Revista Rua

2019-01-25T11:27:59+00:00 Opinião

Resgate da Memória

História e Património
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva
25 Janeiro, 2019
Resgate da Memória

Muitos o saberão, mas poucos se lembram, do que nos foi contado nas aulas de História sobre a união dos reinos de Portugal e de Espanha no séc. XV. D. Manuel I iria desposar a filha dos reis Católicos de Espanha (Isabel e Fernando de Castela e Aragão), mas para tal empreendimento político a solução passava em assinar o decreto de expulsão do reino de todos os judeus (e mouros), que aconteceu em 1496. Contudo, o que poucos mesmo saberão, é que escassos quatro anos antes, em 1492, D. João II, então rei de Portugal, permitiu a entrada dos refugiados vindos de Espanha (mesmo cujo prazo de estadia não ultrapassasse oito meses), após a ordem dos reis católicos à conversão forçada ao Cristianismo a todos os que não professassem a mesma fé. Poucos menos ainda irão perder tempo em pesquisar e perceber que o monarca lusitano delimitou algumas regiões para que os judeus, sempre olhados com desconfiança pelo clero, nobreza e povo, se pudessem reestabelecer, na altura, sem constrangimentos, com exceção dos devidos encargos dos impostos a pagar.

Embora muitas centenas de famílias tivessem procurado as principais cidades para destino transitório ou final, a maioria permaneceu junto à raia, desde Trás-os-Montes até ao Alentejo.  Vivendo em judiarias, restritas a determinadas zonas das povoações, onde não faltava escola e sinagoga, os judeus foram também sendo integrados nas comunidades cristãs, nomeadamente no comércio.

Tudo mudou quando a Santa Inquisição, qual polvo cheio de tentáculos, se imiscuiu na sociedade portuguesa, tomando rédeas sobre vidas humanas, desterrando crianças para ilhas tropicais onde viriam a morrer por falta de condições e por doenças na altura desconhecidas, famílias inteiras para os calabouços de Lisboa, Évora, Coimbra, entre outras cidades, onde não raramente terminavam em brutais autos-de-fé em praças públicas.

Porta estilo gótico

Portugal, contudo, e atualmente, não se privando a memória de ter feito parte de um dos maiores genocídios da História, ainda possui riquezas de património medievais, das quais se pode orgulhar. A Rota das Judiarias é um belo exemplo, a par de outras, onde é possível ver-se o que ainda se conseguiu preservar e que fez parte desses momentos tão específicos. Sendo o melhor exemplo Belmonte, a verdade é que esta foi a única vila onde os judeus sefarditas – nome usado para referir os descendentes de judeus originários de Portugal e Espanha -, conseguiram subsistir mesmo durante o período mais negro da idade média e renascimento, mantendo ainda hoje uma comunidade viva e ativa, e claro, conseguindo atrair um tipo de turismo religioso diferente daquele que as capitais a oeste estão habituadas.

Ainda assim, é preferível fugir ao mais óbvio e famoso, e visitar outras localidades onde os vestígios da presença judaica são igualmente bem notórios e talvez mais belos. Castelo de Vide, no norte alentejano, bem perto da fronteira com Espanha, é uma pequena maravilha arquitetónica. Pequena e fazendo lembrar Óbidos, é também conhecida como “Sintra do Alentejo”, embora o casario dentro da muralha histórica nada tenha em comum com a vila às portas de Lisboa.

Mais curioso ainda é observar, junto às portas das ruas circundantes, os cruciformes (cruzes cravadas nas paredes), uma forma de enganar os familiares da santa fé, e outros que por medo de represálias, ou pura maldade, poderiam fazer queixa contra pessoas ou famílias.

A sua judiaria está bem circunscrita à vertente norte do Castelo (a visitar), correspondendo às ruas e ruelas que descem até à Fonte da Vila, cujas propriedades da água se dizem milagrosas. A casa que correspondeu à sinagoga foi totalmente recuperada, e está ao cargo de Yael Bar Tolmei (ou Ana Bela Santos) descendente de judeus sefarditas da vila. Dentro podemos ter acesso à história da diáspora judaica, aos principais judeus nascidos em Castelo de Vide, como Damião de Góis, ver alguns dos objetos normalmente utilizados nas cerimónias religiosas, e claro, vislumbrar os famosos “armários” ou Ekhal Hakodesh, onde eram guardados os livros e escrituras mais sagradas (muitos deles escondidos atrás de paredes falsas aquando das vistorias da Inquisição e, da mesma forma, muitos deles, durante os últimos 20 anos reencontrados e identificados). Mais curioso ainda é observar, junto às portas das ruas circundantes, os cruciformes (cruzes cravadas nas paredes), uma forma de enganar os familiares da santa fé, e outros que por medo de represálias, ou pura maldade, poderiam fazer queixa contra pessoas ou famílias que, a título de exemplo, não trabalhassem sábado – preservando o culto do sabbath -, não comessem carne de porco, tomassem banho ou acendessem candelabros às sextas-feiras, entre outros costumes, que de tão pitorescos, também fazem parte do quotidiano atual em Portugal e noutros países. Outro símbolo característico das casas judaicas é a presença de reentrâncias na ombreira direita das portas, servindo o mesmo para se guardar a Mezuzah, onde são geralmente depositados dois textos sagrados da Torah. É bastante fácil compreender a arquitetura simples da casa, dita, “do judeu”. Porta (que poderá apresentar-se biselada e adornada, típico da influência ainda gótica passando a manuelina da época) e janela baixa térrea em rés-do-chão e primeiro andar, ou simplesmente porta térrea e janela também com primeiro piso.

Além de Castelo de Vide, outra das cidades que valem a pena visitar, ainda a norte do Tejo, é Castelo Branco. De igual forma, apresenta várias simbologias características da presença judaica, sendo os cruciformes os mais fáceis de identificar, juntamente com as portas biseladas e trabalhadas em desenhos que poderiam descrever a profissão dos seus moradores.

Verdadeiro ou falso, o que é certo é que o nosso país está cheio de tesouros à espera de serem descobertos e outros tantos ainda à espera de serem resgatados da incúria de câmaras municipais e Estado ou, com pior destino, serem vendidos ao desbarato a interesses privados.

Como já mencionado, são vários os costumes que hoje em dia são usados e, quiçá, poderão estar relacionados com esta herança judaica: sabiam que a farinheira é uma invenção dos judeus sefarditas em resposta a não poderem comer carne de porco e conseguirem passar despercebidos aos olhares mais atentos de informadores da Inquisição? Ou, mais simplesmente, o ato de varrermos as divisões de uma casa de fora para dentro, porque se dizia que ao contrário iria varrer a sorte e fortuna para a rua? Ou as mezinhas das nossas avós e bisavós, como colocar panos com vinagre nas testas em casos de febre?

Verdadeiro ou falso, o que é certo é que o nosso país está cheio de tesouros à espera de serem descobertos e outros tantos ainda à espera de serem resgatados da incúria de câmaras municipais e Estado ou, com pior destino, serem vendidos ao desbarato a interesses privados e destruídos para sempre em prol de mais um hotel, hostel ou turismo de habitação, que não saibam preservar um legado histórico.

Também é certo que manter este património é resgatar a nossa própria memória, uma vez que sem ela, coisas impensáveis poderão voltar a ocorrer.

Sobre a autora:
Geóloga (do Gás e Petróleo). Autora de textos no blog A Carroça da Clau e simpática utilizadora de IG: @claudiapaivasilva e @urban_trender. Aficionada nas heranças culturais de Portugal e em chocolate.

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