Revista Rua

2019-05-29T11:06:35+00:00 Opinião, Património

Pedaços da História de Lisboa, contados pelos vestígios que não se querem perder

Património
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva
29 Maio, 2019
Pedaços da História de Lisboa, contados pelos vestígios que não se querem perder
Praça do Comércio da Cidade de Lisboa - 2ª metade sec XVII pintura sobre vidro - Museu de Lisboa

De 24 de maio a 22 de dezembro, no Museu da Cidade de Lisboa, Palácio Pimenta, ocorre a exposição Convivências – Lisboa Plural, um reconhecimento da cidade às muitas culturas que nela habitaram e que a ajudaram a construir.

De 1147 a 1910, entre o período da sua conquista aos Mouros pelas legiões de D. Afonso Henriques até à Instauração da República, Lisboa transformou-se. De menina, passou a moça, passou a Mulher.

Viu-se imunda, em casas medievais sem organização, nos bairros que hoje são tão procurados e típicos, viu-se a crescer para os arrabaldes, as periferias que começavam para os lados das (hoje em dia) Avenidas Novas, Benfica, Lumiar e Marvila, enriqueceu com palacetes e quintas, palácios enormes construídos de acordo com a visão de um D. João V, Rei-Sol, magnânimo, tanto crente como visionário, enriqueceu com o ouro do Brasil, diamantes e pedras preciosas, cravinho, pimenta-do-reino, canela que enlevavam os olfatos e as almas.

Mas também se viu frente a frente com a morte, em autos-de-fé por diferentes acreditares, ritos e rituais, por queixas infundadas, sem sentido, por aspirações que nos tornaram maiores, Descobridores de além-mar, que também ceifaram milhões de vidas. Morte por doenças da época, a Peste e a fome que proliferaram. Viu-se destruída, por várias vezes, em terramotos e maremotos consequentes, incêndios vários que reduziram a cinza tudo por onde passavam.

Autor desconhecido séc. XVII - óleo sobre tela

Contudo, mais do que o mau, é o Bom e a Vida que contam – em séculos de História, Lisboa conheceu gentes de várias proveniências, desde os seus antepassados, aos que fizeram hoje o que agora somos, e naquilo que se tornou: cosmopolita, moderna, enriquecedora e multi-cultural. Renascida dos terrores de outros tempos, foi palco de entrada e saída de várias pessoas, raças, religiões.

Na exposição agora patente no Museu da Cidade, em Lisboa, é possível conhecer um pouco mais dessa realidade, qual a fundamental importância que todos estes visitantes, desde escravos, elementos da corte, mercadores, marinheiros ou cientistas em maior ou menor número, tiveram na capital e de que forma contribuíram para o seu crescimento e evolução. No âmbito da pluralidade, não parece ser de todo apenas coincidência que, aos dias de hoje, várias zonas urbanas são associadas às diversas comunidades estrangeiras que nelas habitam, desde a Mouraria até ao Intendente – quiçá a reminiscência do passado que na verdade nunca foi esquecido.

Comissariada por Ana Paula Antunes e Paulo Almeida Fernandes, a mostra de alguns artefactos encontrados nas inúmeras escavações arqueológicas de Lisboa, como várias placas de origem árabe e hebraicas conferem a importância que ambas minorias religiosas, após a reconquista, tiveram em termos hierárquicos sociais, permitindo uma organização política, não obstante a presença posterior da Santa Inquisição, e a ordem de expulsão decretada por D. Manuel I em dezembro de 1496. Os vários estudos realizados permitiram ainda gerar maquetas para alguns dos espaços mais emblemáticos da cidade, mencionados em textos da época, mas anteriores à destruição do Terramoto de 1755, como por exemplo o “Pateo das Arcas”, um dos primeiros teatros lisboetas, que estaria localizado na agora Rua da Prata.

Autor Probst e Winckler - gravura séc. XVIII

Tal como ocorrido no âmbito da exposição Lisboa: Cidade Global, no Museu Nacional de Arte Antiga (2017), também aqui se podem observar alguns exemplares de pinturas e desenhos que retratam o quotidiano citadino e caracterizam nomeadamente a forte presença de escravos pelas ruas da cidade medieval. É importante referir, que à semelhança da importância da diáspora da cultura africana no Brasil, da qual Portugal é responsável (estima-se que tenham sido traficados cerca de 13 milhões de escravos), em Portugal, já próximo dos séculos XVIII e XIX, a sua influência era bastante elevada uma vez que a população africana era, já na altura, crescente. Uma das figuras destacadas neste pluralismo, e cujo busto realizado por Rafael Bordalo Pinheiro encontra-se na exposição, remete-nos para “Pae Paulino”, tendo sido condecorado pelo destaque no exército liberal, como também por ter sido um dos líderes de várias irmandades de negros, apelando à libertação de escravos.

“A exposição mostra-nos provas dessa Lisboa multicultural, feita por muçulmanos, cristãos e judeus, mas também por espanhóis, franceses, ingleses, italianos, flamengos, alemães e galegos e pelos africanos da era da escravatura; é mesmo possível falar numa Lisboa africana, paulatinamente mestiça, que caracterizou a cidade, entre os séculos XV e XIX.

Das grandes construções à vivência quotidiana, dos ofícios especializados à definição de bairros, da promoção de obras de arte à atividade livreira, da ocupação e da guerra, ao comércio e à paz cemiterial, não houve praticamente dimensão da existência de Lisboa da qual as comunidades religiosas minoritárias e estrangeiras residentes estivessem ausentes”.

Uma exposição para todos, e para que todos não se possam esquecer, patente até dezembro 2019.

Autor Visconde de Menezes (1867) óleo sobre tela - Museu de Lisboa

Paralelamente a esta iniciativa, encontrando-se patente até outubro, também em Lisboa, pode ser vista a exposição O Lugar do Torreão.

Passando pelo passado, presente e futuro do edifício histórico, a exposição O Lugar do Torreão conta na realidade parte significativa da história da cidade, ao mesmo tempo que mostra ao público a evolução do espaço roubado ao Tejo, desde o século XVI. Desde a sua origem por ordem de D. Manuel, através da construção de um novo palácio real, roubado parcialmente a terreno do rio, passando por Filipe II de Espanha que o reabilitou, transformando-se o complexo num espaço destacado na zona ribeirinha, e sendo novamente recuperado já em 1640, passando a ser usado pela família real, conta também o seu desaparecimento parcial com o terramoto de 1755 e de que forma a reconstrução da cidade no terreiro aberto frente ao Tejo, duplicou depois a sua existência nos extremos da praça comercial pela cabeça e génios dos arquitetos e engenheiros do Marquês de Pombal.

O símbolo da antiga Lisboa medieval foi assim, à moda dos tempos, reabilitado e transformado, usado e deixado ao abandono, sendo protagonista e testemunha de vários acontecimentos, entre chegadas e partidas de navios, mortes e assassinatos, acabando porém por se tornar símbolo maior, numa época já mais recente, da monarquia constitucional e da representatividade republicana com a integração dos novos ministérios, que ainda hoje permanecem.

Comissariada por Nuno Senos, O Lugar do Torreão conta ainda com a possibilidade de os visitantes poderem observar de que forma se pensa a sua nova arquitetura, de forma a continuar um espaço dedicado e abrangendo o Museu da Cidade de Lisboa.

Mais cidade e mais história, de terça a domingo, das 10 às 18 horas.

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