Revista Rua

2019-09-17T18:08:03+01:00 Cultura, Outras Artes

Paulo Brandão: “A premissa principal do Theatro Circo é marcar a diferença!”

Paulo Brandão é o diretor artístico do Theatro Circo, em Braga, e numa conversa com a RUA explicou o que podemos esperar da próxima temporada de programação.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira17 Setembro, 2019
Paulo Brandão: “A premissa principal do Theatro Circo é marcar a diferença!”
Paulo Brandão é o diretor artístico do Theatro Circo, em Braga, e numa conversa com a RUA explicou o que podemos esperar da próxima temporada de programação.

Fomos recebidos pelo seu jeito ternurento, que nos deixa à vontade e nos faz sentir amigos da casa. Paulo Brandão é o diretor artístico do bracarense Theatro Circo e, entre as exigências que uma cidade em crescimento acarreta em termos de programação cultural, fala-nos de uma sala reconhecida pela sua beleza e bem-receber. Numa conversa sobre as surpresas que se avizinham na agenda do Theatro Circo, fomos perceber até que ponto a cidade de Braga está a mudar, em termos de oferta cultural.

Em primeiro lugar, gostaríamos de perceber quais as principais preocupações nesta programação para o mês de setembro, que já contou com alguns espetáculos como Y La BAMBA e Courtney M Andrews?

Neste mês de setembro, tentámos fazer uma programação mais eclética, embora tendo em atenção a programação que se tem vindo a fazer na cidade de Braga. Há mais eventos culturais a acontecer, principalmente com o trabalho do Altice Fórum Braga e de alguns auditórios. Há também mais eventos de rua, como foi o caso da Noite Branca. Nessa lógica, escolhemos para setembro uma programação mais diversificada: temos, na música, o David Fonseca (a 20 de setembro) e o Tim Bernardes (a 25 de setembro) como destaques e, a nível de teatro, peças muito interessantes, como A Criatura (de 17 a 19 de setembro) e a Os anos que abalaram o (nosso) mundo (a 24 de setembro). A ideia foi tentar ter na programação uma mistura muito particular, mas que não deixasse de ter identidade.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Essa é a lógica da programação até ao final do ano?

Sim. Por exemplo, há um concerto que acredito que seja muito aguardado: o fadista Carlos do Carmo vai fechar a sua tour dos 80 anos cá a 12 de outubro – e supostamente será a sua despedida dos palcos. Pedi-lhe que a última data fosse cá no Theatro Circo, para ser um momento simbólico também nós.

Mas gostaria de destacar o mês de dezembro. Vamos ter um espetáculo infantil, na linha do que temos vindo a fazer estes anos, mas a grande novidade desse mês será a noite de natal com concerto do Conan Osíris na sala principal. Ainda não anunciamos muitos pormenores, mas provavelmente vamos ter alguns convidados. Será uma noite especial!

Nesta fase, já se preparam as novidades para o próximo ano?

Sim, no próximo ano vamos ter uma programação bastante forte na área da música erudita. Era algo que já queríamos fazer há algum tempo e, pelo menos nos primeiros meses de 2020, isso vai acontecer. Vamos manter o Respira! e uma série de ciclos que já são característicos do Theatro Circo, mas vão aparecer surpresas, em áreas novas – que a seu tempo vão ser divulgadas, mas posso já adiantar surpresas na área da música moderna, de rua. A música, neste momento, está a evoluir muito rápido. Um exemplo, o reggaeton ou o chamado perreo é uma coisa muito forte atualmente e, por isso, vamos ter uma noite dupla com a Ms Nina  + La Zowi, já no Halloween (31 de outubro). A ideia é fazermos o público perceber que essa música popular contamina outros artistas importantes. É uma atitude. Estes dois nomes em específico estão a revolucionar um pouco o papel da mulher em Espanha. Têm editoras próprias, são independentes no sentido de existir quase uma exclusão de patriarcado, são super feministas, as letras delas são muito irreverentes – talvez muito mais do que se fosse o género masculino a escrever. Têm também uma ligação muito grande ao mundo da moda e às marcas e isso é um mercado que está a revolucionar a música.

Fotografia ©Nuno Sampaio

É impossível não referirmos, neste seguimento de aposta, que o Theatro Circo recebeu há uns tempos um nome que hoje está em todas as partes: Rosalía. Foi uma aposta fortuita?

Era bom que existisse um banco de apostas para estas coisas! (risos) Um dos ciclos que vamos fazer para o ano será muito ligado ao flamenco, porque achamos que há muitos artistas novos, dos 16 aos 20 anos, que estão a aparecer – Silvana Estrada é um exemplo, mas há uma série de casos porque a música hispano-americana está muito forte. Acho que em Portugal não temos nada assim. Apesar de termos bons nomes, inclusive na nossa programação, como Márcia (a 2 de novembro), não fazem parte de uma geração tão jovem. Curiosamente, na música portuguesa, cada vez há menos mulheres. Mesmo na área do hip hop e nesta vertente mais urbana, aparecem poucas mulheres, o que é pena porque lá fora está a acontecer precisamente o contrário.

