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2019-02-28T15:13:07+00:00 Cinema, Cultura, Personalidades

Ricardo Pereira em entrevista

“Representação é o meu grande amor (...) Viver na pele de uma personagem fictícia é algo que me fascina imenso”
Ricardo Pereira na sessão fotográfica da coleção primavera-verão da Decenio. Fotografia ©Decenio
Redação
Redação17 Janeiro, 2019
Ricardo Pereira em entrevista
“Representação é o meu grande amor (...) Viver na pele de uma personagem fictícia é algo que me fascina imenso”

É um dos atores mais queridos nos dois lados do Atlântico: Portugal e Brasil. Ricardo Pereira é um homem multifacetado, desdobrando-se em artes e abraçando o mundo da moda sempre que possível – como é o caso da recente participação na campanha de primavera-verão da marca portuguesa Decenio, da qual é embaixador com a sua esposa, Francisca. Com provas dadas como ator e apresentador, Ricardo Pereira tem agora um dos maiores desafios da sua carreira: substituir a brasileira Ana Maria Braga no programa Mais Você, visto por milhões de pessoas diariamente. Apaixonado pela família e pelo trabalho, Ricardo Pereira apresenta as suas várias facetas nesta entrevista.

Fotografia ©Decenio

Sempre sonhou ou pensou em ser ator, apresentador, modelo, produtor… e até desenhador de joias?

Sempre sonhei ser ator e, talvez por isso, comecei tão cedo. Aos 21 anos estreava-me no Teatro Nacional D. Maria II, com a peça Real Caçada do Sol. Em 2002, apenas dois anos depois, comecei a integrar projetos televisivos de grande sucesso com Saber Amar e O Bairro da Fonte. Depois surgiu a grande oportunidade de ser protagonista da novela Como uma Onda, da TV Globo, que deu início à minha carreira no Brasil, abrindo-me portas para projetos de sucesso na TV Globo como Regra do Jogo, Liberdade Liberdade ou mais recentemente Novo Mundo. Comecei também a investir no cinema, uma das minhas grandes paixões, integrando elencos de grandes filmes autorais como o filme francês Cadences Obstinées e filmes portugueses como O Milagre Segundo Salomé, O Crime do Padre Amaro, Viúva Rica Solteira Não Fica, Amália e Mistérios de Lisboa.

A apresentação já é um amor de longa data, que surgiu ainda quando trabalhava como modelo. A minha primeira experiência neste ramo foi a apresentar os Prémios da Moda, no teatro Tivoli. Sempre adorei comunicar, relacionar-me com pessoas e conhecer as suas histórias e, esta arte da apresentação, permite-me fazer isso. Decidi assim apostar na apresentação e, em 2006, tive a oportunidade de apresentar o Programa Exclusivo, ao lado de Bárbara Guimarães. Mais tarde, em 2008, foi me confiado, a mim e à Sofia Cerveira, o E! Especial, um programa pioneiro no nosso país e que hoje celebra onze anos de vida. No Brasil, a oportunidade surgiu com o programa Dança Galera, em 2013. Nos anos seguintes apresentei vários formatos na TV Globo como Sintonize ou Sem Cortes, programa de entrevistas que me encontro a gravar de momento, já na segunda temporada. 2019 trouxe-me o maior desafio que tive nesta área, substituir a apresentadora Ana Maria Braga, com o programa Mais Você, visto por milhões de pessoas diariamente.

Ser desenhador de joias foi algo que tive oportunidade de explorar há uns anos, em parceria com a marca Anselmo 1910. Foi uma oportunidade muito boa que me foi dada e sinto que resultou numa coleção bastante bonita e, acima de tudo, intemporal. Desenhar uma coleção de joias é extremamente desafiante, ainda mais desenhar para o público masculino, mas acho que estive à altura do desafio e só tenho de agradecer à Anselmo 1910 pela oportunidade. Espero um dia poder repetir a experiência.

“Ator teria de ser a minha primeira opção, mas ser apresentador, produtor e fazer trabalhos no ramo da moda são áreas que me ensinaram muito e contribuíram imenso para o meu crescimento”

Quais as suas melhores memórias de infância?

