Revista Rua

2018-08-20T12:15:33+01:00 Viagens

Paulo Dias, à descoberta do Mundo

“Viajar é a terapia para todos os males”
Andreia Filipa Ferreira2 Julho, 2018
Paulo Dias, à descoberta do Mundo
“Viajar é a terapia para todos os males”

É natural de Braga, mas o anseio por conquistar novas metas profissionais e novas paisagens para a sua memória levou-o além-fronteiras. Estudou na Universidade do Minho, tentou um percurso na área da comunicação, contudo o sonho de ser médico manteve-se. Hoje, com 28 anos, Paulo Dias vive e a estuda Medicina em Lausanne, na Suíça, e continua a lutar por conquistar o seu sonho. As viagens, essas, continua a fazê-las. Turquia, Israel, Austrália, China, Tailândia, Sri Lanka, Emirados Árabes, EUA, Caraíbas… qual será o próximo destino?

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer um pouco da tua história. O que fazias em Portugal e o que te levou em viagem?

Nasci e cresci em Braga, sempre quis ser médico até começar a sentir um fascínio pela comunicação, sobretudo pelo audiovisual e multimédia. Para surpresa de todos (e talvez mesmo para minha surpresa), ao sair do Secundário decidi candidatar-me à licenciatura em Ciências da Comunicação. Foi um caminho atribulado. No final do primeiro ano desisti e fui para uma escola de cinema, no Porto. Mas depois de perceber que uma escola de artes não era o meu caminho, acabei por voltar à comunicação e fazer os dois anos restantes. Fiquei licenciado, mas sem grande ideia do que queria fazer. Os meus pais e o meu irmão emigraram para a Suíça durante o meu segundo ano de licenciatura e eu decidi ficar em Portugal por querer pelo menos terminar os meus estudos. Além disso, a Suíça não estava nos meus planos. Não falava francês, nem gostava muito da língua. Queria muito ir para uma cidade como Nova Iorque ou Londres, grandes cidades onde se falava inglês. Alguns meses depois de terminada a licenciatura, vim à Suíça passar as férias de Natal com a minha família… e por cá fiquei. Talvez apaixonado pelas paisagens, decidi tentar integrar-me. Passei quase três meses em casa a tentar aprender a falar e escrever minimamente bem francês. Depois desse pequeno período, achei que já estaria pronto para, pelo menos, uma entrevista de trabalho. Vi um anúncio para um estágio no departamento de comunicação da Medtronic, uma empresa de tecnologia médica, candidatei-me e tive direito à minha primeira entrevista. Foi terrível! Os três meses a ler e a ver televisão em francês ficaram bloqueados à porta da empresa. Engasguei-me, construí frases sem sentido, mas no final, talvez pelo bom ar de português, fiquei com o estágio. Aprendi muito, principalmente a falar e a escrever bem a língua. Aprendi muito sobre o país, a forma de trabalhar e a forma de estar. Depois desse grande desafio vieram outros, tendo sido o último na área da comunicação, um trabalho como especialista em Comunicação Digital na Nestlé. Nunca pensei chegar tão longe em tão pouco tempo. Batalhei bastante, é certo! Era um contrato de duração indeterminada e que poderia ser para a vida. Mas o bichinho da Medicina não me saiu da cabeça e, apesar da estabilidade e independência que tinha, decidi dar outro rumo à minha vida e fazer algo que me realizasse mais pessoalmente. E cá estou de volta à Universidade, em Lausanne, atualmente no segundo ano da licenciatura em Medicina. Estou cá há cinco anos, estudo e trabalho, em part-time, no centro hospitalar universitário do cantão de Vaud (CHUV – centre hospitalier universitaire du canton de Vaud) como Data Manager para o Swiss HIV Cohort Study.

És apaixonado por viagens. Que locais ficaram na tua memória de uma forma especial?

Viajar é a melhor coisa de sempre. Além da minha família, dos meus amigos e dos meus estudos que me fazem feliz, viajar é a terapia para todos os males. Adoro descobrir novos países, novas culturas, novos hábitos, novas comidas. Adoro aventuras e a adrenalina de saber que vou, mas não sei exatamente o que vou fazer e como vou fazer. Para lá da Europa, já fui à Turquia, a Israel, à Austrália, à China, à Tailândia, ao Sri Lanka, aos Emirados Árabes, aos EUA e às Caraíbas (México, Jamaica, Bahamas, Ilhas Caimão). Ainda tenho muito para descobrir, sobretudo aqui pertinho, mas costumo dizer que a Europa vou visitar quando for mais velho, quando a idade já não me deixe tão confortável com as viagens de avião de muitas horas.

É difícil escolher locais especiais, porque em todas as viagens acho que tive momentos muito especiais. Talvez aquela viagem que me deixe mais nostálgico seja a Austrália. Foi a viagem mais horrível de avião, mas foi lá que fiz mergulho pela primeira vez, que dei de caras com um tubarão pela primeira vez, que conduzi à direita pela primeira vez. Vi bichos que nunca tinha visto na vida! Foram muitas primeiras vezes! E foram sobretudo as pessoas, a forma cool de estar das pessoas e o facto de ser um lugar onde eu considero que poderia viver.

