Revista Rua

2021-05-13T11:45:57+01:00 Cultura

Paulo Brandão: “A pandemia ajudou-me a perceber qual era o meu lugar no Theatro Circo”

O diretor artístico do Theatro Circo está em entrevista à RUA.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira19 Abril, 2021
Paulo Brandão: “A pandemia ajudou-me a perceber qual era o meu lugar no Theatro Circo”
O diretor artístico do Theatro Circo está em entrevista à RUA.

“É altura de aprender e acho que o programador artístico de agora deve assumir um papel de construtor. É precisamente assim como eu me revejo”, diz-nos Paulo Brandão, o diretor artístico do bracarense Theatro Circo que reabre hoje, mesmo a tempo da comemoração do seu 106º aniversário, a 21 de abril. Numa entrevista onde não faltou a temática do confinamento, a RUA destaca Paulo Brandão numa análise aos tempos desafiantes em que vivemos.

Finalmente, reabrem-se as portas do Theatro Circo. Enquanto diretor artístico, como é que foi viver um novo confinamento?

Na primeira parte do confinamento, no início de 2020, foi um choque, porque ninguém estava preparado para isto. Acabou por ser uma desilusão muito grande, no sentido em que tivemos de cancelar muita coisa e estávamos, provavelmente, no melhor momento de sempre, desde que o Theatro reabriu em 2006. Tínhamos boas bilheteiras e tudo praticamente esgotado. O que nos salvou foi o facto de estar toda a gente na mesma situação e não sermos um caso único. Isso fez com que, durante este processo, nos aproximássemos de outras estruturas (e elas de nós) para conversarmos e tentarmos perceber o que é que poderíamos melhorar quando regressássemos. Tínhamos regressado em junho (de 2020) com as 7 Quintas Felizes e com uma programação de portas abertas que era diferente e fora da caixa. Numa fase seguinte, tivemos de pensar que provavelmente iríamos voltar a fechar e queríamos investir um pouco mais noutros projetos que estavam a acontecer. Permitiu-nos refletir sobre a identidade da estrutura e o que queríamos para o futuro, trabalhando com mais tempo.  José Tolentino Mendonça referiu recentemente – e é algo doloroso de ouvir – que não podemos pensar que a vida vai voltar a ser o que era, porque nunca mais será. Vai ser outra coisa. E essa coisa vai ser aquilo que construirmos, fizermos e repensarmos. Vai depender de nós. Quando vamos ao fundo, todos aprendemos de alguma maneira. Há claramente algo que é muito pouco visível, mas que sabemos que existe, e tem a ver com os apoios que chegam à área artística ou como é que as pessoas – atores, cantores, músicos, assistentes de palco e eletricistas, entre tantos outros – estão a sobreviver. Há coisas que vão desaparecer e outras aparecer, mas estamos aqui para aprender. E foi isso que a pandemia nos ensinou até agora. Ainda assim, o Theatro Circo sempre esteve atento, trabalhamos muito em equipa e deu-nos uma certa tranquilidade o facto de a autarquia nunca nos ter “deixado”, porque sabemos que há muitas maneiras de ver a cultura. Esse acompanhamento sempre existiu. O facto de não ter acontecido nada que beliscasse o nosso trabalho anterior, deu-nos tranquilidade para pensar as coisas que estão para a frente.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Já anunciaram a programação para os próximos meses. Pode falar-nos um pouco destes destaques que chegam agora ao Theatro Circo?

Gostava de destacar alguns pormenores além da programação. Estamos a fazer algo que nunca tínhamos feito e tem a ver com o facto de termos algumas bandas que servem para ensaio para trabalharmos a vertente de streaming, que já queríamos ter feito há imenso tempo, mas nunca de forma precipitada. Esta foi uma oportunidade de testarmos com tempo. Vamos ter algumas surpresas que vamos criar no online. Depois pensei, para os próximos meses, tomar estas regras como definidas e vamos manter a abertura às 19h00, pelo menos em maio e junho. Quase não há programação aos domingos e ao sábado de manhã vamos voltar a fazer algo parecido com o 7 Quintas Felizes, mas será algo do género Matinés às 11h00 ou Rock às 11h00. Vai ser possível assistir a um concerto de pop/rock com bandas conhecidas, de manhã. A programação está a ser feita consoante aquilo que deixamos para trás, portanto, não vão regressar os ciclos que estariam previstos – como o Musa ou o Respira! – e, eventualmente faremos o Festival para Gente Sentada no final do ano, assim como o Semibreve. Estamos a trabalhar já para 2022 e, aí sim, poder regressar com o que estava previsto.

