Revista Rua

2019-02-28T11:44:00+00:00 Cultura, Música

Palas – Uma gaveta de memórias

@Nuno Sampaio
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio4 Fevereiro, 2019
Palas – Uma gaveta de memórias

Filipe Palas é o mentor por trás do projeto “Palas”. O primeiro álbum, Dente de Leão, já se pode ouvir e é quase uma homenagem aos anos 90 com uma mensagem crua sobre valores aos olhos de uma criança.

©Nuno Sampaio

Fala-me dos primórdios. Como tudo começou, onde e quando é que a música entrou na tua vida?

Tive uma grande influência da minha irmã mais velha. Sempre me mostrou boa música. Depois houve aquele hype dos anos 90 (que fizeram parte da minha adolescência), com o Grunge, que eu apreciava bastante.

Tive dois colegas no secundário que levavam sempre as guitarras para os intervalos e eu apaixonei-me logo pelo som daquele instrumento. Depois tocavam músicas de bandas que eu gostava na altura. Por consequência, em vez de ir jogar à bola, ficava ali sentado a olhar para eles. Começaram-me a ensinar uns acordes e o resto fui aprendendo em casa. O meu pai deu-me a primeira viola aos 15 anos e em casa tentava perceber as melodias que passavam na rádio.

Mais tarde conheci o Luís Fernandes – que também tinha esse bichinho da guitarra. Juntamo-nos e fizemos umas músicas. Logo de seguida nasce o primeiro grupo, Sterling Moving Company. Comigo, o Luís, o Ronaldo Fonseca, atual vocalista dos Peixe: Avião…músicos no ativo são só esses. Gravamos uma cassete que na altura enviávamos para a Blitz, não havia internet! Entramos em alguns concursos e ganhámos vários.

Com a entrada na universidade cada um seguiu o seu caminho. Eles formaram os Peixe:Avião e eu juntamente com outros músicos formámos os Smix Smox Smux.

Ainda hoje repartimos a sala de ensaio.

Mais tarde nasceu o projeto Máquina del Amor, com todos os membros dos Smix Smox Smux mais o Ronaldo Fonseca dos Peixe:Avião. Um som completamente diferente. Até costumo dizer que fazemos música pata bandas sonoras; mais instrumental e eletrónico.

Smix Smox Smux e Máquina del Amor são bandas completamente distintas das quais fizeste parte. Qual a grande diferença para este projeto, Palas, onde é que ele se encaixa?

Eu gravava umas músicas em casa que não se encaixavam em nenhum dos projetos anteriores. Fui guardando essas músicas com a intenção de, mais tarde, lançar um projeto a solo. No final de 2018 a gaveta já estava muito cheia e achei que estava na hora de as lançar cá para fora.

Nets primeiro álbum Dente de Leão também existem músicas muito distintas, como se viessem de blocos de música diferentes: algumas num tom mais humorístico como na música “Pau” ou “Saltar à corda”, outras, como “Prazer”, mais complexas e com um rock que sonda os anos 90. Esta versatilidade compõe a mensagem que queres transmitir?

Eu não me considero um músico nem um escritor. Gosto de fazer música. Também não sou um técnico na guitarra. Gosto muito de compor e de fazer arranjos, mas faço aquilo que sei mostrar ao vivo. Para mim são coisas que fazem sentido na hora. É normal que as músicas mais divertidas estejam no início do álbum e as mais complexas para o fim; faz parte da minha evolução aos longo dos anos. Decidi juntar tudo porque para mim é o que faz sentido.

Existe uma mensagem ou apenas o prazer de criar canções sem essa preocupação?

Tem muito a ver com estes últimos anos. Fui pai de duas meninas e tem um pouco a ver com a sociedade de hoje aos olhos delas. Hoje ficámos sempre com um pé atrás! Andamos a fazer crianças para quê? Com a falta de valores e de educação.

Isso tudo está presente neste álbum?

