Revista Rua

2019-03-21T12:12:25+00:00 Opinião

Patrimónios: seus usos e abusos

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
21 Março, 2019
Patrimónios: seus usos e abusos

Para aqueles que não sabem, domingo é dia de “borla” na visita de alguns museus e monumentos emblemáticos nacionais. Nada melhor do que um programa familiar e aproveitar uma ida àqueles locais que sempre quisemos visitar mas que, por questões diretamente relacionadas com a cobrança daquilo que vulgarmente se designa como “bilhete”, nunca visitámos.

Neste cenário de caça à borla – e note-se, sim, que embora o português seja astuto, (já) não é o único “aproveitador” desta pérola de fim de semana – parece que, em alguns sítios, vale quase tudo.

A minha pergunta de hoje é dirigida aos responsáveis que gerem alguns destes locais (que dão borlas), e não poderia ser feita de forma mais direta: há, ou não há, um controlo efetivo das entradas neste cenário de “livre trânsito”? Ou seja, as entradas são contabilizadas e as questões de segurança são asseguradas?

Mas atenção, quando falo em segurança, não falo só de pessoas, claro, ou não fosse eu (tão) ligado ao património. Falo, também, da salvaguarda da integridade dos edifícios visitados. Bem, confesso que na verdade (também) pergunto isto porque já me deparei com certas situações em que tenho sérias dúvidas que uma política de boas práticas direcionada por esta questão básica de segurança bilateral seja implementada.

No ano transacto visitei o Museo Archeologico dell’Alto Adige, em Bolzano, Itália, onde está, nada mais nada menos, exposto o Homem de Ötzi. Perdoem-me aqueles que, seja pelo que seja, não ligam a estas coisas, nem tão pouco sabem quem é o senhor. Mas também não pretendo chegar a uma questão de conteúdos expostos, se não a uma questão de práticas. Ora, como qualquer edifício, há limites impostos ao número de visitantes – para que os visitantes não se atropelem uns aos outros; para que os visitantes contactem convenientemente com os conteúdos expostos; para que os visitantes tenham uma boa experiência e, posteriormente, aconselhem a visita; para que os visitantes não constituam, eles próprios, um atentado à sua própria segurança e à do edifício. E, acreditem, este é um museu bastante concorrido. A espera foi grande, numa fila multicultural que, finalmente, e ainda que com menos de uma hora para proceder à sua visita, acabou por ser encaminhada. Durante a visita, curiosamente, não fui empurrado; deixaram-me levar o tempo que precisava, observar o que queria, calmamente. Por fim, lá fomos saindo depois da hora do fecho, às pinguinhas, semicerrando os olhos à saída com o impacto da luz natural. Não sei se pagam horas extra aos funcionários, presumo que o façam, pois excederam (consideravelmente) o horário do seu expediente. E não fui o último a sair. Paguei o bilhete, como pago noutros locais para visitar.

Certo é que há muito que penso – e já o cheguei a verbalizar – que um dia vou praticar uma borla. Ainda não o fiz. E, por este andar, vou continuar sem o fazer. Pago porque sei que manter edifícios, postos de trabalho, liquidar contas de água e de luz, manter as facilidades limpas, entre muitas outras coisas, custa dinheiro. E quero acreditar que esse dinheiro é bem empregue. Talvez seja inocente, ou talvez não. Permitam-me só dizer que aqui há também uma diferença entre a gestão pública e a privada… mas adiante!

Um determinado museu (que não vale a pena referir, obviamente) em Lisboa regista, em trechos do seu chão, o sofrimento do “corridinho” de visitas. Não são (apenas) os “domingos de borla” que  desgastam as lajes do seu chão, mas, acreditem, o apinhado de visitantes que por vezes ali se concentram em alguns momentos, coloca em risco o edifício inteiro e todos os seus visitantes. Oxalá – e não podia ser mais sincero – não ocorra uma desgraça que venha provar que isto é um erro crasso de sustentabilidade… a diferentes níveis.

Mosteiro da Batalha: séculos de desgaste da sua entrada.A falta de saber estar de alguns visitantes traz consequências irremediavelmente negativas.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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