Revista Rua

2019-08-02T10:56:40+00:00 Opinião

Paz nos limoeiros

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Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
2 Agosto, 2019
Paz nos limoeiros

Da janela desta sala todas as fachadas são ainda fragmentos de movimento numa noite escuríssima. Um homem sozinho a remexer nas beatas na beira do passeio e uma última palavra a desistir de si mesma, antes de dobrar a esquina. A mulher em contraluz, de rolos e roupão, sem ninguém que a espere e sem esperar ninguém, três blusas ao vento na corda do estendal da marquise, o idoso que passeia o cão numa insatisfação repetitiva, de infeção urinária, noite após noite, trotando ambos rua abaixo até ao último carro estacionado, o cabeleireiro que a esta hora ainda me cheira a secadores e a coscuvilhices em murmúrios impercetíveis:

– Não nos divorciamos, vá, mas as coisas já não estavam as mesmas, os pés dele mais fugidios na cama, o pequeno almoço a horas diferentes…

Depois não se apanhava mais nada, só a amiga a concordar que sim que sim com acenos muito complacentes, o senhor de cadeira de rodas a quem a mulher dava de fumar com uma mão gorducha e ele um sorriso eterno apontado a um céu tão longínquo, parece que me esqueci da voz do meu avô perdida na vivenda da Boavista, lembrei-me dela agora vejam bem, tão longe daqui, eu tão longe desta janela quando me lembro da sua voz. Fechando os olhos vai-se embora o homem sozinho, vai-se embora a mulher em contraluz, some-se o estendal e as três blusas e o idoso com o cão, as senhoras do cabeleireiro de madeixas embrulhadas em papel de prata mais as coscuvilhices todas, se pudesse mandava essas tralhas todas daqui e fico-me com a sua voz, basta-me. Fechando os olhos olha eu encostado ao muro, olhe você aí de pé assente no degrau, espiando as horas que lhe fogem manga acima. Fechando os olhos o limoeiro velho tapa-o com a sombra e o vento revela o rosto ruga a ruga e para projetar uma sombra é preciso claridade e tem-na de sobra, garanto-lhe, garanto-vos. Fechando os olhos já não estava aqui há muito, estaria ao balcão do café a comer enroladinhos mistos consigo ao lado. Lembrei-me agora que Michelle Perrot dizia que só se pode possuir o vazio. Lembrei-me também que o meu vazio é mais repleto de si do que qualquer um possa imaginar ou pensar e por isso é um vazio fertilíssimo de limoeiros e enroladinhos e da sua voz num domingo qualquer. Até que não é assim tão vazio, pois não?

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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