Revista Rua

2019-11-06T00:19:18+00:00 Cultura, Radar, Teatro

Reinar Depois de Morrer, ou a força do amor eterno entre Pedro e Inês

A peça “Reinar Depois de Morrer” é para ver e sentir em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite, até 17 de novembro.
Fotografia de Rui Mateus e Luana Santos
Cláudia Paiva Silva5 Novembro, 2019
Reinar Depois de Morrer, ou a força do amor eterno entre Pedro e Inês
A peça “Reinar Depois de Morrer” é para ver e sentir em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite, até 17 de novembro.

Escrita em 1630 por Luis Veléz de Guevara, Reinar Depois de Morrer será uma das primeiras incursões de palco à história de amor mais conhecida de Portugal. Não deixa de ser curioso, nem tão pouco irónico, o interesse entre os autores espanhóis da época dada a situação política entre Portugal e Espanha, interesse esse ligeiramente maior do que o dos autores portugueses, embora já se conhecessem alguns relatos escritos incluídos no Cancioneiro Geral, com Trovas à Morte de Inês de Castro, e posteriormente n’Os Lusíadas de Camões (1572), bem como n’A Castro de António Ferreira (1587).

Ainda assim será Reinar Depois de Morrer, de origem espanhola, o texto que melhor retrata o espírito dos protagonistas.

O cenário desta adaptação agora realizada pela Companhia de Teatro de Almada poderia dizer-se semelhante a uma embarcação, contudo, à medida que verificamos a evolução da trama, verifica-se também a sua transformação entre os jardins da Quinta das Lágrimas, as margens do Mondego, os riachos que, segundo a lenda, se enchiam com o pranto de Inês, primeiro devido a saudade, depois, devido à certeza do seu trágico destino. Quando Pedro é preso a mando do seu pai, Afonso IV, as quatro aberturas na estrutura transformam-se em grades de prisão, também elas transmissoras de boas novas e desventuras entre o casal de amantes.

E se o cenário é fundamental, serão os intervenientes na história da História que enchem o restante espaço. Inês de Castro, bela, sensata, Garça branca, apaixonada pela Vida, é ela a Vida de tudo; D. Afonso IV, Rei de Portugal, Pai, Amigo, Cúmplice, que tem nas suas mãos a escolha entre o Dever de Estado e a alegria de uma família; e, por último, a Infanta Blanca de Navarra, escolhida entre as demais para desposar Pedro após a morte de Constança, uma mulher que nasceu e foi criada para reinar, mas que sente na alma o desprezo e despeito com que o futuro marido a recebe, não lhe omitindo tão pouco já ser casado com outra mulher. D. Pedro é assim o elo de ligação entre todos, podendo até ser visto como um tolo adolescente, enamorado de Inês, correndo pelos bosques, mas desventurado na sua condição de herdeiro ao trono de Portugal.

É neste quarteto, no qual também integram personagens secundárias, que tudo se irá passar. No reconhecimento de Afonso à sua (talvez) nova nora, à aceitação dos seus netos com todo o amor que um avô pode dar, mas também às várias tentativas frustradas e frustrantes de chamar Pedro à realidade dos factos, às suas responsabilidades, citando-se uma das passagens mais brilhantes proferidas por João Lagarto representando o monarca: “Eu rogo-vos como amigo, peço-vos como Pai, mando-vos como Rei, não deis pretexto a agastar-me”. Mas Pedro, talvez já mostrando alguma debilidade, que posteriormente à morte de Inês é totalmente revelada, apenas tinha olhos para aquela que era a mais formosa entre todas.

Blanca de Navarra, Infanta, é por sinal a que mais razões tem para odiar e querer a morte da sua rival, contudo, é a que irá igualmente desistir primeiro, voltando humilhada para casa, embora com as simpatias do rei luso.

Quanto à morte de Inês, fatídico fado já esperado, não se consegue encontrar um culpado a não ser uma sociedade que, já na altura, tinha um peso imenso às decisões do Estado. Por um lado, Afonso amaria tanto Inês como a seus netos, por outro, dificilmente poderia deixar que os filhos “bastardos” do seu próprio filho subissem eventualmente ao trono num futuro. As conturbações políticas à época não seriam favoráveis e conselheiros (ou homens políticos) abutres, sempre existiram. Matando-se assim o elo de sangue, matando-se a mulher maldita que todos adoravam e que todos adorava, o assunto poderia ficar resolvido, mas nada preparava para que, após a sua morte, D. Pedro a coroasse Rainha de Portugal e a obrigasse à imagem macabra de ver os seus súbditos beijarem a mão do corpo defunto: “Silêncio, silêncio! Ouvi: Esta é a Inês laureada, esta é a rainha infeliz, que mereceu em Portugal, reinar depois de morrer”

Após a passagem por Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite, Reinar Depois de Morrer, visitará o Porto de 5 a 7 de dezembro, no Teatro Nacional São João, estando igualmente integrada no Festival Internacional de Teatro Clássico de Almagro.

Ficha Técnica:

Texto de Luis Vélez de Guevara

Adaptação José Gabriel Antuñano

Tradução Nuno Júdice

Encenação de Ignacio García

Intérpretes José Neves*, Margarida Vila-Nova, João Lagarto, Ana Cris, David Pereira Bastos, Leonor Alecrim, Maria Frade, Pedro Walter e as crianças Diogo Moura e Gonçalo Saraiva Cenografia José Manuel Castanheira Figurinos Ana Paula Rocha Desenho de luz Guilherme Frazão

Assistente de encenação João Farraia

Assistente de figurinos Carolina Furtado

Estagiário de cenografia Filipe Fernandes

Confecção de guarda-roupa Iza Van Atelier

Jóias Sílvia Teles

Produção Paulo Mendes

Direcção de montagem Guilherme Frazão

Montagem Andreia Mendrico, Carlos Janeiro, Ivan Teixeira, Paulo Horta, Pedro Boalhosa, Gustavo Paes, Lucas Ribeiro, Marizan Lima e o estagiário Rodrigo Marques

Maquinaria Ivan Teixeira

Operação de luz e som Andreia Mendrico

Fotografia Rui Mateus / Luana Santos

* Ator gentilmente cedido pelo Teatro Nacional D. Maria II

Companhia de Teatro de Almada em co-produção com a Compañia Nacional de Teatro Clásico.

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