Revista Rua

2019-04-10T11:19:13+00:00 Opinião

Poesia na era digital

Literatura/Poesia
Afonso Castro
Afonso Castro
10 Abril, 2019
Poesia na era digital

Lembro-me de, há uns anos, o meu pai contar que, quando ele era miúdo, tinha visto, na Feira do Livro de Lisboa, um homem numa mesa a vender “livros” feitos de forma muito artesanal: folhas copiadas à máquina de escrever e posteriormente agrafadas umas às outras. Esse homem era o Al Berto, poeta português singular com uma obra marcante no seio da Literatura nacional.

Na altura em que soube desse episódio, eu andava já a ler os diários do Al Berto, os quais tinham sido editados fazia pouco tempo (a primeira edição data de 2012). Nos textos aí presentes, sempre notei que a poesia surgia na vida daquele autor como uma necessidade e sem avisar, era algo espontâneo e pouco dado a métodos rígidos ou rotinas. Porém, o dia a dia e o curso da vida em geral estavam intrinsecamente ligados à obra do poeta; tanto que, numa entrevista nos anos noventa, Al Berto afirmou: “se eu não viver, não há escrita”.

Ao longo dos anos, à medida que vasculhava a vida e obra de alguns outros poetas, cada vez mais me ia dando conta das estranhas formas que tomava a necessidade da escrita. Cesariny, por exemplo, a certa altura disse algo como, citando de memória: “nunca escrevi um poema em casa, era sempre na rua, nos cafés”.

Ora, isto leva-me a referenciar aqui dois textos de Herberto Hélder: Poeta Obscuro e Vida e Obra De Um Poeta. Nesses textos (permitam-me que, de certa forma, os misture), por mais que pareça haver uma exaltação da figura dos poetas e uma certa sobranceria, não é esse, pelo menos para mim, o sentido dos textos indicados. Pelo contrário, é-nos mostrada, despudoradamente, a verdadeira realidade daquele que tem os versos por ofício; e essa realidade é tipicamente suburbana, decadente, obscura mas corriqueira. Prova disso são algumas passagens como estas: “Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete.”; “Escrevo o poema – linha após linha, em redor de um pesadelo do desejo, um movimento da treva, e o brilho sombrio da minha vida parece ganhar uma unidade onde tudo se confirma: o tempo e as coisas”.

As curiosidades e os episódios soltos até aqui referidos, sempre a propósito deste ou daquele autor, mostram que, já há umas boas décadas, a poesia é algo feito por instinto e urgência, misturando-se no quotidiano e estando longe de ser aquele bicho de sete cabeças altamente subjetivo e de difícil interpretação que, na escola, nos fazem crer que é. A poesia acontece. Nada demais. Já dizia Natália Correia: “a poesia é para comer”.

Posto isto, é fácil verificar que o século XX foi pródigo em desmanchar várias noções preconcebidas (provindas de séculos anteriores) do que era ou deveria ser a literatura. Já no século XXI, não me parece que tenham existido grandes inovações em termos de conteúdo nem de forma, mas sim em termos de meios.

Com a era digital mais do que implementada, demos um importante salto no que diz respeito à forma como consumimos o trabalho dos poetas. No tempo dos autores que referenciei, a poesia quase só era algo corriqueiro e essencial para quem a escrevia, havendo, por vezes, da parte dos leitores uma espécie de altivez e pompa em ler e discutir as obras poéticas. Nos nossos dias, graças à democratização de meios gerada pela internet e pelo fenómeno dos blogs e outras plataformas de escrita, para os leitores também a poesia já é uma realidade acessível e, num bom sentido, banal.

Neste âmbito, há um grupo de pessoas (autores) que tem obrigatoriamente de ser notado: os instapoets. Este termo, como facilmente se entende, surge da mistura entre a plataforma Instagram e a palavra poets. Assim, os instapoets são autores que, mesmo muitas vezes não fazendo da escrita a sua carreira, usam o Instagram para divulgar os seus trabalhos e ideias.

Dentro deste fenómeno com, talvez, tanto tempo de duração quanto a plataforma indicada, haveria muito que abordar e discutir, contudo centremo-nos na forma como tudo isso mudou, de certa forma, a poesia em si.

