vida!”

"Fomos uns privilegiados por dizer “está mais ou menos” a músicas muito boas (risos) Quando o Miguel [Araújo] saiu para fazer a carreira dele, nós passamos a tentar descobrir exatamente o que seria a continuação d’Os Azeitonas".
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Outubro, 2019
Os Azeitonas: “A nossa base é o amor, é a vida!”
"Fomos uns privilegiados por dizer “está mais ou menos” a músicas muito boas (risos) Quando o Miguel [Araújo] saiu para fazer a carreira dele, nós passamos a tentar descobrir exatamente o que seria a continuação d’Os Azeitonas".

É com muito amor, numa Banda Sonora um tanto ou quanto cinematográfica, que a banda da invicta chega mais uma vez ao Coliseu do Porto, a 12 de outubro. Mário Marlon Brandão, Luísa Nena Barbosa e João Salsa Salcedo preparam-se para um concerto épico, com a música como protagonista num espetáculo visual, que faz deles telas numa realidade maior, numa realidade quase de Hollywood. Sem Miguel Araújo, Os Azeitonas sentaram-se connosco para falar deste espetáculo imperdível e sobre esta nova dinâmica da banda.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Começamos esta entrevista por chamar à conversa a sétima arte. São fãs de cinema? As bandas sonoras dos filmes são uma inspiração para vocês?

Marlon – Sim, somos todos fãs de cinema e posso dizer que a sétima arte é uma inspiração. Principalmente neste nosso último trabalho, que se chama precisamente Banda Sonora. Sempre fomos cinéfilos e, às vezes, nos concertos entra um excerto de alguma música de um filme. A verdade é que a imagem sempre foi muito importante para nós e empenhamo-nos nos videoclipes que lançamos – diria que as referências do cinema são importantes para nós.

Esta chegada ao Coliseu do Porto traz uma ode ao cinema?

Marlon – Sim, exatamente! No Coliseu, nós vamos ser simplesmente a banda sonora que vai ilustrar todo o espetáculo videográfico que vai existir.

Expliquem-nos melhor como é que este espetáculo está a ser preparado. Há aqui uma base cinematográfica importante que até já deu origem a vários cartazes promocionais convosco como protagonistas de filmes. Como é que toda esta ideia começou?

Salsa – A ideia surge quando estamos a fazer o álbum Banda Sonora, numa tentativa de envolver a música com o visual. A música não seria a protagonista principal, mas sim o universo visual. No Youtube, queremos lançar 13 videoclipes representando as 13 músicas presentes no álbum. No entanto, ao vivo, nunca tínhamos feito uma tentativa de representação do disco.

Marlon – No Coliseu, vamos tocar o álbum na íntegra. Vai ser a primeira vez que o vamos fazer.

Nena – Há quatro ou cinco músicas que nunca foram tocadas ao vivo. E acho que tudo começou por aí: a premissa inicial do espetáculo no Coliseu seria fazer um concerto com as novas músicas, porque, normalmente, num concerto de tournée, não conseguimos tocar todas as músicas de um álbum. É complicado. Portanto, o Coliseu serve como desculpa! (risos) Uma vez que o álbum se chama Banda Sonora, tínhamos que tentar associar a música ao tema do álbum.

Salsa – E, por isso, basicamente, nós somos o suporte do visual que imaginamos desde o início do álbum, desde o princípio da nossa composição.

Marlon – Nós somos os protagonistas do concerto, obviamente, mas temos uma equipa de vídeo que está dedicada a criar conteúdos para o espetáculo visual (que será o principal atrativo deste concerto).

“Vamos chegar ao Coliseu para representar o álbum e trazer sempre algo novo, algo diferente e sobretudo único, que só irá acontecer nesse espetáculo”, Marlon

Vocês chegam ao Coliseu como personagens, então?

