Revista Rua

2018-05-03T19:13:25+00:00 Opinião

.Os provincianos.

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Cátia Faísco
Cátia Faísco
2 Abril, 2018
.Os provincianos.

Quando era pequena, muito pequenina mesma, recordo-me de ficar absolutamente fascinada com o som dos saltos altos a percorrer a calçada pela noite adentro. Adormecia com uma espécie de sorriso porque adorava a sensação de imaginar pessoas a viver aventuras enquanto eu dormia. Isto acontecia quando ia a Lisboa com os meus pais que, durante muitos anos, mantinham aquela saudade extrema da cidade que os vira nascer. No regresso a casa, perguntava-me porque é que tinham escolhido viver tão longe da capital, onde tudo acontecia. Mas, depois cresci e essa espécie de fascínio pela cidade das sete colinas, encolheu. Não porque tivesse deixado de a adorar, mas por ter percebido que o país era composto por tantos e tantos sítios igualmente interessantes e importantes.

Em Fevereiro, fui ao 2º Encontro Nacional de Escolas de Teatro, uma iniciativa fabulosa que é acolhida e organizada pelo Teatro Nacional D. Maria II. E, qual não foi o meu espanto quando me vi de regresso a uma espécie de século XIX em que se volta a utilizar a palavra “província” para distinguir todas as outras cidades que não são Lisboa. Se o vocábulo tivesse sido utilizado apenas uma vez e apenas por uma pessoa, creio que não teria dado por ela. Mas, a insistência na divisão do “nós, na província… e vocês aqui em Lisboa”, confesso, começou a causar-me uma certa urticária.  E vocês sabem como sou com este tipo de comichões…

O problema não está somente relacionado com o ponto de vista de quem o exprime, mas com o facto de serem pessoas que ensinam, que estão numa posição privilegiada de influenciar os seus alunos. E, pergunto-me, que tipo de cidadãos estaremos nós a ajudar a formar quando lhes dizemos constantemente que não podem trabalhar no sítio em que estão a estudar? Ou que não serão alguém se não se mudarem para Lisboa? Ou que a cidade/vila/aldeia onde vivem é apenas “a província”?

Hoje as distâncias tornam-se cada vez menores. E, felizmente, vivemos num país onde é possível percorrer toda a sua longitude no mesmo dia. Conheço muitas pessoas que vivem em Lisboa e que não vão a um terço dos espectáculos. E outras tantas que moram em Guimarães, Porto, Aveiro, e que vão. Não é uma questão de localização, é uma questão de atitude, é uma questão de vontade. É claro que na capital há mais oportunidades, porque também há mais oferta. Mas, também é possível trabalhar noutros pontos do país. E, nem de propósito, fui ver o Canas 44, um espéctaculo com direcção artística de Victor Hugo Pontes, onde se fala dos lugares que vão desaparecendo. Canas 44 é uma criação da Amarelo Silvestre, uma companhia que desenvolve a sua criação a partir de Canas de Senhorim.

E a minha pergunta aqui é: será que é preciso estar em Lisboa para se ter um trabalho artístico validado? Ou para se saber que se existe enquanto artista?

Recordo mais facilmente as pessoas por características que as definem, do que pelos seus nomes. E, por isso, a pessoa que mais vezes repetiu a palavra que deu mote a esta crónica vai ficar na minha memória como “a provinciana”. Espero lembrar-me sempre de todas estas coisas para dizer aos meus alunos que a vida artística fora de Lisboa é possível e que sim, o resto do país, não é só província.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o Autor

Escolhi a eternuridade como palavra mãe porque sou teimosa. Prefiro a plateia ao palco. Penso melhor debaixo de água. Adoro pôr as mãos na massa. Professora, investigadora, yogui.

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