Revista Rua

2019-07-30T12:10:07+00:00 Património

Pão, Carne e Água: Memórias de Lisboa Medieval

Uma viagem de riqueza histórica ao quotidiano da Idade Média em Lisboa
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva30 Julho, 2019
Pão, Carne e Água: Memórias de Lisboa Medieval
Uma viagem de riqueza histórica ao quotidiano da Idade Média em Lisboa

Partindo da história do abastecimento de Lisboa, porto e ponto estratégico do país, das embarcações que trariam produtos de outras paragens, nomeadamente especiarias e outros alimentos exóticos provenientes dos trópicos de Além-Mar, da localização próxima às redondezas dos campos de cultivo, passando pelo ritual da comida, dos costumes alimentares nas mesas da população, a juntar com o riquíssimo espólio arqueológico que se vai encontrando nas fundações da cidade, a exposição Pão, Carne e Água torna-se numa imagem quase real do que seria a vivência das gentes da Idade Média.

Com coordenação científica de Mário Farelo e de Amélia Aguiar Andrade, ambos Professores na Universidade Nova de Lisboa, a exposição estará patente na Torre do Tombo até dia 30 de agosto, após ter sido prolongada devido ao número crescente de visitantes.

Numa das suas muitas particularidades, destacamos nesta exposição, a descrição das gravuras e iluminuras, bem como a apresentação de utensílios domésticos usados à época pelos diferentes estratos sociais, em barro ou cerâmica. Nesta sua representação, pode-se então inferir o contexto social da casa familiar, baseado no seu poder económico para aquisição de produtos alimentares e tipo de loiças usadas.

Livro das horas de D. Manuel ©MNAA

Carne e Peixe: Rico ou Pobre

A presença da Carne, confecionada de acordo com os ritos de cada cultura e religião, associa-se igualmente à existência de riqueza, ascensão social e poder de compra. A presença de talhantes era igualmente marginalizada para zonas menos concorridas da cidade, devido à imagem de sangue, vísceras, maus-cheiros que acompanhavam o processo de tratamento; por seu lado, o Peixe era usado ou pelas famílias menos abastadas, ou em dias sagrados, onde o consumo de carne será proibido, também podendo ser considerado como um alimento de castidade, vida monástica, de desapego e abandono de materialismo.

A ocorrência de legumes ou vegetais, principalmente como acompanhamento, devia-se substancialmente à proximidade com as zonas hortícolas, bem como o consumo de fruta, proveniente também do território nacional. A utilização de especiarias, e de açúcar, seria assim também limitada ao consumo dos mais ricos, devido ao seu alto preço.

Chamando à atenção detalhes como a ausência de garfos à época (usando-se apenas uma colher e faca), e ao dito popular de “tirar a mesa” – resultado da dimensão das casas medievais, nas quais, a mesa era literalmente montada e desmontada, removida, para cada refeição, também são reveladas as inscrições régias da construção dos principais chafarizes e fontes da cidade. A presença de escudos reais, em cada construção, teria um aspeto estratégico, bem como de difusão da inovação tecnológica referente à captação de água e à sua canalização, tanto de água fresca, proveniente de fontes, como da água meteórica, proveniente de chuvas, podendo ser reutilizada em alguns edifícios principais, como o Hospital de Todos os Santos, conventos, etc.

Com coordenação científica de Mário Farelo e de Amélia Aguiar Andrade, ambos Professores na Universidade Nova de Lisboa, a exposição estará patente na Torre do Tombo até dia 30 de agosto, após ter sido prolongada devido ao número crescente de visitantes.

Água Sagrada

É aliás, a estratégia de captação e encanação da Água, outro dos temas essenciais à exposição, como o título indica – nomeadamente se pensarmos que a cidade de Lisboa seria suja e o Tejo não era olhado como nos dias de hoje: um símbolo da cidade, um ponto de partida e Descobertas. O Tejo seria o destino final das águas sujas, enlameadas e impuras que corriam pela cidade, pese embora a tentativa por parte das autoridades em realizar um escoamento subterrâneo eficaz – que só ocorreria muito mais tarde com as obras de Pombal e até meados do séc. XX, em alguns bairros mais tradicionais. Também se observa que os chafarizes eram um espaço de convivência entre pessoas, como verificado numa regulamentação (datada de 1432), na qual as crianças que acompanhavam muitas vezes as mães/mulheres na recolha de água no Chafariz dos Cavalos (ou Chafariz de Dentro, num sopé de Alfama), não podiam brincar com a água nem tão pouco atirar pedras para dentro do tanque, confirmando o elemento natural, como um recurso e bem precioso.

A existência de Pão e Azeite

A produção de cereais era deficitária em Portugal, ao contrário do que se pode esperar. A estratégia pensada incluía circuitos de abastecimento também para a feitura do Pão. Em caso de grande escassez, a falta deste alimento poderia desencadear revolta popular, sendo por isso essencial a construção de vias internas e externas ao Reino: drenar para o Litoral e daí variar para várias regiões, ou através da descida do Tejo, para a cidade. As rotas externas eram provenientes do Mediterrâneo, nomeadamente da Sicília, conhecida como o “celeiro da Cristandade” e Andaluzia. Em último recurso, havia autorização para comercializar mantimentos no Norte de África, a “terra de infiéis”, em caso de necessidade absoluta.

O Azeite à mesa, era um dos bens mais preciosos – e Portugal sempre foi rico na sua produção, muito também devido à presença anterior árabe. Não é de todo estranho imaginar a presença de azeitonas à mesa, tal como ocorre nos dias de hoje.

De carácter pormenorizado riquíssimo, Pão, Carne e Água, será talvez uma das exposições sobre a época medieval mais completas, muito também devido a toda a análise e estudo de documentação existente. A contextualização dos três elementos base e a descrição dos comportamentos sociais a partir dos mesmos é um chamariz ao nosso intelecto, podendo facilmente espelhar outras cidades e realidades do país, cujos costumes, incluindo os das minorias, não destoariam uns dos outros. Citando o Professor Mário Farelo, no seu texto introdutório: “Mais do que simplesmente uma necessidade biológica primária, as escolhas alimentares efetuadas, pela disponibilidade e capacidade de aquisição dos produtos utilizados, acabavam por espelhar, afinal, o lugar ocupado por cada pessoa na sociedade”.

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