Revista Rua

2019-08-27T11:42:13+01:00 Opinião

Passado acessível ou a arte de transpor barreiras

Turismo e Património
Hugo Aluai Sampaio
27 Agosto, 2019
Passado acessível ou a arte de transpor barreiras
Imagem representativa

A luta é constante. Para aqueles que sofrem de algum tipo de incapacidade, seja ela temporária ou definitiva, o acesso a certas comodidades mundanas pode tornar-se deveras complicado.

Para lá dos balcões de atendimento ou dos ATMs que desconsideram uma pessoa de cadeira de rodas; dos passeios (quando existem!) sem rampas que facilitem a sua circulação; da falta de políticas inclusivas que não distingam o que é diferente, mas que incluam todos por igual; ou da ausência de outros serviços e equipamentos criados/construídos de raiz (em pleno século XXI tal parece incrível) que apenas seguem o modus operandi/disposição dita convencional, há toda uma necessidade de tentarmos conjuntamente quebrar barreiras.

Ligeiro parêntesis: estar incapacitado engloba diferentes realidades e níveis; tal não inclui apenas as pessoas de cadeiras de rodas; a matéria de incapacidade inclui grávidas, obesos e, claro, a terceira idade. Quem nunca experienciou a limitação temporária de um entorse de um pé, de um gesso num braço, ou cenário afim? Temporário? Sim, mas incapacitante. Desconstrua-se então esse mito do “deficiente de cadeira de rodas” e comecemos a ter uma visão mais holística sobre este tema. Comecemos, também, a tratar todos por igual, já é tempo de pararmos de tratar certas pessoas como coitadinhas. Deveríamos, antes sim, aprender com as suas histórias de vida e com a energia e determinação que emanam! Muitas são uma inspiração.

Divagações à parte, e centrando no que interessa, o acesso ao Património Cultural sofre, também ele, do mal da acessibilidade. Se é certo que muito do edificado histórico é incompatível com alterações que o tornem acessível a todos – por todas as características físicas que o inviabilizam –, muito trabalho há ainda a fazer nesta matéria.

Pena é que muitas pessoas apenas valorizam este problema quando têm um exemplo próximo, na família ou no seu círculo de amigos ou conhecidos. É mais que hora de trabalhar no sentido da igualdade de oportunidades para todos, sem exceção.

No que ao Turismo diz respeito, algumas são já as preocupações neste sentido. É verdade que há mais oferta para o segmento. Os operadores estão mais sensíveis. A população em geral compreende as limitações e coopera. Mas a materialização destas preocupações está longe de ser pacífica. Muitos locais nem plano turístico têm, quanto mais políticas de acessibilidade reduzida ou condicionada. Depois, são poucas as autarquias que lidam com este problema de perto e o assumem como uma questão de interesse acrescido para o futuro.

Os dados estão aí para quem os quiser ler. Os números mostram o decréscimo na natalidade; comprovam o envelhecimento da população; reforçam o crescimento no turismo sénior. Tudo isto tornará esta questão das acessibilidades uma discussão premente, mas não apenas no panorama quotidiano. O mundo tem que se adaptar a estas necessidades. Cada vez mais. Pena é que muitas pessoas apenas valorizam este problema quando têm um exemplo próximo, na família ou no seu círculo de amigos ou conhecidos. É mais que hora de trabalhar no sentido da igualdade de oportunidades para todos, sem exceção. Se é certo que combater estas condicionantes nem sempre desemboca no extinguir ou atenuar estas condicionantes, haja, pelo menos, a consciência sobre o problema. O reconhecimento é, de resto, o primeiro passo para a mudança…

Sobre o autor:
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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