Revista Rua

2018-10-02T12:19:04+00:00 Opinião

Pitoresco não é identidade

Arquitetura
Tiago Do Vale
Tiago Do Vale
2 Outubro, 2018
Pitoresco não é identidade

Há poucos dias, apreciava chocado a notícia de que no centro de Olhão se demolia um dos últimos edifícios “cubistas” da Avenida da República.

Quem pensa no Algarve pensa em casas brancas, com terraços escondidos atrás de platibandas coloridas, no entanto a cidade de Olhão oferece um fenómeno arquitetónico muito diferente e único – no Algarve e no mundo – alimentado pelas trocas culturais com o lado de lá do Mediterrâneo.

Ao contrário das casas algarvias tradicionais, rematadas por um terraço, estas casas “cubistas” encimam o terraço com uma segunda divisão – o mirante – e por vezes até mesmo com uma terceira – o contra-mirante – buscando linhas de visão para o mar e criando espetaculares formas piramidais sem paralelo.

Há muitos anos, um autarca local declarou que Olhão não tinha património: foi no seguimento dessa lógica que se fez esta demolição, viabilizando a edificação de mais um prédio indiscriminado de apartamentos no coração da cidade.

Este caso trouxe-me à memória a demolição, em 2012, da capela de Chãs em Regueira de Pontes: centenária, remontando ao século XVI, foi considerada um “mono” e um “estorvo” pela paróquia, cortando as vistas ao templo que (independentemente do mérito próprio que lhe possam reconhecer) descerimoniosamente tinha recém-edificado nas suas traseiras.

Não é a primeira vez que toco o tema de como o património nos caracteriza. Sou de um tempo em que sabíamos que no Minho havia espigueiros em granito, na Costa Nova palheiros coloridos, casas burguesas no Porto, monolitos caiados no Alentejo…

Cada cidade e cada território tinham propósitos distintos, condições próprias e funções únicas no contexto do país. Formas de construir, necessidades, potenciais, materiais e culturas diferentes que produziram lugares igualmente diferentes.

Infelizmente, desde meados do século XX, as pressões para a transformação foram arrasadoras, resultando na construção de cidades idênticas no Minho ou no Algarve, forçando uma uniformização empobrecida, com os mesmos prédios de apartamentos, as mesmas grandes superfícies comerciais, os mesmos quarteirões.

Infelizmente, desde meados do século XX, as pressões para a transformação foram arrasadoras, resultando na construção de cidades idênticas no Minho ou no Algarve, forçando uma uniformização empobrecida, com os mesmos prédios de apartamentos, as mesmas grandes superfícies comerciais, os mesmos quarteirões.

É possível discutir que a uniformização era inevitável, que era a resposta mais rápida e eficaz às necessidades das pessoas, da construção, do mercado e das empresas. Mas será que, hoje, ainda faz sentido propor cidades iguais em Viana do Castelo e em Faro? Em Portugal e na China?

Vamos testemunhando a perda de identidade das cidades – especialmente das cidades do mundo desenvolvido – deixando-as vazias, ocas de significado, sem lugar nos nossos imaginários.

Não há dúvidas de que a noção de perda cultural é sentida: muitas cidades já se debatem numa tentativa inglória de redescobrir a sua identidade, evidenciada por um regresso ao “retro”, ao “rústico”, ao “pitoresco”.

Tem sido, no entanto, um regresso sem sucesso: o “pitoresco” que encontro em Lisboa é igualzinho ao “pitoresco” que vejo em Madrid, em São Francisco ou em Tóquio.

Compreendemos, sem dúvida, o valor e o significado da identidade única das cidades e dos países, e ainda melhor quando no contexto da indústria do turismo. Fazemos escolhas – ou permitimos que as empresas e os governos as façam por nós – e a capacidade de planear o nosso território para que prospere na sua identidade individual existe.

Se for possível exigir esse controlo, mesmo que em confronto com o nosso interminável apetite por centros comerciais e pela construção especulativa, poderemos ver cidades novas, prósperas e com significado próprio, cuja arquitetura diga “Braga” em Braga, “Porto” no Porto, “Aveiro” em Aveiro, “Lisboa” em Lisboa, “Olhão” em Olhão.

Sobre o Autor:
Arquiteto pela Universidade de Coimbra, vencedor do American Architecture Prize 2017 e do Building of The Year Awards 2014. O seu trabalho pode ser consultado em www.tiagodovale.com

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