Revista Rua

2020-03-11T11:39:10+00:00 Cultura, Pintura

Rafa López: um andaluz a pensar o mundo

Rafa López é um acumulador de sinais, de referências, refletindo, através da sua forma de criação de imagens, a velocidade e a hibridez dos dias.
una pesadilla cualquiera de verano. 2017
Helena Mendes Pereira11 Março, 2020
Rafa López: um andaluz a pensar o mundo
Rafa López é um acumulador de sinais, de referências, refletindo, através da sua forma de criação de imagens, a velocidade e a hibridez dos dias.

Na renovação do outono, os ventos do sul, andaluzes, voltam a trazer-nos a pintura de Rafa López (n.1983), artista com o qual a zet gallery mantém colaboração desde 2017. O artista merece-nos redescoberta, sobretudo porque a sua inquietação, vertida em transnarratividade pictórica, nos devolve ao poder da Arte enquanto ponto de chegada e de partida para o pensamento sobre os grandes temas da aflição contemporânea.

Rafa López licenciou-se em Belas Artes pela Universidade de Sevilha e possui mestrado na área das técnicas da ilustração pela CEA de Sevilha. Desde 2009 que vence vários prémios de pintura em Espanha e que tem feito um percurso expositivo seletivo no seu contexto nacional e internacional. Rafa López vive (viveu sempre) a poucos quilómetros da magistral Sevilha, cidade com extensa tradição no campo das artes plásticas e visuais e que combina, na sua História e no seu edificado patrimonial, a memória da ocupação muçulmana, da grandiosa Espanha dos Descobrimentos e do Sacro Império Romano-Germânico, com expressão do Renascimento ao Rococó e, ainda, os sinais de uma urbe contemporânea e cosmopolita, também conservadora e, quem sabe, redentora.

bandera de rusia en la lejanía. 2017

Tudo isto existe e persiste na visão do mundo de Rafa López, um acumulador de camadas de estórias e de camadas semióticas, verdadeiros palimpsestos que uma paleta viva, dinâmica e densa nos convida a deslindar. São os muros dos lugares de agora, mais do que o de Berlim; é a gamificação da sociedade, mais do que o elogio do Super Mário; é a emergência das bandeiras totalitárias mais do que apenas a russa; são os sonhadores e aventureiros, para além de apenas D. Quixote; e é a subtil observação dos contextos, para lá da constatação dos insólitos. Rafa López é um acumulador de sinais, de referências, refletindo, através da sua forma de criação de imagens, a velocidade e a hibridez dos dias e a chuva de meteoritos e de cóleras que somos obrigados a enfrentar. Para lá de tudo, da poesia e da sociologia do seu trabalho, observamos o desenho e a pintura, que dominam a sua produção, como campos de ação aberta que se expandem para a instalação em que, por seu turno, desconstrói a imagem e nos revela o seu processo.

Em termos de quadro referencial, recupero breve excerto do texto que lhe dediquei a propósito da exposição individual que lhe organizámos, na zet gallery, no termo de 2017: “Nas cores lúcidas e enérgicas de Rafa López, às quais junta um sistema de códigos, de sobreposição e justaposição de conteúdo e narração de uma ideia ou de um conjunto imagético de pensamentos surrealistas, que me recordam vários portugueses, entre os quais Eduardo Batarda (n.1943), eterno representante da pop art sofisticada nacional e Joaquim Rodrigo (1912-1997), no alfabeto simbólico em contorno sobre a mancha de cor. Também Jean-Michel Basquiat (1960-1988) me parece andar por lá e, porque não, as cores e os motivos da azulejaria muçulmana do sul da Península, atribuindo ao autor uma dimensão telúrica, contrastante com a sua condição de século XXI”.

Não obstante a coerência de um caminho, o trabalho encarrega-se de evoluir, de se adensar por vezes, depurar noutras. Surpreende-nos e prende-nos, por isso lhe retomamos a análise.

Sobre Helena Mendes Pereira
Chief Curator da zet gallery, em Braga

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