Revista Rua

2020-09-07T17:35:33+00:00 Opinião

Pelo prazer de o chamar amigo

Crónica
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
7 Setembro, 2020
Pelo prazer de o chamar amigo

Estou encravado no meio deste texto há meses. Não sei que volta lhe dar porque teria tanto para contar. É um texto sobre um amigo e, quem me conhece, quem comigo lida de perto, sabe como é difícil eu escrever sobre as minhas amizades, as minhas relações mais afectivas e emotivas.

Stephen King escreveu “The most important things are the hardest to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them — words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they’re brought out. But it’s more than that, isn’t it?”, e, neste caso particular, tenho receio de tudo o que disser puder ser diminutivo da grandeza da amizade.

Há anos conheci-o – e tudo começou por causa de corridas de automóveis. A história é simples: eu precisava de um piloto para fazer dupla numa prova de resistência; outro amigo falou-me de um tipo que tinha corrido de moto e em ralis, que era bom e, sobretudo, sério.

“João, Domingos; Domingos, João”.

Na altura morávamos na mesma rua e foi fácil organizar tudo para a corrida; depois, a amizade ficou. Umas vezes mais próximo, outras mais distante, mas sabemos que podemos contar um com o outro.

O resumo é este.

Mas a história é de um homem de valores.

No dia em que o seu pai fazia anos, ofereceu-me um livro escrito por ele, dedicado aos netos; um conjunto de textos simples, com mensagens subjacentes, capazes de ajudar crianças na puberdade a terem vivências, valores e memória. Dizem os livros que é nesta altura da vida que escolhemos o caminho do futuro. Depois são pequenos arranjos ou remendos.

O livro chama-se Conto de Natal e começa com a alegria do nascimento de uma criança. E que alegria me proporcionou! Não poderia ter vindo em melhor altura, pouco meses depois de saber que iria ser pai, na incógnita do ser a meio de uma pandemia, brotar a vida por gestos simples.

Depois, uma série de pequenos contos outrora publicados em jornais, numa escrita neo-realista, ficamos a conhecer a verdadeira riqueza do autor: a família, o trabalho, a justiça, as galinhas, os vizinhos.

Uma visão humanista de alguém que poderia ter sido um príncipe da política saída de Abril, tão bem relatada por Marcelo Rebelo de Sousa nos dois volumes de A Revolução e o Nascimento do PPD, mas com a sua verticalidade, António Leite de Castro preferiu afastar-se das luzes da ribalta e trabalhar nas suas empresas, voltando, depois, como Governador Civil do Porto.

A simplicidade da vida, o fazer o bem, deixar de parte todos os maniqueísmos, tratar todos por igual.

Não conheci o pai; vejo no fino trato do filho e nos netos a educação que tiveram. E estou grato por os poder tratar por amigos.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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