A Rosalía foi um caso bonito! Ela tem uma excelente voz e é uma mulher incrível. Ela provou, em dois anos, que quando se tem ideias fortes e se acredita, se consegue revolucionar o mundo da música. Acho que ela está a ser muito importante porque permitiu que a música falada em castelhano entrasse em todo o lado. Há muita gente do Chile e de outros países de expressão hispânica que está a chegar a Barcelona ou a Madrid, tentando a sua sorte. A Ms Nina é uma delas, a Nathy Peluso e a Bad Gyal, que também já passaram pelo Theatro Circo, estão a crescer imenso… Mas acho que a Rosalía é especial porque ela compõe e é muito própria em palco. É curioso que se virmos as imagens da atuação dela aqui e virmos agora é completamente diferente, embora esteja lá aquilo que ela fazia no seu início.

E o teatro será uma vertente forte nas próximas temporadas?

No próximo ano, diria que a vertente mais forte será a dança. Vamos voltar a fazer o ciclo A Dança dança-se com os pés, que tivemos há uns anos. Mas, como é natural, o teatro também se vai manter na nossa programação. Por exemplo, temos agendado, muito em breve, A Morte de Danton, que estreia no Teatro Nacional e a primeira vez que sai fora de portas é para vir aqui ao Theatro Circo. Depois, vamos continuar a ter projetos na área teatral, com muitas peças que vêm de Lisboa.

Tal como nos tinha dito no início desta entrevista, há cada vez mais coisas a acontecer em Braga em termos culturais nesta fase. Que exigências isso traz para si enquanto programador?

Eu acho que traz algumas dificuldades, no sentido de nós termos de fazer uma leitura muito rápida para reagirmos no momento, para conseguirmos continuar a ter público. Mas também nos permite fazer uma triagem. Por exemplo, os espetáculos que estão a chegar ao Altice Fórum Braga são mais comerciais – e, atenção, quando eu uso o termo “comercial” não estou a colocar um estigma, estou a dizer que aquilo que lá vai consegue sobreviver, consegue pagar-se a si mesmo. Isso, para mim, é que é ser comercial. Estes nomes que lá vão, como Herman José e outros artistas, principalmente de stand-up comedy, conseguem ter bom feedback de bilheteira. Se calhar, mais do que o Theatro Circo, porque só temos 800 lugares. O que eu quero dizer é que é difícil, mas também acaba por ser positivo porque acaba por nos conduzir a essa triagem, permitindo solidificar estruturas como a nossa, a do gnration, a do auditório Vita também. Basicamente, depois dessa análise, percebemos que o que vem ao Theatro Circo já terá de ser para um público diferente, não tão massificado, não tão atento à televisão. Eu acho que este é um momento bom para a cidade. Acho que Braga está mesmo num momento positivo!

“Eu acho que este é um momento bom para a cidade. Acho que Braga está mesmo num momento positivo!”

Acaba por ser interessante porque o próprio Theatro Circo se envolve nas atividades da cidade, como foi o caso dos concertos aqui durante a Noite Branca, no início de setembro. Isso é uma forma de captar um público específico?

Nesse caso, fomos um bocado contracorrente porque tivemos os D’Alva e outro grupo que no fundo é muito tradicional, o Retimbrar. No ano passado, na Noite Branca, trouxemos o Conan Osíris e correu muito bem. Este ano tivemos os D’Alva porque achamos que ia captar um público que gostava mesmo deles – foi o que aconteceu. O recinto não estava repleto, mas foi bom. Depois, com o Retimbrar, que era música popular, quem gostava do que ouvia, parava para ver o concerto. Foi giro! Eu penso que é preciso marcarmos a diferença. A premissa principal do Theatro Circo é marcar a diferença!

É muito engraçado que, qualquer artista que já tenha passado por cá, fica com boas memórias do Theatro Circo. Dizem até que esta é a sala mais bonita do país. Enquanto programador, isso é sinónimo de orgulho?

Claro! (risos) Mas eu acho que isso acontece por duas causas distintas – mas que uma coisa não vive sem a outra. Por exemplo, nós podemos ter um espaço muito bonito (como temos), com uma sala incrível, mas a prova de que somos um organismo vivo é a programação. Temos de ter nomes sonantes, uma boa imagem, uma boa identidade. Os espetáculos têm de ter qualidade a nível de montagem e a nível técnico e nós sempre fazemos esse esforço. O espaço principal nesta casa é o palco! Não é o programador, nem é quem passa os cheques (risos). O palco é o departamento principal! Por isso sempre tivemos muito cuidado com o palco e com a sala – mas também com a programação corrente, que tem de ser apelativa e fazer com que as pessoas não esqueçam a sua passagem por aqui. Porque se tiverem uma má experiência a nível de espetáculo, não vão adorar a sala. Ou seja, um palco deslumbrante associado a uma programação imperdível é a nossa receita de sucesso! Acho que as pessoas têm mesmo respeito pelo Theatro Circo nesse sentido. E, depois, o público de Braga! Os artistas adoram o público de Braga! Nós somos muito mais calorosos (risos).

Para conhecer a agenda de espetáculos completa do Theatro Circo, clique aqui.

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