Tens alguma história caricata que nos gostasses de contar sobre as tuas viagens? Algo engraçado que te tenha acontecido?

Na minha viagem aos EUA, fui sozinho. Em três semanas e alguns dias visitei Nova Iorque, Las Vegas, Los Angeles e São Francisco. Descobrir estas cidades sozinho foi uma grande aventura, mas foi também forma de encontrar muita gente. Numa visita ao Grand Canyon encontrei um casal de médicos de Los Angeles, com quem, depois de longas conversas nas viagens de ida e volta da visita, guardei contacto. Graças a eles, algumas semanas depois de voltar a casa, viajei para Los Angeles e fiquei lá a viver mais de dois meses para fazer um estágio no Children’s Hospital.

Na China não tinha acesso a Facebook, Youtube e outros sites do género, porque são bloqueados pelo Governo. Ao falar com alguns jovens que falavam um pouco inglês (isto era raro!) percebi que eles não tinham noção da realidade para além da China ou a noção que tinham era completamente distorcida. Ao passar em alguns cinemas vi filmes em estreia que já saíram por cá há décadas, tal é o controlo da informação que chega aos chineses.

Na Austrália, em Byron Bay, estava no mar e ao meu lado vi um crocodilo bebé. O que pensei imediatamente foi que se o bebé estava ali, a mãe não devia andar longe! Foi pena o momento não ter sido filmado. Foi o pânico naquela praia!

O que é que sentiste quando chegaste à Suíça? Que análise fazes?

Senti que tinha que aprender a falar francês o mais rápido possível e que seria muito difícil ficar se não aprendesse rápido. O período de adaptação depois de aprender a língua não foi difícil. A Suíça é um país de muitas regras, mas acho que consegui integrar-me muito rapidamente nos costumes e com as pessoas. Mas também acho que isso depende das intenções de cada um. Poderia ter vindo para a Suíça e aprender apenas o básico da língua e da cultura. Poderia ter frequentado apenas os lugares da comunidade portuguesa (restaurantes, supermercados, cafés, barbeiros…) e viver assim. Era uma das escolhas (é mesmo a escolha de muita gente), mas afastei-me disso porque efetivamente queria mais. Queria estar integrado e queria de alguma forma sentir-me em casa. Não por vergonha ou por achar que poderia ser um inconveniente, mas porque tal como quando viajo, gosto de ir e gosto de me adaptar. Como se costuma dizer por aqui “portugueses há aos molhos” e parece-me que a comunidade está muito bem representada.

O que mais te surpreendeu em Lausanne?

Quando vim para ca viver, fui viver com os meus pais em Gruyères. Uma região no meio de campos e montanhas. Em nada se comparava com os hábitos que tinha do cantinho de Braga. Mas foi uma inspiração, porque nunca tinha vivido num local tão puro. Depois de começar a estudar Medicina acabei por mudar de região. Lausanne é uma cidade pequena, mas cheia de vida. Visualmente, é uma cidade antiga, mas com muitos jovens. Quando acho que já conheço a cidade há sempre algo mais a descobrir. E logo aqui ao pé de casa tenho o lago (Lac Léman) e, no horizonte, as montanhas. É uma mistura de vida e de sossego que me convém perfeitamente.

 

Desde que estás na Suíça, o que nos podes destacar como indispensável de conhecer?

Já visitei muitos sítios por aqui, mas talvez o mais mágico seja Zermatt. É uma pequena vila no meio das montanhas (com vista para o Matterhorn – montanha ilustrada pelo chocolate Toblerone). A esta vila só se chega de comboio. Não há carros, apenas transportes elétricos. É um lugar para relaxar e para aproveitar paisagens e trilhos magníficos. Um cenário perfeito para os amadores de ski.

Em termos de cidades, a minha preferida é Zurique. Muita vida, muitos jovens, belas paisagens, boa comida e muita festa. Berne, Genebra, Montreux e Vevey são cidades a visitar também.

Do que mais tens saudades do nosso país?

Dos meus amigos e da família. Acho que a minha capacidade de adaptação não me deixou saudades de muito mais. Continua a ser o meu país, onde nasci, cresci e onde muito aprendi. Mas, de facto, além dos amigos e da família, não há muito mais que me prenda.

Tens planos para voltar? Quando?

Não tenho planos para voltar. Se calhar mais velho… ou se calhar não!

Fazes um balanço positivo da experiência, até ao momento?

Para mim foi talvez a decisão mais difícil, mas a melhor. Tive que trabalhar e lutar muito, mas estou aqui e estou muito feliz com o que consegui até agora. Às vezes fico com a sensação de que, em Portugal, as pessoas pensam que quem emigra para a Suíça fica rico da noite para o dia. Posso dizer que vir para a Suíça a pensar ficar rico é um grande erro! Aqui, o nível de vida é de facto superior, mas tem que se lutar muito e trabalhar muito para ter estabilidade. Os salários são mais altos, mas as rendas, os seguros e todas as outras despesas, também o são. Acho que os minhotos devem, efetivamente, visitar e conhecer as cidades suíças. Pelas paisagens, pelas gentes, pelos costumes, pela cultura, pelo chocolate, pelo fondue, mas também para verem que os seus compatriotas trabalham e trabalham muito para poderem ter uma vida melhor e feliz.

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