Revista Rua

2020-05-18T14:41:03+00:00 Cultura, Música

:papercutz lança o novíssimo “King Ruiner”, um trabalho de electrónica pop negra e exótica

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Nuno Sampaio
Nuno Sampaio18 Maio, 2020
:papercutz lança o novíssimo “King Ruiner”, um trabalho de electrónica pop negra e exótica

O projecto nacional :PAPERCUTZ, do produtor Bruno Miguel, lança o novo álbum King Ruiner, um trabalho de electrónica pop negra e exótica, gravado entre o Porto, NYC, Hamburgo e Tóquio. O novo trabalho conta com diversa vocalistas, como a portuguesa, Catarina Miranda, conhecida pelo seu trabalho como Emmy Curl, além de Ferri, uma artista japonesa destacada pela crítica como uma das revelações de 2019 e a alemã Lia Bilinski, uma cantora que tem feito parte de diversos grupos destacados na imprensa alemã. A edição conta com a editora responsável por álbuns de Of Montreal, Clap Your Hands Say Yeah e Unknown Mortal Orchestra.

King Ruiner é o quinto álbum de originais e desde o álbum Lylac (2008) uma eletrónica se revela, um lado desconhecido deste género musical que nos foi ficando cada vez mais presente. Fala-nos de King Ruiner e dos seus principais sintomas em relação à estrutura musical que vens adotando.

Bruno Miguel – Cada álbum de :PAPERCUTZ apresenta sempre um desafio para mim porque quero dar um passo significativo em frente, manter alguns elementos que nos caracterizam e casar música com letras, tudo à volta de um conceito. King Ruiner é um trabalho cuja narrativa acompanha uma personagem que luta contra sentimentos de fracasso, a frustração de planos perdidos e ambições não correspondidas e que, ao longo do álbum, evoluem para um sentido de esperança mas sem certezas absolutas. Aliás o último tema de nome “Year New” fala precisamente de novos começos, mas não indica mais que isso, apenas aponta um caminho. No entanto quando escrevi o álbum estava longe de imaginar o que iria acontecer e que isso seria uma realidade alargada ao resto do mundo, ou seja, estes tempos incertos em que nos encontramos. De forma a descrever essa realidade introduzi elementos caracterizados como ‘exóticos’ por exemplo em melodias orientais, que apelam a um maior escape, que é uma das necessidade da personagem principal e à ideia de resiliência e superação como nos coros inspirados na tradição Africana. Esta, por exemplo, feita por cantores amadores que se expressam na música da forma mais genuína possível e que apesar das suas enormes dificuldades tem um gosto pela vida tremendo, uma espiritualidade. Daí ter feito todo o sentido e pelas conhecidas razões históricas, se ter tornado na música gospel. Apesar da religião não me dizer nada, a ideia da procura de um lugar no mundo e os valores a ter é algo que se manifestou em mim ao longo destes últimos tempos e como tal acabou por contaminar este trabalho. Tudo isto, claro, expresso através de canções com uma base electrónica porque continua a ser o género que mais me entusiasma e maior liberdade me proporciona, e como tal tentei dotar o trabalho de modernidade e algum experimentalismo em termos estéticos.

Gravar um álbum a partir de cidades diferentes como Porto, Nova Iorque, Hamburgo e Tóquio, converge a música num ponto comum ou assume as diferenças culturais no seu estado puro?

Buno Miguel – Eu penso que estas diferenças num mundo globalizado começam a ficar esbatidas, felizmente, não na sua essência mas na sua possível fusão. A música sempre foi um elemento unificador nesse sentido e hoje em dia cada vez mais. Houve uma altura em que em cada uma dessas cidades se ouvia géneros locais e importava-se outros, mas em tempos actuais tens por exemplo projetos indie de Nova Iorque altamente inspirados por música Asiática ou até no Porto em que se funde cultura electrónica Inglesa com ritmos Africanos. Penso que essa aceitação só pode vir a criar novas e interessantes linguagens, algo que músicos como o David Byrne, felizmente já previam. Este fenómeno não é inteiramente novo mas os resultados são mais naturais e interessantes que no passado.

Catrina Miranda (conhecida pelo seu trabalho como Emmy Curl), Ferri, uma artista japonesa e a alemã Lia Bilinski são nomes que constam na lista de colaborações deste último trabalho. Como é repartir o álbum em vozes e estilos tão diferentes?

Bruno Miguel – É algo totalmente propositado, assumir e enriquecer o álbum com essas diferenças. Nas gravações cada uma interpreta a personagem das letras e empresta a sua voz e identidade ao trabalho final. Do meu lado, também como produtor e antevendo o resultado final, tenho o cuidado que estas participações sirvam um propósito. Neste álbum em particular tentei que as vozes trouxessem diferentes cores ao espectro musical além de um sentido de globalismo, procurando gravar com cantoras de várias geografias e com formas de interpretar os temas bem diferentes.