Marlon – Eu acho que nós, enquanto Os Azeitonas, sempre fomos personagens. A banda é uma faceta nossa, uma percentagem muito pequena do que nós somos. A banda é uma expressão do que nós somos, em termos de cliché musical, de pop, de referências, neste caso de referências do cinema também. Por isso, vamos chegar ao Coliseu para representar o álbum e trazer sempre algo novo, algo diferente e sobretudo único, que só irá acontecer nesse espetáculo. Em princípio, a repetir-se a proeza, será apenas noutro Coliseu, em Lisboa. Mas, para já, temos só esta data.

Salsa – As pessoas podem saber já que vão assistir a um concerto único!

E surpresas? Há?

Marlon – Surpresas temos sempre! (risos)

Salsa – Mas estamos a tentar não revelar nada! (risos)

O que podem dizer?

Marlon – Só que vai ser um espetáculo principalmente com vídeo, o que normalmente não acontece. No último Coliseu que fizemos, tínhamos um ecrã onde projetávamos algumas coisas, mas esse momento não era o protagonista. Neste caso, é! O vídeo é o protagonista. Nós vamos estar dentro do ecrã, por assim dizer. Nós vamos ser tela!

Salsa – Vamos virar o protagonismo ao contrário.

Marlon – Ah, e vamos usar algum material de videoclipes que já fomos lançando. Lançámos seis videoclipes e queremos adaptá-los ao espetáculo ao vivo. E, pronto, podemos também dizer que convidamos o Mário Augusto, o jornalista de cinema, que adorou a ideia e vai ser o cicerone do espetáculo. Como falamos de cinema, fazia sentido que fosse ele a estar presente, com a sua voz icónica.

Tendo em conta que o álbum Banda Sonora é a base deste concerto, gostaríamos de perceber o feedback que têm tido com este trabalho. Como tem reagido o público?

Marlon – É sempre muito complicado, hoje em dia, o público ouvir álbuns. Inicialmente este disco começou com a música “Cinegirasol”, ainda com o Miguel Araújo como membro da banda. A nossa ideia seria fazermos singles apenas. Porque atualmente as pessoas ouvem música pelas redes sociais, pelas plataformas digitais, por isso, é muito raro alguém ouvir um álbum do princípio ao fim. Fomos lançando single a single para ver a reação das pessoas. Depois de três ou quatro temas lançados, compilamos um álbum, acrescentando novas músicas. Posso dizer que o principal desafio na criação deste álbum foi o facto de sermos nós, principalmente, os compositores.

Nena – E daí irmos buscar o nome Banda Sonora, porque nós queríamos ligar as músicas umas às outras. Queríamos que os singles tivessem uma ligação às novas músicas.

Marlon – Pensamos que, se queríamos lançar um álbum, teríamos de criar um conceito forte à sua volta. Criámos então uma história a partir do “Cinegirasol”: no videoclipe surgem quatro personagens e, a partir daí, criámos o enredo em torno das outras músicas. Tal como disse anteriormente o Salsa, a ideia é ilustrar todas as músicas do álbum em videoclipe. Serão 13 videoclipes, uma história contínua.

Salsa – É importante voltar a dizer que a história ainda não acabou, porque ainda só lançamos seis videoclipes (risos)

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Já são três anos de tournées sem o Miguel. Como é óbvio, continuámos a tocar as músicas (e boas músicas) escritas por ele. Acho que o desafio foi exatamente percebermos como é que seria a banda sem ele, como seguiríamos em frente sem ele”, Marlon

É impossível não falarmos da saída do Miguel Araújo e como isso alterou a vossa dinâmica enquanto banda. Este concerto no Coliseu será um dos primeiros grandes concertos sem o Miguel. Como é que tem sido a vida d’Os Azeitonas sem Miguel Araújo?

