Revista Rua

2019-08-08T15:38:07+00:00 Opinião

Pela nossa história colectiva*

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
8 Agosto, 2019
Pela nossa história colectiva*

O calor apertava e a sua cara reflectia isso mesmo; também algum cansaço e, sobretudo, alegria por estar a fazer algo que gosta: a curadoria de uma sociedade. Foi assim que José Pacheco Pereira me recebeu, no armazém do Barreiro da Associação Ephemera.

No antigo complexo industrial idealizado por Alfredo da Silva, facilmente se imagina o trabalho e o suor de milhares de pessoas que, nas mais diversas profissões, deram corpo ao grande património material e humano da CUF.

Hoje já não é assim: há quem não tenha memória desse tempo, há os que não querem ter essas memórias e outros que fazem de tudo para salvar a identidade colectiva de um povo.

Lá no Barreiro, num armazém atulhado com papéis dos mais diversos sectores de actividades, políticos, artísticos, bandeiras, medalhas, taças, merchandising do mais caricato que se possa imaginar, pins, brinquedos, fui-me encontrar com um homem que move montanhas para recuperar o que muitos chamam lixo.

Eu cresci numa época e numa família onde os meninos deveriam fazer colecções: calendários, pins, moedas, carros de competição em miniatura, Legos; e como filho único, era uma forma de me entreter, viajando por esse mundo fora, sem sair do quarto. O Tio Simplício era o grande coleccionador, com selos, notas e moedas, deixando-me ficar com alguns “restos” das suas relíquias.

Mais tarde, o meu amor pela política levou-me a colecionar tudo o que tivesse a ver com marketing político: canetas, isqueiros, copos, bandeiras, porta-chaves, abre-cápsulas, buzinas de ar comprimido, chapéus, t-shirts, leques, cartazes e outdoors, aventais, pegas de cozinha, bolsas para o telemóvel, e papéis; muitos papéis.

Em Moçambique comprei imensas coisas numa das lojas da Frelimo. Não contente com isso, num momento conturbado que a política moçambicana atravessava, consegui ir à sede da Renamo e trazer cartazes. Não sei se por desconfiança e/ou segurança, tive que me dirigir à sede por duas vezes porque o pedido que fiz tinha que ser submetido à direcção do partido porque: “nós temos regras”. Minutos após ter saído da sede, já no táxi, ouvi no rádio que a Renamo tinha atacado civis e militares na região da Gorongosa.

Quando estava no Dubai – e em todos os Emiratos – estava tudo engalanado para comemorar o Year of Zayed, o Emir fundador e agregador de todos num só país há 47 anos. Era propaganda pura e houve milhares de eventos, momentos, merchandising. Recolhi e fotografei tudo o que podia.

Tenho estórias da Venezuela, do Brasil, do Peru, de Bruxelas, de S.Tomé, de Angola, do Irão, da Suíça. Tudo em nome do coleccionismo e do marketing e comunicação política.

Por aqui, desde as autárquicas de 1993 até aos dias de hoje, tinha de tudo um pouco.

Olhava os caixotes nos arrumos e pensava que um dia iria fazer algo grandioso com aquele espólio.

E fiz! Doei tudo ao Ephemera.

Ao preparar a entrega, despedi-me dos meus objectos vendo, tocando, folheando: a diferença, na mesma eleição, entre as campanhas organizadas dos grandes partidos e “os outros”, é abismal. Reli cartas anónimas – uma prática comum em algumas freguesias, por altura das autárquicas, onde todos se conhecem e mais parece uma cena de faca e alguidar. Um maçom, socialista, candidato pelo PS para a Assembleia da República, a patrocinar a primeira campanha de Cavaco Silva para a Presidência da República. Uma brochura do CDS onde se lê, ao lado de um rectângulo em branco onde deveria estar uma fotografia, “candidato falecido”. Os dominós de Sócrates 2011.

Relíquias!

O Ephemera vive do trabalho de 250 sócios e voluntários, sob a batuta de José Pacheco Pereira. Recolhem, tratam, armazenam marcos da história colectiva de um povo. Publicam livros e, através da TVI 24, produziram duas séries onde a nossa vivência é revisitada pelos textos que se publicavam, os objectos que se usavam, a gastronomia de cada época.

Doar este pequeno espólio e aumentar a colecção do Ephemera é possibilitar o estudo e conhecimento a esta geração e às gerações futuras. Por isso sei que fiz algo grandioso com a minha colecção e convido todos a fazerem o mesmo.

*Sim, eu sei que é um pleonasmo.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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