 

“Hoje, os novos escritores, os tais instapoets, derivado ao meio digital onde habitam, aprenderam a depurar o seu conteúdo literário quase instintivamente, até porque aprendem a sua arte a lerem-se uns aos outros. E isso é algo que considero saudável – é a poesia a fazer parte de uma verdadeira cultura popular (ainda que digital)…”

Uma plataforma como o Instagram, dedicada sobretudo à fotografia, deu à poesia uma maior facilidade de se ligar a outras artes, nomeadamente à ilustração. Porém, essa não é a inovação mais importante da arte poética na era das redes sociais. O que é essencial referir é o facto de o meio se ter tornado a própria arte. O conteúdo dos poemas mudou, as temáticas adaptaram-se ao imediatismo dos feeds atulhados de informação. Se entre fotografias de paisagens e refeições, entre selfies e memes, entre vídeos de animais e pessoas a cair, nos aparece um poema, é óbvio que, mais tarde ou mais cedo, quem escreve teria de adaptar a sua arte às condições em que as suas palavras são lidas.

Sempre existiram poemas que deixavam de lado o hermetismo e conceitos complexos e intrincados, lembremo-nos, por exemplo, do poema de Álvaro de Campos que começa com “Tenho uma grande constipação”; mas na era em que vivemos, a poesia ter de pedir emprestadas qualidades de outros parceiros de feed, tornou-a mais compacta e direta ao assunto, coisa que há umas décadas os autores lutavam para conseguir, rescreviam vezes sem conta, limpavam os seus textos até sobrar só um filete literário. Hoje, os novos escritores, os tais instapoets, derivado ao meio digital onde habitam, aprenderam a depurar o seu conteúdo literário quase instintivamente, até porque aprendem a sua arte a lerem-se uns aos outros. E isso é algo que considero saudável – é a poesia a fazer parte de uma verdadeira cultura popular (ainda que digital), a passar de mão em mão (ou de ecrã em ecrã) e a evoluir diariamente.

Por outro lado, a literatura digital, para além de se sujeitar a uma concorrência com conteúdos de fácil consumo, tem de concorrer com milhares ou até milhões de “coisas” a serem escritas e publicadas todos os dias. Ora, essa competição, esse querer ser notado e mais lido que os outros, dá uma força incrível aos versos, pois carrega-os de armas e artifícios, tornam-se pérfidos e perversos num bom sentido. Quem escreve chama a nossa atenção ao tocar em assuntos dos quais nenhum de nós escapa. Lá está, é a poesia a chegar cada vez mais perto da realidade e da vida quotidiana. Não será, então, por acaso que, certos autores, têm o seu conteúdo a ser lido por leitores dos mais diversos países e realidades.

Por fim, há ainda outra característica “nesta” poesia que me parece que tem vindo a fazer com que as pessoas reparem mais nela – falo da força da palavra escrita (que, neste âmbito, tem ganho contornos interessantes). Um poema, tal como costuma ser “postado” no Instagram, são palavras contra um fundo branco ou doutra cor mais ou menos neutra. Se virmos o perfil de um instapoet, a mancha gráfica que nos surge não parece, à partida, interessante, é até passível de ser ignorada. Assim, o conteúdo, para além de se tornar cada vez mais simples e direto ao assunto, tem-se feito envolver por uma força que, calhe a sorte de alguém ler, daqueles versos já ninguém escapa. Na minha opinião, é totalmente positivo que assim seja. Esta sujeição de uma quase espécie nova da literatura aos cânones estéticos de outras artes (pintura, ilustração, fotografia, etc.) faz com que a escrita evolua e se adapte aos tempos. Não fosse assim, e as novas gerações estariam condenadas ao perpétuo ensino escolástico de Camões, Pessoa, Sophia Mello Breyner e uns poucos mais. A poesia em blogs, no Instagram, no Facebook, no Wattpad (entre outras muitas outras plataformas), democratizou-se completamente, e libertou-se das antigas regras editoriais e da crítica.

Assim, finalmente estamos num tempo em que a poesia é o espelho de quem a escreve e não mera vaidade ou pretensiosismo. Finalmente a poesia está no lugar onde pertence – no dia a dia das pessoas que a querem ler, tal como esteve e está no dia a dia de quem a escrevia e continua a escrever.

Sobre o autor:
Nasceu em Lisboa há vinte e dois anos. Estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Escreve por aí em blogs e cadernos desde a adolescência. Em 2018, lançou um livro de poesia (Os Consulentes) pela editora Urutau. É fã incondicional de autores como Bukowski, Jack Kerouac e Anthony Frewin.

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