Então, nesta fase, já se aponta um regresso ao normal mais para 2022?

Sim. Estamos a ser um pouco cuidadosos, mas mantendo uma sazonalidade. Ou seja, as pessoas sabem que àquela hora e durante estes meses terão programação às 19h00, sem mudanças de horários. Essa construção tem esses dois lados. Vamos ter uma programação que faz sentido na atualidade, mas nunca será “aquela” programação do Theatro Circo. Quando puder ser, aí será a sério. Não estou propriamente preocupado com a adesão do público, que é o nosso ingrediente principal, mas se o público vier lentamente também não deve ser assustador para nós, nem ser tomado como algo definitivo, porque não é. É um processo mental que as pessoas vão ter de fazer para regressar com todo o cuidado. Aquela batalha em que nós exigíamos que as salas abrissem por serem seguras, realmente pode fazer algum sentido fazermos esse forcing, mas também não temos garantias de nada. Temos, sim, é de ser exigentes com o apoio às pessoas que estão mais prejudicadas com a pandemia, para serem suportadas e terem meios.

Estamos a celebrar 106 anos do Theatro Circo. Para o Paulo, ser diretor artístico de um teatro com mais de cem anos, depois desta passagem por uma pandemia tão severa, é ainda mais exigente?

Primeiro, é um motivo de orgulho e foi uma coisa absolutamente central. Como ser humano, é muito importante trabalhar neste espaço e ter a humildade de dizer que sou uma pessoa com sorte – nesse sentido. Claro que, por outro lado, tem um peso muito grande, porque não é só estalar os dedos. Tenho uma equipa de muita gente, um teatro que tem de estar limpo e com todas as condições e tudo isso é um processo diário que ninguém vê. Até mesmo as pessoas que me conhecem melhor por vezes nem têm noção daquilo que eu faço. O facto de eu atravessar os 106 anos neste processo é um orgulho para mim, mas claro que é feito em equipa. Programo desde 2001, portanto, há precisamente 20 anos e não há muita gente a programar de uma forma tão constante. Isso é um privilégio grande e há depois um conhecimento que adquirimos, porque estamos sempre a aprender, mas é preciso ter a humildade para agradecer a todas as pessoas que estão comigo, para que saibam que eu também estou com elas. Para estes 106 anos, fomos buscar um projeto que apresenta pessoas locais, como a Joana Gama e o Luís Fernandes, juntamente com Drumming GP, que são excelentes músicos. Juntar esse projeto de multimédia e trazê-lo para o nosso aniversário é dar um sinal para o futuro, mostrando que temos pessoas com valor em Braga e que somos um projeto regional, mas também com um cariz nacional e internacional. Foi uma coincidência feliz, porque se tivéssemos escolhido uma banda ou um nome internacional, provavelmente não teríamos a possibilidade para o receber. Acho que tudo se conjugou. Pessoalmente, a pandemia também me ajudou a perceber qual era o meu lugar no Theatro Circo ou o lugar de um programador artístico. Refleti muito sobre isso e acho que todos nós vamos voltar às coisas com outra visão, responsabilidade, paciência e interajuda. Acho que as pessoas estão mais solidárias e mais sensíveis e acredito, mesmo, que aprendemos algo com a pandemia.

Fotografia ©Nuno Sampaio

E então o lugar do programador artístico, nesta fase, é exatamente qual?

É uma espécie de catalisador – o mesmo que na ciência, quando colocamos um catalisador numa experiência química para que resulte. É também uma esponja, porque absorve tudo, as coisas boas e as más, no bom sentido. Mas não pode ser alguém que se impõe no sentido da programação como era antes, porque é altura de aprender e acho que o programador artístico de agora deve assumir um papel de construtor. É precisamente assim como eu me revejo.

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