Tenho muitas, é difícil falar apenas de uma ou outra. Mas sem dúvida que o que caracteriza as crianças é a liberdade e a despreocupação que lhes é tão característica. Tenho saudades daqueles pequenos momentos que nos marcam e nos definem como pessoas que somos hoje. O subir às árvores, o sair de casa de manhã e só chegar à noite, as brincadeiras infinitas, aprender a fazer surf na praia da Ericeira, as amizades (que até hoje ainda mantenho), o contacto com a natureza… foram sem dúvidas momentos que tornaram a minha infância inesquecível, só consigo lembrar coisas boas daquela altura.

Que caminho traçou até chegar aqui? O que o impulsionou?

Sem dúvida que o caminho que fiz até hoje o devo todo aos meus pais, que sempre me apoiaram em todo o meu percurso, independentemente das escolhas que fazia. Muito dos meus valores que me guiam hoje como profissional, além de ser humano, aprendi com eles. Ser persistente, olhar de frente para os desafios, não ter medo… sem dúvida que sem estes ensinamentos nunca teria expandido a minha carreira para outros países como França, Espanha, México e principalmente Brasil, por exemplo. Não teria oportunidades como tenho tido no cinema europeu e mundial, ser protagonista de novelas no país conhecido pelas suas grandes produções ou mesmo a substituir a maior apresentadora do Brasil, Ana Maria Braga, no programa Mais Você, visto por milhões de pessoas.

Fotografia ©Decenio

Com qual das artes mais se identifica: teatro ou cinema?

O teatro é o contacto direto com o público, a reação ao segundo, no momento. Toda o processo de criação do teatro, a plenitude com que se entrega a um palco. O papel imprescindível que o corpo tem porque estamos constantemente a ser observados como um todo. A beleza dos espetáculos e o facto de serem diferenciados… todos os dias cada espetáculo acaba por ser diferente e esse mesmo varia consoante a reação do público e a energia que os espectadores trazem naquele dia. É uma disciplina que gosto e me satisfaz muito e foi como comecei.

O cinema tem a delicadeza do detalhe porque é muito minucioso, tem uma preparação e uma forma de se produzir e de se fazer totalmente diferente com takes e planos de câmara que contam a história através de olhares, silêncios, movimentos. A preparação e o cuidado através da luz e da câmara, com ensaios específicos para cada movimento. São linguagens diferentes, adoro as duas, não consigo viver sem elas e fazem parte da minha vida e da minha criação enquanto ator.

Já interpretou personagens muito exigentes. Como se prepara física, emocional e psicologicamente para as encarnar? E como descreve o processo de trabalho de uma personagem?

É um processo, sem dúvida, moroso e muito trabalhoso. Requer uma entrega total do ator. É necessário muita pesquisa, contacto com pessoas que passaram ou passam diariamente pelo que a nossa personagem possa estar a viver em determinada fase… É sem dúvida um processo muito exigente, mas que é recompensado através do amor que recebemos do público e não trocava esta experiência por nada.

“Sinto-me muito feliz por ter oportunidade de trabalhar em vários mercados, como Portugal, Brasil, Espanha, França, México… mas obviamente que quero expandir e chegar a mais mercados, como os Estados Unidos”

Foi um militar em Liberdade Liberdade, um vilão em Deus Salve O Rei, um botânico em Novo Mundo, entre outros. Das personagens que interpretou com qual mais se identifica?

Eu, na verdade, não procuro que as minhas personagens se identifiquem comigo. Procuro exatamente que as minhas personagens sejam diferentes, o oposto de mim para poder ter um trabalho de criação mais profundo, mais intenso e mais desafiante. Se tiver que enaltecer algum trabalho recente identificaria o André Queiroz, a personagem da novela da SIC Mar Salgado, que foi sem dúvida a personagem com a qual mais me identifiquei e com a qual partilhava alguns dos valores. Era uma pessoa que tinha como prioridade o bem-estar da sua família e protegia os seus a todo o custo. Além disso era uma pessoa extremamente carinhosa, simpática e bastante empática com o público. Foi uma personagem que marcou muitos portugueses.

Fotografia ©Decenio

No final de um trabalho de interpretação, quão presentes estão as personagens em si e como lida com o desapego dessa figura?

