Revista Rua

2018-08-17T11:13:08+00:00 Opinião

Quando o mundo é só de alguns!

Sociedade
Susana Santos
Susana Santos
22 Junho, 2018
Quando o mundo é só de alguns!

Segundo a Teoria da Deriva Continental, há 200 milhões de anos, o nosso planeta Terra seria formado por um supercontinente – Pangeia e um único mar – Pantalassa. Fruto da constante movimentação das placas tectónicas, a pangeia, o grande continente cercado por um único oceano, foi-se dividindo, lentamente, até formar os continentes como os conhecemos hoje. Significa isto dizer que, em tempos, estaríamos restritos à proximidade geográfica entre as diferentes espécies existentes, nomeadamente, a mais complexa de todas – o homo sapiens sapiens.

Independentemente de toda a sua posterior evolução, cor, raça, credo ou orientação sexual, o Homem partilha da mesma origem e de um ADN comum e, apesar desta condição intrínseca, desde a antiguidade, a relação entre os diversos povos traduziu-se em binómios simplistas e redutores, tais como, vencedor/vencido, superior/inferior; rico/pobre, bom/mau, normal/deficiente e que se arrastaram até aos dias de hoje. Estas rivalidades sociais nasceram muito antes de nos debatermos com conceitos como o racismo, xenofobia ou etnocentrismo acontecendo, desde os primórdios, povos da mesma matriz racial a disputarem-se entre si, passando o perdedor a assumir uma condição de prisioneiro ou escravo do vitorioso.

Por tendência, quando abordamos estas matérias transpomos sempre a responsabilidade para os “outros”, distanciamo-nos desta realidade como forma de aliviarmos a nossa consciência. Porém, estas contendas manifestam-se nas situações mais banais do nosso quotidiano; nas nossas relações sociais ou profissionais tendemos a achar que admitir o erro confere-nos vulnerabilidade e fraqueza face aos demais: veja-se a célebre frase – “um homem nunca chora” – como que se ao expor as emoções pudesse ser retirada a virilidade, com a mesma facilidade com que se inala o odor do egocentrismo humano.

Assombraram-nos, há poucos dias atrás, imagens de duas ocorrências e, que se não nos chocaram, deveríamos reanalisar, seriamente, os nossos valores pessoais e os nossos ideais, ou então, perceber se padecemos de alguma patologia mental.

A primeira notícia – o primeiro ministro da Espanha, Pedro Sanchez, deu instruções para que Espanha recebesse o “Aquarius” no porto de Valência, com 629 imigrantes a bordo, fazendo parte deste número, sete mulheres grávidas, 11 crianças pequenas e 123 menores de idade sem responsáveis, depois da sua entrada ter sido recusada pela Itália e por Malta, espelhando bem a falência da Europa no que toca à conformidade sobre imigração.

Inevitavelmente, somos levados a indagar o que moverá estas pessoas a arriscar a sua própria vida nestas travessias ilegais, além de ser quase inevitável afirmarmos que, só pelo facto de termos nascido num país isento de guerra ou com as condições básicas de sobrevivência representa, por si só, uma verdadeira bênção.

A segunda notícia: desde que a administração Trump anunciou, há apenas seis semanas, a sua política de “tolerância zero contra a imigração”, quase duas mil crianças foram separadas à força dos seus pais pelo governo norte-americano e retidas em celas nas instalações da guarda de controlo da fronteira no sul do Texas, cada cela alojando 20 ou mais crianças, em condições desumanas. Esta realidade veio a público após Jennifer Harbury, advogada e ativista dos direitos humanos ter conseguido uma gravação, com a ajuda de um informador, captando os gritos de desespero destas crianças ao serem brutalmente arrancadas dos braços dos seus progenitores, vendo desabar o seu mundo, sem perceberem o que lhes está a acontecer ou o motivo pelo qual estão a ser tão severamente punidas.

Muitas vezes dou por mim a debater-me sobre a lógica de tudo isto – dos outros e da minha própria, já que não me livro de ter muita culpa no cartório! Vivemos confortavelmente na nossa casinha e, atribuo o diminutivo “inha”  já  que parece constituir parte integrante do vocabulário de todos os sujeitos, sempre demasiado pequena face à do vizinho ou aquela com que ansiamos e sem a climatização que desejamos (só em Portugal as estatísticas apontam para mais de 8000 sem-abrigo, contam como seu único teto o céu e para servir de aquecimento alguns cartões achados no lixo ou, com alguma sorte, um cobertor velho dispensado por alguma  alma caridosa); num carro que constata-se bem distante do veículo “xpto”, em conflito permanente com as birras das nossas crianças que, de estômago e alma cheia, gritam desesperadamente que não gostam de comer sopa (quando existem tantas pessoas sem ter o que comer ou beber – segundo a ONU a cada quatro segundos morre no mundo uma pessoa vítima de fome); na ilusão de determinada condição física,  com padrões de beleza  impostos  por uma sociedade consumista e a qual nos bombardeia, diariamente, criando a falsa sensação de que é-nos, praticamente, impossível viver sem as medidas 86-60-86 ou sem as características abonecadas e ditas perfeitas das barbies, com corpos alterados pelo botox ou silicone (segundo a OMS mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo possuem algum tipo de deficiência vendo a sua vida limitada, sem se poderem mover, ouvir, ver ou falar num mundo tal como o conhecemos, por falta condições de trabalho e autonomia, escassez de recursos económicos, vítimas de inúmeros preconceitos).

Vivemos egoistamente, focados na nossa própria existência, evitando as imagens chocantes que desvendam todo o mal que nos rodeia, não tão somente por nos causarem desconforto ou  porque “é chato”, como diria alguém que tem sido figura central de todos os noticiários atualmente (lá nisso, o mérito não lhe pode ser negado), mas concretamente, porque nos podem provocar traumas  psicológicos para a vida – que sensíveis somos, talvez por nunca termos tido necessidade de lidar frontalmente com a dura realidade envolvente ou porque fomos demasiadas vezes poupados a colocarmo-nos no lugar do outro.

Questiono-me quais são os critérios que determinam que dada pessoa deve sobreviver ou, simplesmente, morrer de fome, de sede, com balas cravadas no corpo, com os membros dilacerados em consequência da explosão de uma granada ou de um míssil? Quem condena um pai ou uma mãe de fazer de tudo o que estiver ao seu alcance, para garantir a sobrevivência dos seus filhos? Quantos de nós não faria o mesmo ao ver a fragilidade dos seus filhos, definhando de fome, sucumbindo de dores da carne e da alma, chorando de medo, impotentes face ao seu olhar de aflição e sem ter como os ajudar?

Se todos temos a mesma origem num planeta composto, outrora, por um continente único, se partilhamos do mesmo código genético e se possuímos as mesmas necessidades básicas, deveria elevar-se como requisito irrefutável e de máxima relevância salvaguardar e assegurar a vida do nosso próximo, independentemente das leis que foram concebidas pelos homens e para os homens, mas que por vezes mais parecem patrocinar os interesses de apenas alguns.

Sobre o Autor:
De signo Gémeos e ascendente em Virgem, Susana Santos é Professora e Comissária da Assembleia Plurimunicipal do PAN Algarve. Frase favorita –  “O simples bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”.

Partilhar Artigo: