Revista Rua

2018-05-03T11:01:43+00:00 Opinião

Quanto vale um disco de música em 2018?

Partilhar Artigo:
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
2 Janeiro, 2018
Quanto vale um disco de música em 2018?

Faz precisamente neste mês de janeiro dois anos que aceitei o desafio de começar a escrever sobre música para a Revista Rua. De tantas paixões, passatempos e outras coisas que gosto ou faço, a música é daquelas coisas essenciais. Gostos à parte, o que é em 2018 o mercado da música? Quem compra ainda hoje discos de música?

Quantos de nós, quando vai a uma loja ou superfície que vende discos de música, já não pensou: “isto ainda vende?” ou “ainda há quem compre CD’s de música?”. A nível pessoal, sou daqueles que compra, em média, 3/4 discos por mês. Tenho uma lista que vou atualizando para ouvir em casa, via streaming, aqueles nomes que me causam interesse e, no final, tento comprar aqueles que acho que cabem na minha coleção. Obviamente, nem todos podem ou querem gastar dinheiro com discos, tal como acontece com os filmes. Porém, no mercado livreiro o caso muda, o livro é ainda hoje assumido como uma peça de valor e que se deve ter. O digital não fez a mossa no mercado livreiro que fez na música ou no cinema. São, sem dúvida, mercados diferentes e com tipos de público fidelizados também diferentes.

Em média, um livro novo pode custar entre dez a 20 euros e um disco de música, comercializado nacionalmente, raramente passa os 16 euros. É aqui que tudo complica: para o comum consumidor, gastar 15 euros num disco de música é caro e nem faz sentido. Se formos a uma qualquer loja que comercializa música é fácil ouvir comentários como “é caro” ou “ouço em casa sem pagar”. É certo que o flagelo da pirataria desvalorizou este mercado, mas mais do que isso desvalorizou a “peça” ou, como gostam de lhe chamar, o “produto”. É certo que devido às nossas plataformas de streaming como Spotify e afins, o download ilegal baixou imenso, mas até nestes casos se vê como as coisas não são nada fáceis: sendo esta plataforma gratuita, é com a opção premium – que custa cerca de sete euros mensais – que podemos ouvir tudo o que queremos e sem anúncios. Pessoalmente conto pelos dedos duma mão o número de pessoas que conheço que está disposta a pagar sete euros por mês para ter acesso a música infinita e em qualquer lado. Não querendo ser um fundamentalista, este valor é menor do que algumas refeições que podemos fazer no McDonald’s (e não faz mal à saúde!).

Sendo que já não se consome música como era normal nas décadas de 70, 80 e 90, esta indústria e mercado teve de se adaptar aos novos tempos. Nos dias de hoje, as editoras e os músicos rentabilizam a sua atividade ao dar o maior número de concertos possível. Nos casos das bandas de dimensão mundial, uma tour de promoção chega a durar três anos, com concertos pelo mundo todo. Damos conta, de repente, que se promovem os concertos em vez dos discos, quando devia ser precisamente o oposto.

Todos sabemos que a música, tal como a cultura em geral, não é um bem prioritário para (sobre)vivermos, mas é essencial. Seja um disco de música, um livro, um DVD, estas peças que compramos e temos em casa dizem muito de nós, do nosso gosto, dos nossos hábitos. Recordo-me, na minha infância, de entrar na casa de alguns tios meus e ver estantes cheias de cassetes, vinis e CD’s. Hoje, encontramos essas mesmas estantes em forma de gigabytes e clouds. O físico deu lugar ao etéreo. É curiosa esta contradição de hábitos e valores quando na nossa vivência pessoal é tudo o que desejamos que ela não seja: vazia.

Partilhar Artigo:
Fechar