Revista Rua

2020-12-02T10:45:36+00:00 Opinião

Os dois lados do campo

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
2 Dezembro, 2020
Os dois lados do campo
©D.R.

Nos últimos tempos observei uma tendência estranha nas redes sociais. À primeira vista parece algo simples e até normal – mas quando me pus a pensar um pouco sobre isso estranhei.

Refiro-me ao desinteresse social por parte de utilizadores virtuais face a outros utilizadores com ideias distintas. Ora, em suma, se uma determinada pessoa tem uma ideologia política de esquerda com a qual não me identifico, limito-me a removê-la (e vice-versa). Não há cá espaço para discussão de ideias ou para ler/apresentar argumentos para determinadas posições. É certo que as redes sociais não são o local para espoletar estas discussões – porque geralmente findam numa tremenda “batatada” onde apenas insultos saltam de ecrã para ecrã – mas a verdade é que não há sequer o esforço de ler as posições de outrem.

Não me refiro a posições racistas, machistas, xenófobas ou de pura demagogia – situações onde fake news se propagam ou quando não há o devido escrutínio – nesse caso é mais que compreensível e aconselhável a remoção.

Mas o que é que acontece quando simplesmente não se “dá ao trabalho” de averiguar o outro lado da situação? (tanto na política, entre a esquerda e a direita, como noutro caso qualquer) – ocorre uma deficiência por parte da pessoa que remove, uma vez que não terá como solidificar as suas opiniões.

Vou utilizar uma metáfora muito banal, numa tentativa elucidativa: imaginem um treinador de futebol que apenas vê a sua equipa a jogar para perceber o que tem de melhorar; do outro lado um treinador que observa o modo de jogo da sua equipa e de todas as equipas adversárias; qual destes treinadores acham que estará preparado para um confronto direto?

Se a pessoa em causa não conhecer bem os dois lados da moeda, não terá como apresentar argumentos favoráveis ao seu lado, nem desfavoráveis ao lado de outrem. Por exemplo, um indivíduo que compre o jornal para apenas ler os cronistas que lhe agradam ficará mais “pobre” do que aquele que lê todos os cronistas.

Acho didático dedicar tempo, em situações fraturantes, aos vários lados em campo. De outro modo caímos para extremos onde a posição é defendida de forma muito redundante: “é assim porque é assim” ou “eu percebo disso, ‘tá calado” e pior ainda “nem vale a pena discutir, não consegues perceber o que estou a dizer” invertendo os papéis da ignorância a seu favor.

Não tenho por hábito remover aqueles que sigo. Quando vejo uma opinião dissonante da minha, tanto num jornal como num post apenas a leio e tento compreender o ponto de vista. Salvas exceções para influencers a “oferecer” deliciosos descontos de 15% numa compra onde conste o seu nome como código promocional. Quando a voz se coloca para hipérboles em vídeos longos (sem qualquer léxico que os valha, pois repetem-se constantemente) aí sim, sou obrigado a perder “amigos virtuais” voluntariamente.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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