Revista Rua

2019-08-21T14:19:34+00:00 Opinião

Pretérito presente da política e do jornalismo

Sociedade
Nuno Roby Amorim
Nuno Roby Amorim
21 Agosto, 2019
Pretérito presente da política e do jornalismo

Somos confrontados quotidianamente com uma ausência total de pensamento crítico em relação ao passado. A História deixou de produzir regras de inferência para passar a ser considerada como uma espécie de espaço abstracto com pouca ou nenhuma significância para a acção e conduta do presente abrindo desta forma caminho a sinuosas intervenções sociais onde impera o discurso do vazio.

Existem dois sectores onde se pode observar actualmente, com maior profundidade, os efeitos perversos desta práxis; no discurso político e na informação massificada: a imprensa e as redes sociais.

A ausência de referências históricas na actividade política, em particular nos processos de tomada de decisão, devia-nos deixar a todos muito preocupados. Só há pouco a democracia portuguesa foi obrigada a certificar estas decisões através da transposição de um significativo conjunto de normativas europeias. Mesmo assim, as 3.091 freguesias do país, os 308 concelhos, as centenas de empresas e organismos públicos continuam a gerir o dinheiro dos contribuintes com uma total ausência de transparência. Numa rápida procura é fácil depararmo-nos com um historial imenso de estudos e projectos de obras públicas que nunca foram concluídos e que custaram, em muitos casos, milhares de euros. A prática política tem tendência a olvidar os estudos precedentes por imposição daquilo que se poderia definir como “apresentar trabalho” e ideias novas. Esta necessidade de “inovação” leva-nos a presenciar todos os dias as intervenções políticas sem o mínimo de conteúdo e repletas de lugares comuns. Esta parece-me ser a forma mais fácil de motivar e alimentar o surgimento de novos discursos populistas.

Mas afinal, a História pode repetir-se? Uma coisa é certa: resgatar experiências passadas sempre foi uma poderosa ferramenta para aprimorar a nossa percepção a respeito do que se passa hoje em dia.

Por outro lado, a imprensa foi – e o pretérito usado aqui é relevante – edificada ao longo dos últimos 150 anos como um equilíbrio, “um contra poder”, o que lhe fez mesmo ganhar o epíteto de Quarto Poder. O norte-americano, Thomas B. Macaulay foi o primeiro a utilizar o termo como definição para o exercício de poder e influência em relação à sociedade comparativamente aos três poderes exercidos nos estados democráticos (Legislativo, Executivo e Judiciário). Mas, se assim foi durante grande parte da sua existência tornou-se, desde o fim do século XX, num poder deficiente repleto de vícios e dependente, em muitos casos financeiramente, de grupos económicos de interesses variados. Os media passaram a ser uma indústria com características próprias descurando alguns dos seus princípios sociais que passam por transmitir a sensibilidade da opinião pública, apurar e acompanhar as razões das decisões políticas contribuindo, desta forma, para uma consciencialização de cidadania.

Mas a imprensa, como a conhecemos até aqui, está a morrer e ninguém sabe muito bem o resultado desta morte anunciada. Para já, limitamo-nos a abrir os jornais e a confirmar uma espécie de infantilização do jornalismo. Repetem-se notícias que já foram publicadas há anos e a abordagem nunca conta com um olhar retrospectivo.

Mas afinal, a História pode repetir-se? Uma coisa é certa: resgatar experiências passadas sempre foi uma poderosa ferramenta para aprimorar a nossa percepção a respeito do que se passa hoje em dia. É por isto mesmo que, mesmo intuitivamente, individualmente procuramos sempre referências do passado para analisar uma situação actual.

Só nos resta tentar compreender porque o deixámos de fazer colectivamente na política e no jornalismo.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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Consultor de comunicação

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