Revista Rua

2019-11-04T15:00:44+00:00 Opinião

Património Mundial: que desafios se seguem à classificação?

Património
Hugo Aluai Sampaio
4 Novembro, 2019
Património Mundial: que desafios se seguem à classificação?

Em julho deste ano, o World Heritage Centre (Comité da UNESCO) distinguia o Bom Jesus do Monte, em Braga, juntamente com o Palácio de Mafra, como Património Mundial. De resto, esta é a classificação mais elevada a que o Património Cultural e Natural pode aspirar. Com estes dois exemplares sobe para 16 os sítios de Património Cultural portugueses classificados como tal. A estes podemos também adicionar, ainda que na modalidade de Património Natural, a Floresta Laurissilva, na Madeira.

Mas se tanta gente por esse mundo fora nem sequer sabe onde fica Portugal, quanto mais saber onde fica o Bom Jesus do Monte, em Braga? Na verdade, ser classificado como Património Mundial é, também, ter direito ao carimbo de qualidade no seu cartão de visita. É todo um mundo de oportunidades a explorar. Há muito turista que escolhe os sítios somente pela sua classificação. E, para muitos, o Património Mundial está no topo da lista.

Independentemente de tudo isto, temos a triste tendência para ficarmos assoberbados com tal reconhecimento. E numa altura em que o Turismo está tão em alta em Portugal, nada melhor, certo? Pois…

Ser Património Cultural classificado traz, inevitavelmente, um conjunto de obrigações. E não falo, apenas, das condições que esse Património tem que reunir e cumprir para ser classificado como tal (algumas das quais – como vemos no caso do Mosteiro da Batalha, um dos primeiros a ser classificado em Portugal, no ano de 1983, por exemplo – nem são cumpridas). Perdoem-me a fra(n)queza, e eu sou o primeiro a gostar daquilo que é nosso: o problema é que muitos destes sítios, em questões de gestão, deixam a desejar. Deixam-no, não pelas pessoas que os gerem, mas pelos recursos (financeiros e humanos) que não têm. Bem, talvez este não seja o caso da Confraria do Bom Jesus do Monte… digo eu.

Com a classificação mais alta (Património Mundial) haverá uma tendência para crescer o afluxo de turistas. E Braga tem que acompanhar esse crescimento. Com isto os locais sentirão mais pressão, e a linha que a separa do desagrado, convenhamos, é por vezes muito ténue. O próprio Património sofre com isto, já que implica um maior desgaste, uma maior presença de ruído, toda uma panóplia de excessos.

Valorizar um sítio e torná-lo visitável não é só assegurar um acesso e abrir as portas. Implica gestão diferenciada, tão diferenciada quanto a valorização a que aspiramos. Classificar o Património Cultural não deve ser feito de ânimo leve e, se as vantagens saltam à vista, não esqueçamos que as desvantagens que se escondem podem ser bem mais nefastas. Se formos incautos ou prepotentes, corremos o risco de pagar um preço caro. O overcrowding veio para ficar porque as modas no Turismo ditam as tendências. Não estou certo se Braga sofrerá com este fenómeno, mas é necessário estar preparado para o fenómeno da globalização. Sim, porque classificar algo como Património Mundial é globalizar a importância desse mesmo algo, é colocá-lo entre as tendências, na lista de “mais procurados”. Veja-se o caso das cidades do Porto ou de Lisboa, onde os modos de vida tradicionais e o que é genuíno se perde de dia para dia, se não já está irremediavelmente perdido… onde tudo é criado e pensado (apenas) para o turista.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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