Revista Rua

2018-05-03T10:59:00+00:00 Opinião

Quanto vale um farricoco?

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Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
2 Março, 2018
Quanto vale um farricoco?

Originalmente, os farricocos eram aqueles que, vestidos de escuro e com a cara coberta, transportavam em ombros os caixões nos enterros, e quiçá por estarem associados aos cortejos fúnebres, passaram a ser aqueles que acompanhavam as procissões de penitência, tendo mais tarde um papel mais ativo, o de anunciar os pecados e chamar para à confissão e penitência. Hoje, os farricocos serão talvez uma das figuras mais marcantes das procissões da Semana Santa de Braga, reproduzidos e comercializados em miniaturas de diversos materiais, tamanhos e feitios.

A Semana Santa de Braga, o primeiro evento de natureza religiosa declarado de “interesse para o turismo”, pelo Turismo de Portugal, em 2012, é a mais antiga e importante do país. Esta importância vem desafiar a cidade de Braga para uma reflexão sobre as suas vantagens competitivas em matéria de turismo, em particular de turismo cultural e religioso. Ou seja, uma reflexão sobre a sua identidade enquanto destino turístico.

Entretanto, a Semana Santa de Braga vai-se repetindo, ano após ano, com impactos económicos e sociais para a cidade e para a região, cuja avaliação tem despertado o interesse da comunidade académica e, naturalmente, dos agentes económicos, políticos e culturais, em particular daqueles envolvidos na sua organização. Este interesse tem-se manifestado na proliferação de estudos acerca do impacto económico da Semana Santa de Braga, com resultados consistentes quanto ao seu papel dinamizador da atividade económica e potenciador do desenvolvimento da cidade.

Avaliar, do ponto de vista económico, a Semana Santa de Braga passa assim por determinar um conjunto de  impactos (diretos, relacionados com a despesa dos visitantes; indiretos, decorrentes  de despesas em atividades que fornecem bens e serviços às atividades que satisfazem as necessidades dos visitantes; e induzidos, relativos ao consumo gerado pelo rendimento adicional decorrente do aumento da produção), com base numa metodologia própria (modelos de input-output) e em informação obtida através de inquéritos realizados junto dos agentes económicos (impactos diretos) e da aplicação de multiplicadores previamente estimados para a economia portuguesa (impactos indiretos e induzidos). Este tipo de abordagem tende, cada vez mais, a ser complementada com informação sobre o impacto mediático do evento, que reflete a sua projeção nos media e cuja tradução monetária pode atingir valores bastante significativos.

O estudo mais recente de avaliação económica da Semana Santa de Braga, baseado em informação recolhida durante a Semana Santa de Braga de 2017, estima um impacto total próximo de quinze milhões de euros, em termos de volume de negócios, dos quais nove milhões e meio de euros são imputáveis à Semana Santa. Ainda que se desconheça o contributo dos farricocos para este valor, é inquestionável a relevância da Semana Santa de Braga, não só enquanto ativo cultural e religioso, mas também enquanto ativo económico.

Sobre o Autor

Economista, Universidade do Minho.

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