Revista Rua

2019-02-21T10:23:21+00:00 Bússola, Viagens

Partir para ficar: uma viagem pelo Mundo

O casal Joana Nogueira e Tiago Pinho largou o emprego para viajar pelo mundo. Na página de Instagram Partir para Ficar podemos encontrar as suas aventuras.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva21 Fevereiro, 2019
Partir para ficar: uma viagem pelo Mundo
O casal Joana Nogueira e Tiago Pinho largou o emprego para viajar pelo mundo. Na página de Instagram Partir para Ficar podemos encontrar as suas aventuras.

É com a frase de José Mário Branco que Joana Nogueira e Tiago Pinho, um casal de Sever do Vouga, a viver e a trabalhar em Lisboa, se inspiraram para o lema da viagem das suas vidas. Planificando tudo em dois anos, deixaram Portugal a 29 de maio de 2018, rumo a Budapeste – a única viagem de avião que fizeram até agora. Desde então têm “corrido” o Médio Oriente, a Índia, chegando ao destino esperado (pelo menos na geografia que tinham previsto no mapa), encontrando-se e demorando-se agora pela Malásia, por meio de autocarros, comboio (quando possível), mas principalmente boleias. E é através das redes sociais, nomeadamente Facebook e Instagram (@partir.para.ficar) que vão dando a conhecer, mais do que se mostrarem como tantos outros casais, os diferentes países, culturas, cidades e aldeias por onde vão passando.

“Olhando para trás, relembramos alguns momentos com muitos sorrisos. O Irão ficará guardado com um carinho especial. Mostrou-nos que podemos ser pessoas melhores com a sua arte de bem receber os outros. Na memória temos o nosso amigo taxista que nos levou até à autoestrada para conseguirmos sair da confusão de Teerão e pedirmos boleia para seguir caminho. No fim perguntamos: quanto é? – nada, nada, agora somos amigos. Conseguem imaginar as nossas caras? Esta foi uma das muitas lições que os iranianos nos deram”, conta-nos o casal.

Na página do Instagram, ambos vão explicando os valores que vão gastando em cada momento da jornada e já fizeram também um resumo de como, quando, onde e quanto se paga pelos vistos.

Na verdade, o que a Joana e o Tiago mostram é que nem sempre o preconceito funciona, nem há países ou pessoas piores do que no Ocidente, que quando tudo é feito com real honestidade e amor, o que nos é retribuído é a mesma honestidade, amor, simpatia e disponibilidade. Tanto podem dormir em casa de famílias que os acolhem como filhos ou irmãos, em templos budistas ou antigas mesquitas, como em hostels onde vão encontrando outros jovens que também decidiram fazer meses ou anos sabáticos, igualmente para viajar de uma forma menos turística do que é o costume e habitual. É aliás cada vez mais comum entre jovens europeus, principalmente noutros países, haver uma certa necessidade de largar tudo e partir para descobrir o mundo. Possivelmente uma resposta às mudanças cada vez mais rápidas que ocorrem nas sociedades ditas modernas, onde o que se espera é que cada um de nós seja mais e melhor do que o outro, acabando por se perderem valores e sentimentos tão básicos como a empatia – basta andar em transportes públicos para ver e perceber a tensão em que vivemos, o desagrado e impaciência, que acabam por revelar talvez alguma infelicidade.

Mas, se lá fora é assim, porque é que em Portugal, país de Descobrimentos e Descobridores, as coisas não correm tão bem? Para o casal, a necessidade desta viagem partiu sem dúvida da igual necessidade de ver e conhecer, de aprender, mas claro que não o fizerem como apenas dois jovens inconsequentes: Joana teve de pedir licença sem vencimento, Tiago acabou por se despedir, uma vez que a empresa não lhe permitia fazer o mesmo que a namorada – ainda assim, em dois anos, arrecadaram dinheiro suficiente para conseguirem fazer uma vida normal lá fora. E toda a ideia de percorrerem tantos países por terra, levando apenas a mochila e tenda às costas, não se importando com as condições atmosféricas, conseguindo fazer refeições a dois euros e gastando por dia uma média de cinco a dez euros, é uma grande ajuda – perdem mais dinheiro com os vistos de entrada e estadia em alguns dos países, nomeadamente os mais turísticos. Na página do Instagram, ambos vão explicando os valores que vão gastando em cada momento da jornada e já fizeram também um resumo de como, quando, onde e quanto se paga pelos vistos.

A questão é perceber que quando há um orçamento bem feito, elaborado ao quase detalhe mais pequeno, acaba por não ser uma ideia de miúdos ricos ou hippies “malucos”. É sim uma decisão e estilo de vida, numa forma de também saírem do que está estabelecido pelos cânones do tradicional, e daí a inspiração de José Mário Branco na vida do casal: a constante inconformidade.

“Sabíamos quais os países que queríamos muito visitar, o resto do itinerário foi surgindo ao longo dos dias. Já antes de partirmos estabelecemos como essencial passar algum tempo nos locais, perceber como é que as pessoas vivem e por onde se movem, comer e conversar com elas. Para isso, pensamos que o couchsurfing e a boleia seriam excelentes formas de chegar perto da cultura de um povo. E não nos enganamos”, contam.

Outra das filosofias do casal é viajarem leves – e isto implica não comprarem nada que não lhes seja essencial. Vivemos numa sociedade altamente consumista, mas o que ganhamos exatamente com isso? Em entrevista ambos responderam que trabalhamos cada vez mais para corresponder a tudo o que queremos ter e adquirir, mas a real pergunta que se deve fazer é se temos a necessidade ou é apenas uma forma de nos sentirmos integrados ou incluídos em algo que acaba por ultrapassar. Muito mais do que coisas, o que se percebe é que se ganha algo que nenhum dinheiro poderá comprar: “Todas as pessoas com quem nos cruzamos têm acrescentado algo de novo nesta grande experiência, desde o camionista que nos deu boleia na Turquia e com quem passamos nove horas até ao dono do café de rua onde tomávamos sempre o pequeno-almoço no Bangladesh”.

“Já antes de partirmos estabelecemos como essencial passar algum tempo nos locais, perceber como é que as pessoas vivem e por onde se movem, comer e conversar com elas. Para isso, pensamos que o couchsurfing e a boleia seriam excelentes formas de chegar perto da cultura de um povo. E não nos enganamos”, contam.

E finalmente, embora ambos afirmem que as saudades da família e amigos já sejam muitas, também declaram que nunca, até hoje, lhes passou pela cabeça apanharem um avião para regressarem a casa. Há dias bons e dias menos bons. Nunca são maus, mesmo que comecem de madrugada e terminem na madrugada seguinte. E seja o que for que lhes aconteça, todas as aventuras, todas as pessoas que conheçam, peripécias e fotografias maravilhosas de paisagens de cortar a respiração são partilhadas para todos os que os seguem nesta maravilhosa e incrível saga. Podemos não estar na viagem, mas acabamos por partir com eles e, ao mesmo tempo, ficar, para passar palavra, para ganhar coragem e talvez para voar.

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