Revista Rua

2018-05-03T11:00:04+00:00 Opinião

(Re)descobrir

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José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
2 Fevereiro, 2018
(Re)descobrir

A novidade há de ser sempre o mais procurado. A novidade, o novo, o atual, o de hoje. O que hoje é feito de ouro, amanhã já é olhado como bronze. Estigmatizar o que já não é recente é quase condição humana, sobretudo no ramo da tecnologia. O iPhone topo de gama lançado em 2016 já é, nos dias de hoje, uma velharia. Felizmente, na arte, o que é bom perdura e é valorizado com o passar do tempo.

Dizem que a moda é cíclica, repete-se num ciclo em que bebe de si mesma para se reinventar: isto é bem verdade. Quando se fala em ‘moda’, fala-se em tendência(s); seja de roupa, seja de hábitos, em formas de estar, no que consumimos, vemos ou ouvimos. A moda é cíclica porque o ser humano se reinventa e se revê para aquilo que quer no futuro. Na música acontece isto, sempre aconteceu.

Nos dias que correm, é notória a presença da década de 80 na música nova que vai saindo e que se vai criando. Não é de hoje, não é de 2018, já é assim há quase uma década. Este ressurgimento dos anos 80 faz com que confundamos, por vezes, uma banda nova com uma música de 1985 dos New Order, por exemplo. A inspiração é a maior causa de moda: criamos tendência com base na nossa inspiração e nas nossas influências. Há de ser sempre assim.

Enquanto consumidor de música e ouvinte atento vou assistindo a revivalismos que são mais do que normais. Uma vez mais, a moda, a vida, a arte, tudo isto é cíclico. Este saber que noutrora já se fez o que hoje se ouve e se cria, consegue suscitar em nós a curiosidade de pesquisar e de conhecer. Numa era em que estamos à distância dum clique de absolutamente tudo, transformar o meu computador pessoal numa autêntica jukebox é das coisas que mais prazer me dá. Vejo-me a deambular nos meandros do YouTube a procurar e a pesquisar coisas ‘antigas’ e a fascinar-me como se fossem feitas hoje; seja de que década for.

Nos meus passatempos e na minha atividade profissional, a procura pelo que sai, pela tal ‘novidade’, é algo incontornável. É um exercício saudável, necessário, é certo, mas ao mesmo tempo de satisfação pessoal. Muitas vezes, reparo neste ‘erro’ de andar à procura da pólvora quando já foi inventada. Há tanta coisa que não conhecemos do passado, de tanta qualidade que nos custa a crer que um tema de 1978, por exemplo, soe como uma música feita hoje (ou melhor!). A sensação de que no passado se fazia música melhor do que nos dias de hoje é uma sombra que começa a estar cada vez mais presente.

A este exercício de descobrir coisas que foram feitas no passado, podemos juntar um outro: ouvir novamente música que ouvíamos há 10/15 anos (sinto-me velho…) e redescobrir músicas que, na altura, não demos grande valor e que hoje já conseguimos encontrar elementos novos, que nos permitem apreciá-la duma forma diferente. Muitas vezes não estamos prontos para descobrir algo, não é a altura certa para nos confrontarmos com determinado artista/música. Precisamos de redescobrir para, verdadeiramente, descobrir. Recordo-me, a título de exemplo, de ouvir o disco Kid A dos Radiohead com 12 anos e sentir vazio e estranheza. Por sorte, voltei a ouvir uns anos mais tarde e essa (re)descoberta fez-me compreender a verdadeira arte e a natureza daquela que eu considero a minha banda favorita.

Ando há semanas a ouvir Funk Rock dos anos 70 e dou por mim a ouvir autênticas pérolas que nem fazia ideia existirem. Deixo-vos uma sugestão para quem ainda não conhece: pesquisem por um grupo chamado Brass Construction e deixem-se levar. Quão bem sabe irmos ao encontro do acaso e procurarmos música nova, em canais acessíveis a todos como o YouTube, e conhecermos coisas que nem fazíamos ideia existirem? Descobrir o passado é tão (ou mais) valioso como descobrir o presente, a novidade.
Façam boas viagens.

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