Revista Rua

2018-08-16T14:29:50+00:00 Opinião

.Patrícia Portela.

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Cátia Faísco
Cátia Faísco
7 Janeiro, 2018
.Patrícia Portela.

Janeiro, para mim, não é só o início de mais um ano no calendário. A aniversariante que há em mim gosta de utilizar o cartaz que diz ‘fechada para balanço’ e recolher-se para rever o ano que passou e contemplar o que virá. Nessa imensidão turbulenta de sentimentos, acontecimentos e pessoas, há sempre alguém que se destaca e que, de alguma forma, marcou o nosso ano. Para mim, essa pessoa foi a dramaturga Patrícia Portela.

Admiro profundamente quem circula pela vida com tenacidade e, principalmente, com curiosidade.  Com o coração entre Portugal e Bélgica, Patrícia Portela é uma mulher multifacetada e de difícil caracterização no que concerne à sua persona artística. A encenação, a escrita dramática, a narrativa e os figurinos, são apenas algumas das áreas em que a artista se move. E embora Patrícia Portela consiga deixar um rasto de fascínio em qualquer uma delas, para mim, a escrita é o domínio no qual a admiro mais.

A primeira vez que a ouvi falar acerca dos seus trabalhos, já conhecia um pouco do seu universo. Patrícia Portela move-se com a inteligência e a agilidade de quem sabe partilhar e, sobretudo, de quem gosta de o fazer. E, sejamos sinceros, nem sempre se encontra artistas com este tipo de características. No mês passado, houve o lançamento de Ensaios Ruminantes, um livro acerca da sua obra performativa. A certa altura, alguém no público perguntou para quando o regresso ao teatro. E a dramaturga respondeu com um nível de sinceridade e auto reflexão que conheço em poucos. “Quando fiz A Colecção Privada de Acácio Nobre – 2015 – apercebi-me de que o estava a fazer para mim e quando fazemos isso, será que faz sentido apresentar ao público?”.

Recordo-me de um dramaturgo convidado para falar com um grupo de alunos acerca do seu processo de trabalho. E entre deambulações estratosférico-teatrais, foi questionado acerca de como é que escrevia. Ele, num riso amplo, deslizou a sua cadeira para a frente da secretária e disse: “É fácil! Ponho o computador em cima da mesa e faço assim!”. E começou a teatralizar os seus dedos a martelar num teclado. Obviamente que a aluna pretendia saber o que o inspirava, ou que tipo de mecanismos utilizava, ou outra qualquer coisa semelhante e todos, inclusive ele, perceberam isso. Mas, de alguma forma, ele achou que estava acima dela e que a sua pergunta era ridícula, portanto, não lhe respondeu.

Não gosto de comparações. Aliás, detesto. É uma espécie de alergia que mantenho desde que os meus pais nos comparavam (eu e as minhas irmãs) às filhas do dono da loja da rua na qual morávamos. Mas, por vezes, é impossível evitá-las. E dou por mim a questionar porque é que pessoas que escolheram estar no centro da atenção do público, e se prestam a momentos de partilha, agem de uma forma tão díspar? Eu sei, eu sei. Têm personalidades diferentes e não têm de se comportar da mesma forma. Mas, então porquê a arrogância?

Regressando à Patrícia Portela: a singularidade da sua voz merece ser lida e apreciada por todos. Portanto, deixo-vos aqui uma sugestão para o ano todo: www.patriciaportela.pt. Que 2018 seja um ano de descobertas!

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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