Revista Rua

2020-03-12T14:52:25+00:00 Opinião

Pela vida vivida e não sofrida

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
12 Março, 2020
Pela vida vivida e não sofrida
©D.R.

De há anos a esta parte – sendo que no universo esta expressão tem uma enorme validade temporal, sendo, quiçá, anterior às religiões que conhecemos nos dias de hoje – uma das maiores dúvidas que a humanidade tem é o direito ao corpo. Já nem falo da alma!
O corpo é de cada um?
Pertence-nos?

O corpo humano abrange várias questões: éticas, estéticas, morais e de propriedade. É reflexo disso mesmo na política, na arte, na mundivivência.

Há dias foram discutidas e votadas cinco propostas que permitem legislar sobre a eutanásia: foram cinco projectos de lei a votação e passaram todos. Tem de haver, agora, discussão para se encontrar um documento final e, com isso, as pessoas que queiram recorrer à eutanásia e que cumpram os requisitos necessários possam-no fazer.

Foi um dia de alegria, para mim, porque acredito no individualismo, no livre arbítrio que está expresso logo no segundo capítulo da Bíblia, no Genesis.

No entanto, foram dias confusos, onde veio à tona uma hipocrisia típica de mau perdedor. Em matérias de consciência sou pela realização de referendos: foi com o aborto, não vejo por que razão não deveria ser feito o mesmo com a eutanásia. Mas neste caso, os defensores do referendo só o pedem, só fazem pressão para a sua realização – foi apresentada uma moção no congresso do PSD, que eu votei contra -, quando já sabiam que perdiam pelo número de votos favoráveis na Assembleia da República. Quiseram empurrar com a barriga, o que negaram em 2018.

“Não se referenda a vida”, dizia a Igreja Católica sobre o referendo ao aborto. E agora?! Pelos vistos, para a Igreja Católica abre-se a caixa de pandora e pode-se referendar tudo.

Abrir o caminho ao referendo, nesta altura, era prolongar o sofrimento de muitas pessoas.

“Ninguém mandatou os partidos para discutirem o tema porque não estava no programa eleitoral”; tal como um número infinito de questões que não estão nos programas eleitorais e que se discutem porque é necessário debater. Mas o BE, Livre e PAN tinham o tema nos seus programas eleitorais; ficavam a falar sozinhos? E, acrescento que, o tema só não esteve nos programas políticos do PS e PSD por pura cobardia. Não esteve no programa político do Iniciativa Liberal porque, de liberal, só a economia interessa.

Eu não sou um homem religioso, embora acredito na reconexão que está implícita na palavra reliquio, de onde vem a religião.

Eu sou pela vida: pela vida vivida, cheia de boas recordações, inspiradora. Com paz e em paz com todos.

Sou pela liberdade. A liberdade de cada um decidir o que fazer ou não com o seu corpo. Direito à vida também significa poder escolher quando morrer. É sempre a escolha e o poder escolher.

Daqui para a frente é possível; entregar o destino a Deus ou escolher o seu próprio destino.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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