Revista Rua

2019-12-16T12:10:23+00:00 Opinião

Porquê?

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
16 Dezembro, 2019
Porquê?

Pergunto-lhe, então, a razão das coisas, o porquê da angústia de fim de tarde, quem tingiu as auroras de rosa por toda a parte, o que andamos aqui a fazer, dando passos no escuro com a certeza de alcançar uma porta no fundo do corredor, por vezes na direção de uma voz a ecoar timidezes e peço-lhe encarecidamente que me elucide no sentido de compreender o alcance de cada passo trôpego que vamos dando, como uma criança que se ampara às pernas dos pais, elucide-me, a que pernas me amparo eu? De madrugada, em Esposende, não questionava nada, era só eu e imensidão do mar embalado pela ronca de nevoeiro e tudo parecia tão distante e por isso eu pequeno, calado, quem somos nós no meio de tantas voltas em torno do sol? Abrindo a janela, respiravam-se gaivotas e a névoa que as engolia e por isso pergunto- lhe o porquê das coisas, o porquê do silêncio aumentar no silêncio e o porquê de se sumir no ruído da noite. Pergunto-lhe o porquê das nuvens serem ovelhas de pernas para o ar, segundo me informaram uma vez e, já agora, pergunto para onde vão as coisas quando adormecemos, continuam lá ou tudo se revolta contra a sua ordem natural? E as incongruências, explique-me, terão sentido algum dia ou, no fundo olhamos para a tristeza dos outros e pensamos percebê-la pelo medo terrível que temos de não a compreender e, assim, não compreendemos também a nossa própria dor? Ou é apenas a eterna angústia de olharmos para nós no escuro e nos sentirmos sós apesar de tantos que somos? E o medo que as linhas me fujam de vez do farol longínquo, com a ondulação de matéria em que andamos todos a fazer horas? Um enorme tempo com espaço para tudo menos para o que importa, infelizmente, sobrando pouco para o resto. Ocasionais cintilações de gente pelo meio de nós, cortando-nos o ar, a sensação de tempo perdido e nós pensando que o relógio dos mortos pára quando na verdade dá voltas aos nossos ponteiros. Se arranjar uns minutos, esclareça-me estas sobras, por favor.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

Partilhar Artigo: