Revista Rua

2019-05-10T10:40:54+00:00 Opinião

Pensar em Cultura, do Global para o Local

Fotografia
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva
10 Maio, 2019
Pensar em Cultura, do Global para o Local

Desde o início do ano que a Fundação EDP, juntamente com a equipa da associação cultural Gerador (@gerador­_eu), têm visitado várias regiões do país com o propósito de dar a conhecer as várias obras de arte pública que estão inseridas no programa com o mesmo nome. Os Instameet Arte Pública Fundação EDP (@artepublicafundacaoedp) passaram já por Trás-os-Montes, Campo Maior, Algarve e Ribatejo, onde, além de possibilitarem o registo fotográfico dos painéis em questão, deram acima de tudo forma a um redescobrimento de freguesias, vilas e aldeias que tendem a ser esquecidas no interior de Portugal. E, já em maio (dias 17, 18 e 19), será a vez do Médio Tejo, onde quatro fotógrafos e instagrammers se irão juntar em Vila Nova da Barquinha, Tancos, Atalaia e Praia do Ribatejo e onde será realizado o lançamento do Guia ARTEJO juntamente com a inauguração da exposição com o mesmo nome.

@eyes_of_rita

Neste projeto, pretende-se realmente fazer valer o lema de Global going local como diz a diretora de Inovação Social da EDP, Margarida Pinto Correia. Mais do que ajudar apenas as instituições cujas ideias “fora da caixa” permitam reabilitar as comunidades onde se encontrem, é preciso ouvir primeiro as reais necessidades das pessoas e só depois partir para a ação, integrando o tradicional com o moderno, a arte e a cultura que, por vezes, demora a chegar aos que estão mais afastados dos centros urbanos.

A criação de arte urbana pública, iniciativa que começou em 2015, e que já é presente em mais de 40 localidades, com curadoria de João Pinharanda, é fundamentada com debates, assembleias municipais, muitas vezes com ajuda dos grupos culturais locais, onde os habitantes tomem conhecimento dos desenhos, apresentem as suas próprias ideias, podendo mesmo recusá-las, ou mudá-las junto dos artistas convidados. Estes, por sua vez, terão de ajustar os seus projetos pessoais, de forma que façam parte integrante da paisagem em redor.

@goncalo_saraiva

Contudo, mais do que apenas integrar uma nova forma de arte das comunidades locais, esta ação, tornada agora ainda mais social com recurso às redes tecnológicas, nomeadamente, ao Instagram, permite também caracterizar as lacunas sociais e culturais das populações. Muitas vezes freguesias em fronteira com cidades “grandes” são totalmente esquecidas, devido ao envelhecimento populacional ou à fuga de jovens para os centros urbanos, mas também devido à falta de recursos, de incentivos, verbas e outras iniciativas, que possam explicar que a cultura tradicional é a base de toda a cultura, não passando apenas por elitismos ou preconceitos sociais.

A experiência de Rio Maior – Instameet Ribatejo

No Instameet realizado em Rio Maior (Ribatejo), no início de abril, além de conhecerem as obras de arte urbana realizada em várias das freguesias do concelho, os fotógrafos convidados também foram levados a participar numa conversa pública, onde o conceito de Cultura foi a semente, tendo sido debatido, mastigado, tratado de uma forma informal, buscando respostas e alternativas às questões colocadas – principalmente desmistificando a ideia que apenas quem vive nas cidades tem maior oferta cultural, o que, não deixando de ser verdade, não torna os seus habitantes mais “cultos” do que os outros. Desmistificando também que existe uma cultura de primeira e uma cultura de segunda, visto que as nossas raízes e tradições, desde o pastoreio de ovelhas, ao fabrico de artigos artesanais, como a indústria dos lanifícios, tecelagem, criação e uso de artigos de verga, à música tradicional portuguesa (basta olhar o trabalho incansável de Tiago Pereira com o projeto A Música Portuguesa a gostar dela Própria – www.amusicaportuguesagostardelapropria.org). É preciso explicar, principalmente aos agora adolescentes, que o seu/nosso passado cultural e muitas vezes familiar, não é vergonha alguma, podendo, eles próprios, criar os seus canais de comunicação, publicitando o que de melhor as suas terras têm para oferecer, algo que as engradeça e enalteça, podendo até mesmo dar origem a outras iniciativas público-privadas.

Uma das ideias que a Fundação EDP pela Inovação Social tem em vista, por exemplo, será a junção entre os artificies das diversas regiões do país, como por exemplo, usar-se a lã produzida em Castelo Branco para a criação de tapeçarias no Alto Alentejo. Contudo, fica a questão, “como angariar artesãos, quando os mesmos tendem a desaparecer, ou como gerar valor justo ao seu trabalho? Da mesma forma, como não aproveitar os mestres artesãos a ensinarem aos mais jovens estas mesmas artes?” interroga Margarida Pinto Correia ao mesmo tempo que o brilho nos seus olhos mostra um entusiasmo contagiante.

Como referido anteriormente, os Instameets Arte Pública permitem igualmente aos participantes terem uma experiência direta com as populações, acabando por lhes dar um certo peso de responsabilidade social, através da partilha de imagens, de pensamentos e também de ideias que possam engrandecer os locais. No Ribatejo – Rio Maior, o privilégio de se subir a uma das encostas da Serra dos Candeeiros, paisagem pautada por calcários, arbustos, azinheiras, alecrim, rodeados por nevoeiro, acompanhando uma figura mítica da Terra Chã, o pastor Raúl (o Senhor Raúl) e as suas cabras, terá sido uma experiência talvez única. Uma nova forma de ver aquilo que, mais uma vez, poderá ser considerado cultura tradicional dentro de uma região rural às portas de Lisboa e que é essencial para chamar a atenção das pessoas ao que temos cá dentro, em Portugal.

@alexcoelholima

A visita às salinas de Rio Maior remete-nos, por sua vez, à ideia que este sal, único em Portugal, por ser de origem terrestre e não marinha direta, é também uma forma de estabelecer emprego a uma comunidade que não se vê nem Ribatejana nem da Estremadura, mas sim serrana. Toda uma indústria está em crescimento, onde o mineral não é agora apenas o único produto final – toda uma panóplia de chocolates com flor de sal, produtos de beleza masculina e feminina, restaurantes e cafés, estão associadas à localidade de Marinhas.

Da mesma forma, toda a paisagem acabada por se refletir nas atividades das populações: a sul, mais plano, mais dedicado à agricultura, a norte, mais montanhoso, dedicado à pastorícia – toda a região permite assim um saltinho à caracterização ambiental, ecológica e geológica, permitindo a visita a pé a vários caminhos e rotas, às grutas, às pegadas de dinossauro.

Ainda assim, voltamos ao princípio, como convencer as pessoas a ultrapassarem a desconfiança inicial, como passar o pensamento global e trazê-lo aos espaços rurais mais pequenos, como chamar as populações a participarem ativamente no reconhecimento das suas terras e das suas profissões?

É isto que as novas gerações deverão pensar, tendo todo o acesso à informação e aos meios de comunicação existentes, e à liberdade criativa.

É a isto que a Fundação EDP e a Gerador através do Instameet Arte Pública querem ajudar a responder. Vamos ajudar?

Sobre a autora:
Geóloga (do Gás e Petróleo). Autora de textos no blog A Carroça da Clau e simpática utilizadora de IG: @claudiapaivasilva e @urban_trender. Aficionada nas heranças culturais de Portugal e em chocolate.

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