Revista Rua

2018-05-03T20:59:43+01:00 Histórias

Os homens do leme da cultura em Guimarães

Rui Torrinha e João Pedro Vaz
Andreia Filipa Ferreira2 Abril, 2018
Os homens do leme da cultura em Guimarães
Rui Torrinha e João Pedro Vaz

Eles são os “homens fortes” da programação artística da cidade de Guimarães, que há muito se destaca pela força e vitalidade criativa, muito impulsionada pelo rótulo de Capital Europeia da Cultura, em 2012. Rui Torrinha, programador artístico do Centro Cultural Vila Flor, e João Pedro Vaz, diretor artístico d’A Oficina, são os responsáveis por algum do ritmo que move a cidade berço. Sim, algum. Porque há muito que a comunidade vimaranense incorpora uma alma artística, desdobrando-se em projetos, num autêntico turbilhão de ideias.

Fotografia: Nuno Sampaio

[ João Pedro Vaz ]

Na cidade berço, a determinação e a persistência cultural fervilha diariamente, deixando a descoberto um universo criativo que cativa públicos e coloca Guimarães no mapa de passagem de artistas nacionais e internacionais. Residências artísticas, espetáculos em estreia, nomes consagrados da música, teatro e outras artes performativas, Guimarães é palco versátil, sempre com grande contributo de criação local, seja com peças teatrais levadas a cena pelo Teatro Oficina, seja pelos inúmeros trabalhos desenvolvidos por associações locais. Neste panorama, A Oficina, uma regie-cooperativa que “nasceu da vontade de criar uma estrutura capaz de valorizar, promover e divulgar as artes tradicionais de Guimarães” é símbolo maior, tendo, ao longo dos anos, contribuído significativamente para afirmação dos bens culturais que a cidade alberga. Mantendo uma intervenção alargada, em estreita colaboração com outras instituições vimaranenses, A Oficina é a força motora do próprio Centro Cultural Vila Flor, que desde a sua inauguração em 2005 mantém viva a intensa atividade cultural da terra que viu nascer Portugal.

Unidos pela mesma vontade, Rui Torrinha e João Pedro Vaz são as melhores pessoas para nos explicar o que A Oficina é neste momento. Recém-chegado à direção d’A Oficina, depois da passagem pela direção do Teatro Oficina, João Pedro Vaz descreve estes momentos iniciais de trabalho como uma análise profunda sobre “o que A Oficina é no seu todo”. “Entro numa fase em que a ‘casa’ está estabilizada e a programação de 2018 está definida, portanto, o que estou a fazer é olhar para o funcionamento, para os eixos, criando um plano de ação geral para o futuro, que vai ser sentido sobretudo no próximo ano. A Oficina tem uma perspetiva de pensamento mais profunda, mais alargada, porque é assim que as relações com o público e com o território se criam e aprofundam. A Oficina cresceu muito, tem equipamentos diferentes, com desafios diferentes. Estamos em condições de a assumir como uma nova realidade: A Oficina deixou de ser só o Centro Cultural Vila Flor e passou a ser um instrumento de unificação da cultura de um território, com o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, com a Casa da Memória, com o Centro de Criação de Candoso, com um serviço de Educação e Mediação Cultural que está em renovação e vai permitir que o novo Serviço Educativo d’A Oficina funcione para todos os equipamentos, integralmente. Isto é um bolo que precisa do seu tempo para ser bem abordado”, explica-nos João Pedro Vaz. Com dois eixos de atuação já bem focados na sua mente, a maior projeção internacional e o alargamento do trabalho territorial, o diretor artístico d’A Oficina define o projeto como “um trabalho sempre em aberto”, unindo esforços com Rui Torrinha na solidificação “do que já existe”, dando-lhe maior visibilidade. “A Oficina já trabalha territorialmente com uma série de artistas, de projetos e até de grupos locais. Mas é necessário trabalhar esse eixo do território de uma maneira mais profunda. Depois, do ponto de vista internacional, é evidente que os equipamentos d’A Oficina, sobretudo o Centro Cultural Vila Flor, têm conseguido colocar Guimarães no mapa cultural. Somos, no fundo, o terceiro território cultural do país e, por vezes, até o primeiro, devido às relações especiais que mantemos com os artistas. Guimarães é uma nova centralidade cultural”, afirma João Pedro Vaz, acrescentando: “Estes dois eixos de trabalho podem parecer contraditórios porque ou projetamos para fora ou projetamos para dentro, mas, a partir dos projetos que temos e da sensibilidade da equipa de programação, conseguimos fazer bem as duas coisas, ou seja, ser tão locais que isso é diferenciador a nível global”. Não esquecendo de referir a importância do trabalho que é atualmente desenvolvido com escolas, levando as artes performativas a milhares de crianças do concelho e valorizando a experiência artística como veículo de uma educação não formal, João Pedro Vaz define a cultura como “uma economia de protótipo”. “Não há uma linha de montagem porque cada espetáculo é um protótipo novo, é uma nova máquina que aparece e tem de ser tratado de maneira diferente e é isso que o torna desafiante”, diz-nos.

[ Rui Torrinha ]

Neste desafio, Rui Torrinha é o homem do leme do Centro Cultural Vila Flor e, envolvido com o projeto cultural vimaranense já antes de 2012, faz hoje uma análise bastante clara daquilo que A Oficina representa para a cidade: “Guimarães já não é só A Oficina. O ecossistema cultural é muito mais vivo, muito mais forte, e obriga-nos a estar atentos no sentido de continuarmos esse trabalho complementar. A partir do momento em que algo que A Oficina desenvolve é agarrado pela cidade, o objetivo é deixar que isso se desenvolva, que ganhe o seu próprio caminho, para nós voltarmos a pensar no que é que podemos acrescentar. Esta questão da renovação permanente é, de facto, o motor que tem de estar sempre a trabalhar”, esclarece. Na verdade, apesar de toda a força e centralidade, A Oficina não secou o panorama cultural em Guimarães. “A Oficina é uma estrutura grande, com projetos muito afirmativos, mas a verdade é que por Guimarães inteiro há uma série de projetos a acontecer, de dimensões diferentes, para públicos diferentes”, remata João Pedro Vaz.

Dando prioridade às relações com os núcleos artísticos da cidade, pensando nos recursos existentes que possam permitir fazer crescer essa ligação com os parceiros, A Oficina vai cumprindo o seu papel inicial de desenvolvimento sustentado da cidade em termos culturais, levando avante diversas coproduções que preenchem o calendário de acontecimentos de referência da cidade de Guimarães. Um calendário cheio, reinventado a cada dia e inspirado pelo olhar sempre atento e construtivo de homens que encaram o horizonte como algo ainda por conquistar. E de conquistas Guimarães entende bem!

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