Revista Rua

2018-05-03T19:06:20+00:00 Opinião

.os prémios e os outros.

A Civilização do Espetáculo
Cátia Faísco
Cátia Faísco
3 Maio, 2018
.os prémios e os outros.

Há pouco tempo ajudei um amigo na edição do seu texto para concorrer a um prémio na área da literatura. A verdade é que não surgem assim tantas oportunidades e, quando isso acontece, são muitas as pessoas que concorrem. Imagino sempre, talvez fruto de uma certa inocência, que esses prémios são para aqueles ou aquelas que ainda não conseguiram introduzir-se no mercado, ou para os que aguardam “a” oportunidade. O meu amigo esperou pelos resultados e quando os mesmos foram anunciados, o prémio tinha sido atribuído a uma pessoa que já tinha várias obras publicadas e uma carreira bastante definida.

Confesso que fiquei surpreendida. Não que ache que o prémio não tenha sido bem entregue, porque até admiro a obra de quem o ganhou. Mas, saber que alguém que já está há tanto tempo no mercado literário ainda precisa de concorrer a este tipo de prémios para poder desenvolver o seu trabalho, é constatar que realmente vivemos num país em que as profissões criativas têm, na maioria das vezes, de ser exercidas em conjunto com uma outra profissão que “dê” dinheiro. Surge então outra questão. Se quem já deu provas do seu talento ainda precisa de se submeter a estes prémios, que hipótese têm aqueles que estão agora a começar?

Este é apenas um exemplo de muitos na área artística.

As perguntas são sempre muito mais do que as respostas porque, na verdade, mesmo compreendendo o meio artístico, há muitas situações que ainda me continuam a surpreender, sem encontrar realmente uma explicação.

Cátia Faísco, professora

Há duas expressões que me causam aquela urticária da qual me queixo muitas vezes aqui: artista emergente e companhia emergente. Supostamente, o trabalho de qualquer um destes dois, está a começar está a ser desenvolvido e ainda não houve tempo para uma consolidação. Mas, e quando aqueles que são considerados emergentes são aqueles que, de alguma forma, também já foram reconhecidos pelos seus pares, com algum tipo de carreira estabelecida? Até quando é que um artista ou uma companhia pode ser considerada emergente? E quem é que define esses parâmetros? E, novamente, que hipótese é que terão os que estão agora a começar? Não deveria haver espaço para uma discriminação positiva?

As perguntas são sempre muito mais do que as respostas porque, na verdade, mesmo compreendendo o meio artístico, há muitas situações que ainda me continuam a surpreender, sem encontrar realmente uma explicação. Concursos que continuam a ser ganhos pelos mesmos artistas de há dois, três anos; elencos que continuam a privilegiar as mesmas equipas de há dois, três anos… até quando?  Há uma falha na renovação do tecido artístico que é preciso colmatar. Mas, se continuamos a programar sempre os mesmos artistas “emergentes” de há dez anos ou a atribuir bolsas e prémios a quem já está estabelecido, como é que é possível mudar?

Sei que também é necessário criar estruturas de apoio aos que já trabalham há muito tempo, mas enquanto olhar para fichas técnicas no teatro, no cinema e na televisão e vir sempre os mesmos nomes, desculpem, mas vou continuar a escrever crónicas assim.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:

Escolhi a eternidade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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