Revista Rua

2021-10-04T15:05:48+01:00 Opinião

Remédio para todos os males

Sociedade
Pedro Nascimento
4 Outubro, 2021
Remédio para todos os males
©D.R.

O que me proponho a escrever deve iniciar-se com um apontamento que estampa uma certeza: Portugal é um país que continua a ser um pedaço da parca acalmia mundial. Sou, como tantos outros, um português que não trocaria o meu país por qualquer outro. Dir-me-ão que será por estar amarrado a uma cultura, por comodidade ou até conformismo. Mas desprendo-me desses argumentos.

Questão diferente será debruçarmo-nos sobre os vícios que rasgam uma Nação que caminha para um milénio de História. Tantas vezes caio em repetição, mas é tão vulgar criticarmos o poder político e as suas elites que, não raras vezes, acabam por beneficiar da trivialidade dessa mesma crítica. Contudo, toda a imundície que gravita à volta do poder não deixa de ser uma verdade incontornável.

E não menos verdadeiro é o facto deste lamaçal se alastrar sucessiva e exponencialmente conforme os tempos correm. A título de exemplo, olhemos para as notícias em redor de João Rendeiro. Toda a tinta que corre nos jornais aponta as falhas de um sistema judicial cada vez mais frágil perante os poderosos. E se antes se apontavam as lacunas e os “engenhos” da lei como a base da desconfiança, chegamos hoje ao ponto de questionar seriamente a idoneidade dos próprios julgadores.

Será este um problema demasiado sério ao ponto de exigir uma mudança definitiva do paradigma? Indubitavelmente, a resposta será afirmativa. E como? Devemos estar cientes que em Portugal as reacções são cada vez mais corrosivas quanto mais grave é o problema. Daí que se polarizem opiniões com ligeireza.

Em modesto entendimento, há um motor responsável por manter este status quo: a aliança entre o poder político e a imprensa que, tomada por uma unidade, constrói uma relação simbiótica com a amnésia generalizada dos portugueses. No caso específico de João Rendeiro, já ninguém se lembra que o agora infame Banco Privado Português (BPP) era referenciado em toda a imprensa económica da época com pompa e circunstância, elevado a um patamar de excelência. E um redobrado esforço de memória não permitirá certamente a muitos relembrar as comendas e condecorações caídas nas lapelas destes insignes gestores e decisores.

Menos difícil será agarrarmos a memória de, em plena campanha eleitoral, contarmos com um Primeiro-Ministro que correu o país de lés-a-lés com promessas inusitadas e críticas selectivas a um estado-geral de descontentamento de determinados quadrantes. Aliás, como fazem quase todos. Olham para os sinais dos tempos como se nenhuma responsabilidade lhes pudesse ser assacada e, para além disso, como se fossem a solução para os problemas que eles próprios semeiam.

Envolvido neste assunto, os meus pensamentos quase me faziam gritar “Eureka!” – descobri! Mas, sem contemplações, percebi que o óbvio não é merecedor do ornato. Porém, não deixa de ser importante afirmar o elixir da longa vida, a panaceia universal dos governantes. Panacea era uma das filhas do Deus Apolo, e o seu nome é proveniente da junção de “pan” (todo) e “akos” (remédio), em alusão ao facto de Panacea ser capaz de curar todas as enfermidades. E em Portugal há remédio para todos os males. Para isso, basta seguir a agenda de desinformação, incultura e bronquice que é promovida diariamente pelo poder político e uma imprensa de mãos dadas. Critica-se a Justiça, a Saúde, a Educação e os seus agentes. Mas a fonte é a mesma e não seca.

Assim vai o nosso país.

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia.

Sobre o autor:

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

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