Revista Rua

2019-01-30T14:49:24+00:00 Cultura, Outras Artes

Pepetela: “A cabeça cresce com as verdades que nela entram”

Fotografia ©CM Penafiel
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto21 Dezembro, 2018
Pepetela: “A cabeça cresce com as verdades que nela entram”

De um romance escrito durante o combate pela libertação de Angola, publicado em 1972, à atribuição do Prémio Camões, a mais importante congratulação literária, Pepetela é atualmente um dos maiores escritores angolanos e dos principais nomes da literatura lusófona. De político passou a militante, mas foi na escrita que descobriu o seu propósito. Não gosta de estar no centro das atenções, mas a sua vida daria um livro, forte, verdadeiro e com um toque de ironia, como é já conhecida a sua escrita. Mas quem é, afinal, Pepetela?

Foi dos seus companheiros de guerrilha, enquanto militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que ganhou o pseudónimo que o acompanha até hoje nas distintas histórias que vivem dentro dos livros. Os primeiros romances foram escritos durante a altura em que participava ativamente no combate pela independência do seu país contra as políticas portuguesas, mas grande parte da sua obra só foi publicada depois de voltar do exílio, primeiro em França e depois na Argélia. Foi nessa época de revolução sócio-histórica e de guerrilha dos anos 60 que escreveu o livro Muana Puó, ainda em terras argelinas, que viria a ser publicado cerca de nove anos mais tarde, em 1978, como um claro exemplo metafórico da situação real que se vivia em Angola. O sentido do romance, em quase todas as suas obras, aponta para a trajetória social e política da História do seu país, em torno das mudanças vividas entre alturas mais distantes e as mais recentes. Do seu percurso literário é importante realçar, ainda, obras como As aventuras de Ngunga (romance publicado em 1973), A Revolta da Casa dos Ídolos (peça de teatro histórico publicada em 1979), O Cão e os Calus (uma novela publicada em 1979), Yaka (1984-5) e as icónicas histórias em Jaime Bunda, o agente secreto (um romance policial de êxito publicado em 2002).

Em 1997 e com cerca de 13 obras publicadas, Pepetela atinge um marco importante na sua carreira literária. O Prémio Camões, o maior galardão atribuído a escritores de língua portuguesa, viria a ser entregue a um dos nomes mais célebres e eminentes da literatura. Pepetela recebe este prémio depois de ser congratulado, em 1980, com o Prémio Nacional de Literatura de Angola pela obra Mayombe, um romance que mergulha nas profundezas do movimento de luta e traz à tona todas as dúvidas, medos e expectativas. Três décadas depois, o propósito da sua escrita mantém-se inabalável. E o mérito do seu contributo para a literatura portuguesa também.

O recuo no tempo permite entender a intenção de Pepetela. Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos nasceu em Benguela, Angola, a 29 de outubro de 1941 e é descendente de pais portugueses nascidos no mesmo país. Terminou os estudos secundários em Lubango e em 1958 partiu para Lisboa com o intuito de estudar engenharia no Instituto Superior Técnico, onde ficaria apenas por dois anos, antes de deixar o curso e ingressar na Faculdade de Letras. Um ano depois, inverte o sentido da sua carreira literária voltando-se para a política e é na capital portuguesa, onde vive atualmente, que dá início ao seu percurso político e literário ao integrar a Casa dos Estudantes do Império. A sua obra literária é o espelho dos problemas de uma sociedade marcada pela guerra, pela corrupção, os abusos de poder e os regimes totalitários disfarçados de democracias. Na verdade, esse poderá ser o propósito da escrita de Pepetela – e da escrita em geral. “Levantar problemas que outros têm de responder e de resolver. Mostrar como é que os acontecimentos têm influência sobre as pessoas, que passam alegrias ou tristezas, para que aqueles que decidem sobre as sociedades nunca as esqueçam”, partilha o autor, acrescentando: “Eu diria que é a única coisa sobre a qual sou capaz de escrever. Às vezes, tento escrever sobre outras coisas, mas não propriamente sobre outras sociedades. De facto, é aquela a minha referência”.

Aos 77 anos e com Angola como maior inspiração literária, Pepetela escreve mais de 200 páginas de pé, numa obra lançada em setembro, Sua Excelência, de Corpo Presente.

Sua Excelência, de Corpo Presente, o livro escrito de pé

As primeiras linhas de Sua Excelência, de Corpo Presente, desenrolaram o resto da história que se enquadra num novo ciclo presente em Angola que, pelas palavras do autor, descreve um momento de viragem e de esperança. A obra mais recente retrata as últimas décadas de um país africano recordadas por um presidente já defunto que, apesar de morto, não só vê como ouve e pensa. Sua Excelência prepara-se para tecer ponderações sobre os interesses políticos e, mesmo morto, não deixará a sucessão cair em mãos alheias.

Pepetela escreveu mais de 200 páginas de pé, um hábito que o caracteriza, recordando o esforço físico a que este último romance o obrigou e partilha a intenção de continuar a dar voz ao povo angolano “se ainda tiver forças para isso”. O autor que acreditava que a literatura poderia mudar o mundo e, ainda que tenha perdido essa reflexão com o tempo, continua a valorizar a importância do Plano Nacional de Leitura e de qualquer incentivo relacionado com a literatura.

Partilhar Artigo:
Fechar