Revista Rua

2020-03-23T14:13:03+00:00 Opinião

Os dias de quarentena

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
23 Março, 2020
Os dias de quarentena

Os dias de quarentena passam devagar, entre a secretária e o sofá, um cadeirão com vista lá para fora, o terraço, a cozinha. Contornando o tédio, como se de uma prova de perícia fosse eu concorrente, tenho-me apercebido que me transformei, por força das circunstâncias, num observador.

Sou um voyeur escondido em casa, a quem, por entreposta pessoa, tentaram apelidar alguns dos meus actos de “aproveitamento político”: aconselhei as pessoas a ficarem em casa, expus a minha vida para mostrar que estamos todos no mesmo barco, sugeri uma ou duas medidas.

E agora observo.

Observo filas de pessoas na entrada dos supermercados, sem usarem luvas ou máscara ou óculos, em magotes, algumas a tentarem furar; “quem é pintor?”, em tom gozão para quem tenta fazer compras protegido.

Observo trabalhadores, nas obras, em comum convívio, como se não estivéssemos em altura de distanciamento social.

Observo os postos de vendas dos jogos Santa Casa, cheios.

Observo polícias, a par, a patrulharem as ruas das cidades.

Observo pessoas que dão dicas como fazer máscaras com filtro de café; outros que vão à farmácia com goggles de moto; há quem ponha pensos higiénicos à frente da boca e do nariz!

Observo avençados, nas redes sociais, à espera da hora para atacar, sem se preocuparem muito se estão a entrar em contradição.

Observo o poder das redes sociais e das fake news.

Observo políticos a dar uma de sabichões ou de quero, posso e mando. Ainda não percebi qual das duas versões, mas, com toda a certeza, qualquer uma delas é a forma errada.

Observo pessoas a firmarem comportamentos em reuniões, mas a actuarem de forma contrária com os seus funcionários.

Observo a abertura de mercados e feiras com a explicação mais estapafúrdia que poderia haver.

Observo a hierarquização e o respeito por cargos eleitos. Ou não!

Observo a prevenção contra a doença e a criação, com conta peso e medida, de hospitais de campanha.

Observo o governo a decretar o desemprego.

Observo o pensamento eleitoralista: para as autárquicas e para as, eventuais, legislativas de 2022.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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