Revista Rua

2020-12-17T10:16:44+00:00 Opinião

Quem nos aparece cá por casa

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
17 Dezembro, 2020
Quem nos aparece cá por casa

Não era meia-noite e um relógio rodava ponteiros numa parede vazia, contando pregos sem quadros e a desordem do mundo a criar raízes onde a luz se apaga. Deus esqueceu- se daquela casa: a luz do altar com Cristo, São João Baptista com um carneirinho e um místico de chapéu de palha apagaram-se quando a vela se extinguiu numa fumaça de estearina. Uma tia chegou-se perto do altar e declarou:

– Onde está o retrato que não o vejo?
E não viu, não ouviu, nem cheirou: apenas sobrou a vela a soprar o último fumo. Estendeu-se sozinha na cama, arrumou os comprimidos e deitou-se. A vida é séria demais para ser levada a sério, é um triciclo enferrujado que deus empurra por um passeio de calçada e nós sentados de mãos atrás das costas, vendados como um condenado, por isso de cada vez que lhe diziam para esquecer essas carícias inventadas, respondia que era bom ser ingénuo para ignorar, nem que fosse por momentos, a tristeza das pequenas saudades. A visita ajeitou-lhe a coberta, beijou-lhe o rosto e a tia sorriu sem saber do que se tratava, abrindo um canto de olho para garantir que a visita se escapulia antes do crepúsculo. De manhã o dia era outro, acariciou a almofada vazia do seu lado direito, reparou nos filhos e netos alinhados na fotografia das férias no Alentejo e agradeceu à visita da noite passada por ordenar os seus amores dentro de uma moldura e por, numa noite diferente de todas, lhe ter vincado a almofada vizinha, como sempre desejou que nunca cessasse de acontecer.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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