Revista Rua

2019-10-14T15:32:34+01:00 Cultura, Música

Revolve: dez anos de criação artística em Guimarães

... com uma edição especial do Mucho Flow, a 1 e 2 de novembro!
Miguel de Oliveira, um dos criadores da Revolve | Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto14 Outubro, 2019
Revolve: dez anos de criação artística em Guimarães
... com uma edição especial do Mucho Flow, a 1 e 2 de novembro!

A Revolve, uma produtora/editora sediada em Guimarães, celebra uma década de inovação artística e cultural. Ao longo destes dez anos somou mais de trinta álbuns editados e uma série de eventos que preenchem o seu portefólio, seguindo a intenção de criar um dinamismo único e uma sinergia incomparável na cidade.

Em ano de efemérides, aproxima-se mais uma edição do Mucho Flow, que desta vez se prolonga por dois dias. A 7ª edição do festival de música decorre nos dias 1 e 2 de novembro e irá ocupar, pela primeira vez, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), o S. Mamede e o antigo edifício dos CTT, em Guimarães. A cidade vimaranense prepara-se para vibrar ao som de nomes como Iceage, Montanhas Azuis, Amnesia Sacanner, Bbymutha, Born in Flamez, Croatian Amor, Hiro Kone, Mun Sing, Djrum, entre muitos outros.

No Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, sentamo-nos à conversa com Miguel de Oliveira, um dos criadores da Revolve, onde falamos sobre passado, presente e futuro deste projeto arrojado e com uma vivência muito própria.

São dez anos da Revolve. Como classificam esta década que passou? Superou as expectativas que tinham?

Superou, porque nós não tínhamos a expectativa de tornar isto numa coisa “séria”, como acabou por acontecer. Isto tudo começou comigo e com o Bruno. Íamos a todo o lado ver concertos juntos… e não aconteciam, de facto, concertos em Guimarães. Então, decidimos começar a organizar concertos, mas foi muito difícil arranjar público, porque as pessoas não se deslocavam a horas normais para os concertos. Chegávamos a ter concertos às duas/três da manhã e era muito desgastante para os músicos. Mas foi assim que fomos criando público na cidade para assistirem a concertos.

O que motivou a criar esta promotora, que passou depois a ser também uma editora, em Guimarães?

Começámos em Guimarães, uma vez que somos de cá e é mais fácil começar a trabalhar no nosso território, porque consegues perceber as falhas e o que é preciso fazer. Começámos como uma produtora, com um concerto de Black Bombaim e White Hills, em 2009. A parte da editora surgiu mais tarde, por volta de 2014, por isso só passados cinco anos é que começamos a editar e foi quase por brincadeira, na altura. Não fazíamos a mínima ideia de como uma editora funcionava. Tínhamos a ideia de lançar um disco dos PAPAYA, de Ricardo Martins, Óscar Silva e Bráulio Amado. Já estávamos em conversações para lançarmos o disco, que seria o segundo deles. Entretanto tivemos um concerto de uns americanos, que eram os Pontiak, e o concerto correu muito bem. Falamos sobre lançar um disco deles, mas pensamos que aquilo ia ficar esquecido quando voltassem para os Estados Unidos. Mas a verdade é que eles foram mesmo para estúdio, gravaram umas músicas, enviaram-nos com tudo e nós lançamos um vinil. Foi um bocado por acaso que começamos a lançar discos. O primeiro a sair foi o dos Pontiak, depois PAPAYA e agora já vamos em mais de 30.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Para além de serem uma produtora e editora, também agenciam alguns artistas. Numa visão geral, qual é o foco da Revolve?

Nós começámos com a ideia de criação de público em Guimarães e depois com a editora quisemos estar envolvidos na parte de criação de discos. A criação e a promoção, no fundo, são uma forma de expressarmos a própria Revolve.

Há sempre uma preocupação pela inovação, tanto estética como artística. De que forma é que conseguem isso?

Quando nos expressamos na programação e isso passa como inovação, ou tentativa de nos distinguirmos do panorama, é porque nos estamos a expressar artisticamente, seja através da escolha dos artistas que editamos ou dos designers com os quais nos associados. Tentamos ter sempre cuidado nos eventos, tanto a nível visual, como a nível artístico, mesmos nos locais que escolhemos ou os formatos que desenvolvemos.

Podemos conhecer um pouco dos formatos dos vários eventos que constam no vosso portefólio?

