Revista Rua

2021-09-29T14:40:45+01:00 Opinião

Pseudoativismo criminoso

Património
Hugo Aluai Sampaio
29 Setembro, 2021
Pseudoativismo criminoso

Blindly sailing for monney, humanity is drowning in a scarlet sea lia”. A frase (já agora, com problemas ortográficos) tem tanto de poético e crítico, como de imbecil, não tivesse sido grafitada na lateral de um Monumento de Interesse Público, o Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Obra arquitetónica da responsabilidade de Cottinelli Telmo e conjunto escultórico da autoria de Leopoldo de Almeida, representa um tributo aos personagens que, num certo momento da História de Portugal, se aventuraram além-mar.

A sua ereção – e o que representa – deve ser entendida num contexto muito próprio. Por altura da Exposição do Mundo Português, em 1940, erguia-se a sua primeira versão, em materiais perecíveis, só inaugurada no seu estado atual, em betão e pedra lioz, vinte anos volvidos.

Se, para muitos, o mesmo transparece a vanglória ressequida de tempos idos em que Portugal fora potência navegante europeia, claramente usada para legitimar as políticas e ideologias nacionalistas salazaristas, o certo é que, enquanto “mensagem”, representa um processo muito específico cujos primórdios remontam a finais do século XV: a expansão marítima portuguesa (note-se, não lhe chamei “Descobrimentos”).

Mas atenção: estas linhas não pretendem defender o que fizemos outrora, enquanto Estado-nação português. Apenas chamar a atenção para que tal resulta de uma conjuntura económica, política, ideológica e social (e mesmo religiosa) em que a Europa jogava as esferas de poder para lá das fronteiras físicas de cada coroa europeia. Espanha, Inglaterra, Holanda, França integraram processos de colonização de muitos dos novos mundos em que os portugueses foram, sem sombra de qualquer dúvida, pioneiros na sua descoberta. O que daí adveio, pois, a gestão desses territórios, a forma como os povos foram encarados e tratados, a utilização que foi dada às terras e os intuitos que muitos oportunistas viram para engordar as suas riquezas, poderes, influências e prestígios, isso é uma (triste e) desastrosa história paralela a um processo histórico mais vasto. E cujo apoteótico final termina com a tão embaraçosa quanto inexistente política de descolonização (mais uma vez, não apenas portuguesa!).

O Padrão dos Descobrimentos, enquanto monumento comemorativo, representa aquilo que eu, no presente, quero ver. E eu não deixo de vislumbrar, por detrás (do cimento e) da pedra lioz mui esteticamente contornada, o manto negro de políticas e interesses mal concebidos. Mas vejo, também, uma série de feitos e de individualidades que acreditaram, no seu tempo, estarem a participar em algo importante, algo que marcaria o Mundo, transformando-o.

A Polícia Judiciária desconfia que a autora deste episódio seja de nacionalidade francesa. Mas isso interessa? Quer dizer, considerando alguns episódios que a História daquele país nos conta, não teria esta personagem tanto para criticar (e grafitar) em França, antes de, no final da sua visita a Portugal, terminar em grande com tamanho ato infeliz (do qual, tão estupida quanto felizmente –  para bem da PJ – se acabou por vangloriar nas redes sociais)? E, acreditem, este comentário não é xenófobo, apenas porque “quem tem telhados de vidro, não atira pedras ao do vizinho”.

Se este tema deve ser chamado a debate? Com toda a certeza. Se o tem sido? Basta procurar (meios académicos incluídos). Se ainda hoje coabitamos com os dilemas e os fantasmas das heranças que pesam, inclusive, nas relações entre Estados pertencentes à CPLP, com especial ênfase nos PALOP? Mas se o querem debater, façam-no da forma e no local apropriados. Se esta tentativa barata de pseudoativismo rasca pega, bem, onde vamos parar? Será a Inquisição e a Evangelização argumento suficiente para que se grafitem todas as igrejas?

Termino parafraseando um grande nome da nossa História que, melhor do que ninguém, nos deixou incríveis testemunhos deste processo expansionista. Nas palavras do próprio, e enquanto segurava “Nũa mão sempre a espada e noutra a pena” (Camões, 1572, Canto VII, Est. 79), “Que é fraqueza entre ovelhas ser leão” (idem, ibidem, Canto I, Est. 68).

A História serve para ensinar o passado, mas também serve para ensinar como estar no presente e no futuro. Tem essa capacidade pedagógica de lembrar os erros, para evitar que se repitam… Infelizmente, temos uma grande propensão para “fazer ouvidos de mercador”. Com isto, por favor, não desvalorizemos ou façamos de conta que estes atos são ativismo, pois não são. São crime. Há formas e locais apropriados à liberdade de expressão (que eu tanto prezo), mas não ali e não assim.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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