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As vozes assumem o papel de unificação musical no teu trabalho?

Bruno Miguel – A voz feminina sim, é um elemento importante no meu trabalho como :PAPERCUTZ e algo que o marca, apesar da minha própria voz fazer parte também, mas mais escondida e para servir de contra ponto. Os meus instrumentais tendem a ser densos e muitas vezes como uma ambiência negra e a voz feminina contribui para dotar os temas de um lado etéreo que aprecio e que sempre fez parte do projecto.

Uma janela de sete anos separa The Blur Betweeen Us (2013) de King Ruiner (2020). Este foi um tempo necessário para criação ou uma pausa emergente?

Bruno Miguel – Foi uma pausa em termos de edições de álbuns, mas saiu um tema em 2016 de nome “Trust/Surrender” que já apontava um possível caminho e remisturas para o qual fui convidado, um conceito que é mais comum fora de Portugal e que permite que artistas cruzem os seus pequenos mundos. De resto nunca estivemos propriamente parados porque mal terminarmos as gravações seguimos para concertos. Eu decidi algo novo para o projecto até ao momento, começar por tocar os temas ao vivo antes da edição e usar essa experiência para escolher as canções do alinhamento final e melhorar algumas das ideias de estúdio. Desde o último álbum que existe uma maior troca de experiências entre o estúdio e os concertos e achei que seria benéfico para o resultado final em passar por tal primeiro. Só após esse período senti que faria sentido lançar este álbum. Foi uma espécie de prova de conceito, ver como as pessoas se ligavam aos temas. Além do mais, tal como o álbum descreve, passei tempos de alguma falta de confiança e percebi uma verdade, que quando um trabalho espelha tanto da tua vivência, é difícil a sua conclusão.

2019 foi um ano de digressões. Para além de Portugal passaste por países como Espanha, França, Alemanha, Itália, Polónia, Estados Unidos, Reino Unido e muitos outros. Públicos diferentes, culturas diferentes, a mesma música. O resultado final em termos de receção, – na tua perspetiva como músico -, é muito diferente entre públicos tão distintos?

Bruno Miguel – Claro que sim, como deves imaginar um Europeu reage num concerto de forma diferente que um americano, ou mesmo japonês ou islandês, –  outros dos últimos locais onde tocamos. Existe uma questão cultural muito forte na forma como o público interage com uma banda num concerto e eu aprecio todos esses momentos. Em parte também porque nos desafia a construir um concerto que é mutante, ou seja, varia de acordo com os sítios onde vamos tocar e que evita que nos possamos repetir em demasia.

Bruno Miguel ©D.R.

 2019 também foi o ano de uma residência artística em Nova Iorque. Que influências daqui se revelaram no teu trabalho?

Bruno Miguel – Na realidade em termos de influências musicais Nova Iorque assume não um papel estético neste álbum, mas uma característica de produção e trabalho de estúdio. Eu participei como músico convidado num songwriting camp, (à falta de uma tradução apropriada é o termo oficial), que é um encontro entre compositores e cantores que, num curto espaço de tempo, procuram escrever música para mais tarde virem a fazer parte de um trabalho de um artista. Essa ginástica foi-me útil para perceber qual a melhor forma de tratar o meu trabalho, colocando-me como se fosse uma entidade externa e tomando decisões nesse sentido, o que não é de todo fácil mas eu apreciei o exercício e espero que me seja útil em outros trabalhos.

Com a maior parte dos concertos cancelados devido ao vírus que se instalou a nível mundial, como esperas divulgar este último álbum?

Bruno Miguel – Bem, uma reposta óbvia seria através deste tipo de diálogos, entre eu como músico e jornalistas ou radialistas em que tento explicar este trabalho. Ele pode parecer simples porque tem uma linguagem que se pretende acessível mas, e assim o espero, que, se os ouvintes derem o tempo necessário, percebam as diversas texturas e espaço de interpretação para a sua própria vivência. Temos ainda muitos outros projettos relativos ao King Ruiner, vai sair uma edição alargada com remisturas de artistas Portugueses (Octapush, Throes + The Shine, Scúru Fitchádu, Ondness, Farwarmth, Pedro Ivvvo e Beautify Junkyards) não por algum sentido nacionalista, apenas porque que me vejo a seguir o trabalho destes autores e a reconheço que temos vozes próprias e interessantes para oferecer neste canto do mundo. Estamos também a trabalhar em vídeoclips para os singles, o que apresenta alguns problemas e atrasos, mas ao mesmo tempo um desafio para resolver e, caso os concertos não arranquem, pretendemos gravar algumas sessões em estúdio como se de um actuação se tratasse, mas apenas quando puder usufruir de alguma qualidade. Nos próximos tempos temos todos um bravo mundo novo em que vamos viver e em vez de me fixar na frustração do que foi perdido pretendo focar-me no que existe por explorar.

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