Marlon – Tem sido um processo. O Miguel já saiu em 2016. Já são três anos de tournées sem o Miguel. Como é óbvio, continuámos a tocar as músicas (e boas músicas) escritas por ele. Acho que o desafio foi exatamente percebermos como é que seria a banda sem ele, como seguiríamos em frente sem ele. A resposta foi assumirmos nós as rédeas da composição e abrirmo-nos a composições de outros artistas também. Por exemplo, temos uma música do Luís Ribeiro, o guitarrista que veio substituir o Miguel nos concertos ao vivo. Mas acho que foi interessante compormos este disco, em conjunto, pela primeira vez.

Salsa – É preciso dizer que o Miguel chegava ao pé de nós com malas de músicas e nós tínhamos de dizer qual era a música fixe, qual era a música mais ou menos e qual era a música que não se encaixava. Fomos uns privilegiados por dizer “está mais ou menos” a músicas muito boas (risos) Quando o Miguel sai para fazer a carreira dele, nós passamos a tentar descobrir exatamente o que seria a continuação d’Os Azeitonas.

Marlon – Era um risco…

Salsa – Eu acho que é importante dizer que, desde que a banda começou, o risco sempre foi total. Nós não fazíamos a mínima ideia do que seria a banda. Podia estar tudo errado. Decidimos fazer músicas, composições do Miguel, que, no início, eram uma anormalidade (risos) Então, agora, por que não arriscar outra vez? Por que não tentar fazer tudo outra vez, mas sem o Miguel? Se foi divertido da primeira vez, seria, com certeza, divertido agora. Havia a hipótese de falharmos, sim, mas até com o Miguel falhámos durante dez anos, até que surgiram os Aviões num concurso de televisão…

Nena – A verdade é que a banda também já é uma família e somos todos amigos. Não fazia sentido pensarmos em acabar a banda só porque o Miguel já não tinha disponibilidade. Não fazia sentido para nós. Quisemos continuar nós o nosso caminho!

Marlon – Nós tínhamos vontade de continuar e cá estamos!

Fotografia ©Nuno Sampaio

As músicas d’Os Azeitonas não são fáceis de definir. São letras diversas, com o amor como veículo condutor na maioria das vezes. No entanto, há temáticas que vos interessam explorar? Há mensagens que querem passar? Falamos, por exemplo, da canção “Traço de Mulher” que invoca os conceitos de género, identidade ou até preconceito. Interessa-vos essa partilha de uma mensagem?

Salsa – O tema “Traço de Mulher” não é obrigatoriamente sobre isso…

Nena – Era só uma música de amor…

Marlon – Mas no videoclipe achamos interessante trazer essa temática para a canção. Há vários casos de preconceito na nossa sociedade e achei interessante trazer o caso do Bruno, uma pessoa que eu conheci, que era amigo de amigos. Pensamos em criar um enredo em torno do Bruno.

Nena – A nossa base é o amor, é a vida!

Salsa – Eu acho que o amor devia ser a base do mundo (risos) Mas gostava de acrescentar o seguinte: na música, há três momentos: o momento em que alguém faz/escreve uma música a falar sobre algo, sobre uma história; há o momento de interpretação que nós damos, publicamente, num videoclipe por exemplo; e depois há o momento em que as pessoas pensam sobre aquilo que interpretamos. Depois disso, há uma luta entre “esta música fala sobre isto” e o “esta música fala sobre aquilo”. Algures ali no meio está a verdade.

Marlon – Quando a música chega ao público, a música é das pessoas!

Salsa – Houve interpretações que fizeram de letras das nossas músicas novas que nós só pensamos: uau! Juro que gostava de ter pensado naquilo. Se fossemos bons mentirosos diríamos que era mesmo aquilo que queríamos passar… mas não era (risos)

Marlon – A partir do momento em que são lançadas, as músicas ganham toda uma nova vida e deixam de ser nossas.

Continue a ler… numa banca perto de si! A próxima printed edition da Revista RUA está quase, quase a chegar. Enquanto aguarda, consulte as nossas edições anteriores aqui.

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