Tentamos sempre fazer algo diferente. Já fizemos um evento, que era o Soirée, no CAA, numa colaboração com a produtora Bando à Parte. Eram concertos com a nossa curadoria e curtas-metragens com a curadoria da Bando à Parte e a meio dos concertos passavam algumas curtas. Gostei muito do formato, mas não continuamos, porque era necessário um investimento muito grande e não resultou. Depois tivemos o Agora Aqui, onde explorávamos a ideia de fazer concertos em lugares inusitados da cidade e foi muito engraçado. As pessoas adoravam esse formato também, mas srntimos que já tínhamos explorado o conceito e preferimos largar para nos concentrarmos noutros projetos. Foi aí que nos lembramos de fazer o Vái-m’à Banda, que já vai em três edições, e as pessoas gostam muito. Em 2013, em colaboração com o Convívio, ainda fizemos umas edições do Indiesciplinas e foi espetacular, trabalhamos com artistas internacionais e foi muito bom.

“No Mucho Flow é possível ouvir diferentes géneros musicais: tanto ouvimos eletrónica como punk; e o festival reflete um pouco dos nossos gostos e dos hábitos das pessoas que nos seguem. Acreditamos que estamos a criar um público curioso, eclético e diverso – tal como nós nos consideramos ser.”

Esta próxima edição do Mucho Flow será, certamente, especial, uma vez que celebra os dez anos da Revolve. O que podemos esperar? Que novidades vão acontecer?

Esta edição vai trazer muita coisa de novo, porque prolongamos o evento para dois dias e serão três espaços: no CIAJG, no S. Mamede e no edifício dos CTT. Já era uma intenção há alguns anos e já queríamos trabalhar nestes locais, principalmente no edifício dos CTT que é uma fantasia para qualquer produtora em Guimarães.

E de que forma será organizado o evento nestes três espaços?

Vai acontecer em sequência. Começará no CIAJG, depois passamos para os CTT e daí para o S. Mamede. Será das quatro da tarde até às seis da manhã, na sexta e no sábado. Estamos muito ansiosos e nervosos, porque vai ser a maior empreitada da Revolve, até à data, mas estamos otimistas. A recetividade do público está a ser muito boa, estamos a ter uma pré-venda muito maior do que nas edições anteriores e estamos muito contentes. Além disso, achamos que temos o cartaz mais completo de sempre e temos nomes com os quais já queríamos trabalhar há imenso tempo. Teremos um showcase da Posh Isolation, uma editora dinamarquesa que faz também dez anos. Depois teremos Iceage que já queríamos ter há muito tempo, assim como Mun Sing, Djrum, Montanhas Azuis…são vários.

Pelo segundo ano consecutivo, o Mucho Flow foi nomeado para os European Festival Awards. O que há de tão especial neste festival que o destaca internacionalmente?

Nós gostamos de ver o festival como eclético e diverso. Existem imensos festivais centrados num único género musical e gosto de ir a alguns, mas cada vez mais ouvimos diferentes géneros musicais e já não há uma monocultura, nem só um artista. No Mucho Flow é possível ouvir diferentes géneros musicais: tanto ouvimos eletrónica como punk; e o festival reflete um pouco dos nossos gostos e dos hábitos das pessoas que nos seguem. Acreditamos que estamos a criar um público curioso, eclético e diverso – tal como nós nos consideramos ser. Eu vejo imensa diversidade no festival e muita curiosidade das pessoas ao verem o que está a ser feito. É uma novidade exacerbada e o festival procura ser uma descoberta constante.

O Vai-m’à Banda é também um evento que tem tido muito sucesso e impacto, talvez por toda a tradição que envolve. Qual é o principal conceito deste evento?

Tentamos recriar a experiência que tínhamos quando fazíamos concertos em Guimarães e depois levávamos os músicos às tascas. Achamos que aquilo era tão fixe que provavelmente outras pessoas iam gostar e decidimos partilhar isso com o público. O Vai-m’à Banda tenta mostrar o que de mais tradicional, típico e genuíno há em Guimarães. Isso vê-se e acaba por atrair tanto pessoas de Guimarães como de fora.

O que podemos esperar destes próximos dez anos? Que dinâmicas gostavam de ainda explorar?

Gostava de ver a Revolve a fazer o que faz, mas melhor ainda. Gostava de fazer mais edições, de ter o Mucho Flow melhor ainda nos próximos anos e o Vai-m’à Banda também pode crescer, não só em Guimarães, mas noutras cidades.

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