Revista Rua

2019-04-18T12:17:20+00:00 Opinião

Penso, logo existo.

Sociedade
Marta Moreira
Marta Moreira
18 Abril, 2019
Penso, logo existo.

Há uns tempos, vi um filme que a dada altura lançava uma questão curiosa: qual é o vírus mais insidioso que a Humanidade conhece? Capaz de invadir as defesas de qualquer organismo, por melhor organizadas que estejam, e capaz de fazer desse organismo seu hospedeiro, alterando a sua matriz original? A resposta é bastante pueril, até. Esse vírus tão letal é algo muito simples: tão-somente uma ideia. “Quando estás protegido por uma ideia, não precisas de mais nada. Podes fazer aquilo que te apetecer”. Isto dizia-me Rui Horta, reputado coreógrafo nacional, há pouco tempo, o que agudizou este sentimento (esta ideia?) que em mim se vem instalando há algum tempo.

De facto, há ideias que protegem. Pode-se tentar justificar com raciocínios intrincados as mais ignóbeis ações, mas quando a ideia que as sustenta é débil, principalmente se movida a emoções mesquinhas como a ganância ou a inveja, todo esse constructo acaba por ruir como castelo de cartas. Por oposição, quando o que instiga a ação é a ideia de um Mundo mais justo e mais igual, mais honesto e mais real, não há vendaval que faça tremer os seus alicerces. As atitudes que se lhe seguem podem ser duras, as decisões podem ser difíceis de tomar, mas o trajeto desenha-se nítido, pronto a ser calcorreado. Podem-no povoar de obstáculos e de provas de força, que a força dessa ideia continuará a impelir inexoravelmente o caminho.

Há ideias que não são mais que preconceitos camuflados. São vozinhas desdenhosas no fundo de cabeças ocas, murmúrios permanentes que lhes compõem a banda sonora dos dias. As ideias que construímos acerca das pessoas podem elevá-las ou destruí-las. Mas existe aqui um fenómeno curioso: pessoas que mereceram a dado momento o nosso especial apreço e estima, podem degenerar em pessoas odiosas. E pessoas a quem nunca concedemos especial atenção, podem revelar-se inacreditáveis. Basta apenas que se instale em nós uma ideia, leve sugestão ou indício do que poderão ser na verdade essas pessoas, que o peso dos dias logo trata de a agigantar, moldando toda uma nova concepção.

Às vezes, basta apenas uma ideia, por mais simples que seja, para alterar o curso da existência de alguém. E por mais que nos digam o contrário, não somos uma ilha. “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, já dizia Saramago.

A força de uma ideia é uma coisa curiosa. Há ideias megalómanas, inchadas de ambição, e que parecem ter o poder de mover montanhas. Sobrepõem-se ao quotidiano, invadem as horas dos dias, e obliteram quaisquer resquícios das frustrações comuns da rotina. Mas como balão demasiado cheio, chega uma altura em que não aguentam o seu próprio volume, e rebentam (com estouro). Por outro lado, depois há ideias mansas, pequenas e aparentemente inofensivas. Começam com uma pergunta a que não se dá grande importância, mas que num curto espaço de tempo começa a latejar mesmo em mentes muito povoadas. E essas são as piores. Porque se vão instalando devagar, vão crescendo mas de forma sustentada, e quando damos por nós já se estabeleceram e não fazem quaisquer tenções de rebentar.

Ideias há que, enraizadas debaixo do peso de gerações inteiras, oprimem e aprisionam. Obrigam-nos a agir de determinada forma, condicionam-nos o comportamento a ponto de já não conseguirmos delimitar bem o que somos nós e o que nos foi imposto. São produto de mentes fechadas e limitadas, e vão cerrando de mansinho todas as portas da nossa liberdade individual: quando damos por nós, somos boneco de um ventríloquo sem rosto, repetindo as mesmas ações dia após dia sem as reconhecer. O respeitinho perante uma sociedade intrinsecamente patriarcal, a subserviência face às hierarquias, a deferência para com os títulos, tudo isso não é real. São apenas ideias inculcadas bem fundo na nossa matriz original, que nos manipulam o comportamento para que aceitemos todos, mais dóceis, o inaceitável.

Mas depois, há ideias que libertam. Que não respeitam as regras a que estamos todos confinados, à procura da utopia. Que rompem aos berros as grilhetas em que aceitamos ser aprisionados. De facto, por mais que nos tentem provar o contrário, as ideias têm um poder curioso. Quando plantadas eficazmente, ganham vida própria, transmutando-se à medida que evoluem. Depois de implantadas, é impossível controlar essas mutações: consoante o hospedeiro, revolvem e reviram, originando ações muitas vezes não antecipadas. Instigam a ação, isso é inegável. Às vezes, basta apenas uma ideia, por mais simples que seja, para alterar o curso da existência de alguém. E por mais que nos digam o contrário, não somos uma ilha. “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, já dizia Saramago. Se sairmos de nós próprios, veremos que temos um raio de alcance substancialmente maior do que aquilo em que nos ensinaram a acreditar. E se não nos faltar a coragem, veremos que uma ideia, bem sustentada e justamente difundida, tem sim o poder de mudar o Mundo. A começar pelo de cada um.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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