Revista Rua

2021-04-22T17:26:33+01:00 Cultura, Histórias, Pintura

Pedro Guimarães, uma arte que grita para além dos limites da tela

O artista plástico Pedro Guimarães está em entrevista na RUA.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto22 Abril, 2021
Pedro Guimarães, uma arte que grita para além dos limites da tela
O artista plástico Pedro Guimarães está em entrevista na RUA.

Nascido na cidade que o apelida, Pedro Guimarães é um artista plástico definido pela exuberância de manchas de cor, numa linguagem muito própria que nos leva a um exercício minucioso de atenção ao detalhe. A partir de uma observação que nos ilude para uma interpretação direta, começa uma viagem pelo mundo imaginário do artista, numa arte que se estende para além da tela. Numa idílica contraposição da arte abstrata e da arte figurativa, a ousadia é o ponto de partida de um caminho de possibilidades infinitas para a criação artística.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em primeiro lugar, gostávamos de conhecer um pouco do percurso do Pedro. Sempre teve um olhar mais atento para o mundo da arte?

Costumo dizer que estou ligado à arte desde sempre, porque sempre tive essa sensibilidade. Nunca fui muito estimulado e os meus pais não detetaram logo cedo a minha apetência para as artes, também por não se encarar muito, nessa altura, como uma profissão (a de artista plástico), porque era uma área não considerada como um meio de sustento. Mas sempre gostei muito de desenhar quando era mais novo e fui muito bom aluno a desenho. Fui trabalhando e aos 16 anos participei num concurso de pintura, organizado pelo Centro de Juventude de Braga, no qual ganhei o prémio máximo, que era a oportunidade de expor uma exposição individual. Vi ali uma alavanca importante, por ter percebido que as pessoas gostavam daquilo que eu fazia. Entretanto, comecei a trabalhar em desenho criativo para a indústria têxtil e foi uma forma de ir trabalhando naquilo que mais gostava de fazer. Tecnicamente, foi também muito importante, porque aprende-se muito. Hoje em dia é tudo muito digital, mas nessa altura trabalhava-se em papel milimétrico, com limitação de cores e de pontos e isso foi muito importante.

Sendo o Pedro uma pessoa que viaja muito e explora diversos locais, que detalhes lhe interessam mais quando conhece uma nova cidade?

As pessoas. Porque tudo o resto é oco. Mesmo as paisagens mais bonitas de postal tornam-se ocas se não conhecermos a história desse sítio. Só sentimos os lugares, se sentirmos as pessoas. Acho que é por isso que os turistas gostam tanto do nosso país. Qualquer turista que chegue ao Centro Histórico de Guimarães e tenha a oportunidade de interagir com alguém da cidade, sairá com uma melhor experiência. Gosto muito de conhecer pessoas locais e isso inspira-me a criar, mas sem qualquer pressão. Não viajo apenas com esse propósito, mas para me enriquecer enquanto pessoa.

E de que forma consegue transpor essa inspiração no momento da criação?

No meio das minhas pinturas, há sempre uma cromática e uma mancha abstrata que complementa o quadro. Isso tem muito a ver com a forma como eu observo as coisas e parte do meu olhar sobre o mundo. Quando desenho uma cara tem sempre de ser muito mais do que uma expressão, tem de acrescentar uma linguagem não verbal ao meu trabalho: a cor e a mancha estão relacionadas com aquilo que vamos acumulando no nosso cérebro, sem nos apercebermos. Durante o dia vemos imensas coisas que não conseguimos processar como uma imagem definida, porque o nosso cérebro identifica isso como uma mancha de cor. E é precisamente isso que eu adiciono ao meu trabalho: pegar nesses bocados soltos na memória e dar-lhes um sentido estético. É a minha forma de organizar os meus pensamentos.

Interessa-lhe não ser demasiado direto nas suas obras? É uma forma de estimular o espectador para um olhar mais atento?