Sim, aos olhos de uma criança. Pensei mesmo nas minhas filhas. Desde a capa que tem uma fotografia delas, o vídeo da música “Saltar à corda” até à mensagem da “Esperança”, que são os dois singles.

O título do álbum Dente de Leão tem alguma história?

Tem a ver também com as minhas filhas. Eu moro numa rua no centro histórico de Braga e durante todo o ano, nessa rua, existe essa flor “dente de leão”. Elas todos os dias antes de irem para escola pegam na flor e começam a soprar.

©Nuno Sampaio

“Inglês”, a música, em inglês, a língua, quando todo o álbum é cantado em português. Achas mais fácil cantar em inglês do que na língua de Camões?

Acho. É mais fácil fazer rimas em inglês. Para o músico que está a escrever talvez aquilo faça sentido, mas quando é traduzido para português quase que é motivo de gozo! E nisto apenas me estou a referir às bandas nacionais. Nos anos 90 acontecia muito isso, bandas portuguesas escreverem em inglês. Hoje, felizmente, cada vez existem mais bandas a escrever e a cantar em português e os grandes culpados foram as rádios. Há uma maior aceitação por parte das rádios e passam muito mais música cantada em português.

Como funciona o teu processo criativo?

Faço primeiro a parte instrumental depois escrevo a letra. De seguida vou para a sala de ensaio com os músicos que convidei para este projeto e tentamos criar. Muitas vezes sai de maneira diferente do que eu estava a pensar porque são quatro cabeças a pensar.

 Quem são os músicos convidados para este projeto?

Na guitarra, o Tiago Calçada que também toca nos Bed Legs, o João Vitor na bateria, ex baterista dos GrandFather’s House e atualmente também baterista do Dead Man Talking. No clarinete convidei o Luís Marques, um miúdo com 20 anos. Este é o primeiro projeto que está envolvido. Tirou o curso na Gulbenkian e costuma tocar na rua. Por fim o Sérgio no baixo, também baixista dos Quadra.

Neste momento estás envolvido em alguns projetos. Existe tempo para tudo? Já tiveste que desistir de algum projeto por algum motivo?

Primeiro tenho que agradecer à mulher que tenho. Tem toda a paciência do mundo e ainda me dá muita liberdade. Isto é o que mais gosto, tirando a parte da minha família, claro. Sem a música nada fazia sentido!

As pessoas que trabalham comigo nos mais variados projetos também têm outros empregos e alguns estão trabalham ou vivem fora de Braga. Neste mundo da música temos que ser compreensivos.

Braga nos últimos tempos teve um crescimento bastante acentuado em termos de bandas, tanto em quantidade como em qualidade. Há muita gente a fazer coisas bem feitas. Existe também muita interação entre músicos de bandas diferentes. Achas que toda esta sintonia cria uma identidade própria na música que se produz aqui na cidade? Há um som de Braga?

Há um movimento de Braga! Nos últimos cinco (ou mais) anos houve uma força na aceitação musical por parte dos ouvintes e das rádios. Estão sempre bandas a sair do forno e com qualidade e isso levou a um grande respeito por Braga a nível musical.

Tudo isto tem muito a ver com as salas de ensaio do estádio municipal. Na autarquia anterior, com o Mesquita Machado, foram criadas cerca de dez salas de ensaio e com total liberdade de horários. A partir daí houve troca de músicos e amizades que se foram construindo ali. Ver as outras bandas a evoluir ou assistir aos ensaios de outros grupos também te dá mais entusiasmo para criares. Criou-se ali um nicho de música. Há miúdos agora que cresceram a ouvir e a ver esta evolução musical na cidade e estão também a tentar criar o seu próprio estilo. Casos como Mr. Mojo ou GrandFather’s House são dois bons exemplo. Os Mão Morta começaram lá e ainda hoje ensaiam lá.

Onde é que podemos ver Palas nos próximos tempos?

O próximo concerto é em março no Plano B, no Porto.

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