A imagem parece, à partida, direta e quando as pessoas olham veem uma expressão quase evidente, mas depois vão descobrindo detalhes e isso interessa-me. Os quadros das três vistas diferentes acabam por contar uma história e expressam mais conteúdo. Dá para trabalhar uma mensagem mais completa e abrangente e o feedback que recebo das pessoas que compram os meus quadros é precisamente essa ideia de que os meus quadros comunicam muito e ninguém fica indiferente. Toda a arte é comunicativa, mas a minha grita um bocadinho alto.

Há uma vontade constante de criar para além dos limites da tela?

Sim, porque o próprio material também comunica. No ano passado, comecei a trabalhar com restos de material e acredito que comunicam de uma forma completamente diferente. Tenho alguma tendência a aborrecer-me com a repetição, portanto também gosto de explorar coisas diferentes. Mas ainda assim tenho um cuidado que é muito importante no meu trabalho: manter a linguagem. Posso trabalhar com materiais completamente diferentes, mas as pessoas ao olharem identificam logo que é uma peça minha. A arte só faz sentido assim e o difícil é precisamente chegar a este nível. É o meu abecedário e a minha linguagem própria.

E como é que o Pedro chegou a essa linguagem?

Foi uma mistura de várias coisas. Eu já fiz exposições onde explorei apenas a mancha de cor e o abstrato, porque procurei explorar isso ao máximo, e como também pintava o figurativo achei que ao unir os diferentes mundos poderia funcionar. Fui explorando ao longo dos vários anos de trabalho.

Quem são as suas influências?

São imensas e acho que nem consigo identificar um único artista, porque os artistas que mais gosto em nada têm a ver com o meu trabalho. O importante é trabalharmos a sensibilidade e a capacidade para interpretar o que outros artistas já fizeram. Acredito que já é maravilhoso o facto de uma pessoa ter essa capacidade para apreciar uma obra. E isto estende-se à música clássica, por exemplo, nem toda a gente tem sensibilidade para usufruir, porque isso também se treina. As crianças têm uma sensibilidade muito própria, mas acho que são pouco estimulados para a arte. Se calhar, até gostavam mais de ir passar um sábado à Miguel Bombarda ver as inaugurações das exposições e apreciarem os artistas. Ainda temos um longo caminho para fazer em Portugal.

Fotografia ©Nuno Sampaio

E que medidas deveriam ser tomadas na opinião do Pedro? A inclusão de disciplinas ligadas à arte no panorama nacional para a educação, por exemplo?

Sim, porque isso é sempre a base. Valorizam-se tantas coisas, que obviamente têm o seu valor, mas um jogador de futebol não tem mais mérito do que um artista, por exemplo. Guimarães é uma cidade com uma forte interação artística e mesmo o Município tem uma certa preocupação, porque nos bastidores (eu e outros artistas) vamos fazendo pressão para que se mantenha o apoio às artes. O mesmo acontece com as questões sociais às quais me envolvo.

O Pedro já trabalhou numa vertente mais voltada para a escultura. É uma área criativa que também lhe interessa explorar? 

A escultura é mais uma forma de espairecer. Eu trabalho a pintura sobre vários materiais e recorro à escultura quando quero fazer algo diferente. Um artista plástico faz um pouco de tudo, mas a identidade da escultura ainda não está consolidada ao ponto de eu a considerar a mesma dos outros trabalhos, porque a minha preocupação é que as pessoas olhem e interpretem logo que é uma peça minha.

A que projetos o Pedro está associado neste momento ou que novidades poderemos esperar para os próximos tempos?

Estou sempre envolvido com novos projetos e tenho neste momento uma exposição pensada para Londres que está em stand by devido à pandemia, mas será num sítio muito importante e com a família real presente. Tudo o que sejam eventos estão suspensos, mas acredito que brevemente vamos voltar ao ativo. Vou trabalhar mais localmente, sempre na expectativa que me mandem embalar as peças com destino a Londres, porque é muito importante neste momento.

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