Muitas das personagens são complicadas de criar este desapego, ainda para mais quando um ator se dedica na totalidade ao projeto. O que costumo fazer é marcar umas férias, de modo a distanciar-me o máximo daquele ambiente que foi crucial para a criação das personagens. Muitas vezes passa também pela mudança de visual, que ajuda imenso o ator a voltar a conectar-se apenas com o seu “eu” e não apenas à personagem.

É complicado alternar de funções (de ator para apresentador, para modelo e depois produtor)? Neste seu versátil percurso em que pele se sente mais confortável?

Representação é o meu grande amor. Dar vida a várias personagens, viver na pele de uma personagem fictícia é algo que me fascina imenso.

Ator teria de ser a minha primeira opção, mas ser apresentador, produtor e fazer trabalhos no ramo da moda são áreas que me ensinaram muito e contribuíram imenso para o meu crescimento. Não estaria onde estou hoje se não me envolvesse em projetos que me desafiassem nas mais distintas áreas.

Considera a versatilidade do seu trabalho uma vantagem para as restantes áreas da sua vida profissional? Se sim, em que medida?

Ao longo da minha experiência profissional, sinto que cada trabalho me vai ensinando pequenas coisas que, daí em diante, pratico em todos os trabalhos que faço. Por isso sim, cada projeto que tive a oportunidade de integrar tornou-se um veículo essencial de aprendizagem e, como disse anteriormente, foram estes ensinamentos que me permitiram estar onde estou.

O que faz para se manter equilibrado e dar o seu melhor em todas estas áreas?

Uma vida equilibrada em casa é, para mim, a principal razão para dar o máximo em todos os projetos que estou envolvido. Eu e a Francisca somos uns sortudos por estarmos em constante sintonia e percebermo-nos um ao outro bastante bem. Outras formas que me fazem manter o equilíbrio são os meus filhos, que são a minha razão de viver. Faço o que faço por eles, sem dúvida. Isto tudo, associado a um estilo de vida saudável, alimentação equilibrada e desporto regular mantêm-me desta forma, feliz com a vida.

É um ator muito solicitado. O que o leva a optar por um papel em detrimento de outro?

Tento sempre perceber, ao ler a história, os guiões, se essa personagem é desafiante. Gosto imenso de personagens com várias camadas, que me permitam explorar ao máximo a sua vida, as suas ações, o porquê de ele fazer aquilo e não o oposto. Tento, acima de tudo, ao aceitar um trabalho, saber que aquela personagem vai impactar de alguma forma o telespectador.

Alguma vez se arrependeu de ter recusado um papel?

Não me arrependo de nada, se não aconteceu é porque não estava destinado. Estou muito feliz pelas escolhas que fiz ao longo da minha carreira, não mudaria nada.

“Uma vida equilibrada em casa é, para mim, a principal razão para dar o máximo em todos os projetos que estou envolvido. Eu e a Francisca somos uns sortudos por estarmos em constante sintonia e percebermo-nos um ao outro bastante bem”

É um ator internacional, com méritos reconhecidos em Portugal e além-fronteiras. Pretende continuar a expandir o seu trabalho por outros horizontes?

Sinto-me muito feliz por ter oportunidade de trabalhar em vários mercados, como Portugal, Brasil, Espanha, França, México… mas obviamente que quero expandir e chegar a mais mercados, como os Estados Unidos. Cheguei a ter um convite para trabalhar numa produção lá, mas por incompatibilidades de agenda não foi possível. É um mercado que me cativa imenso. Hollywood, a indústria cinematográfica, as grandes produções que lá são feitas… é algo notável. É um mercado que, um bocadinho à semelhança do Brasil, faz um produto para um público não nacional, mas sim mundial, ainda em maior escala.

Fotografia ©Decenio

Uma vez que o Ricardo é uma referência no mundo da Arte e da Moda, que conselhos daria a um jovem aspirante a ator e modelo?

Acredito que, se a pessoa tiver paixão pelo que faz, tudo é possível. Diria que são mercados bastante competitivos, mas se for algo que se ama fazer, algo intrínseco, só pode correr bem. É importante ser persistente e não desistir ao primeiro obstáculo que nos aparecer. Estudar também é extremamente importante, saber não ocupa lugar.

Para além de ser Conselheiro da Diáspora Portuguesa e ter sido Embaixador do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social em 2010, é também um apaixonado pelas questões ambientais. Na sua opinião, que ações deverão ser tomadas para a preservação do planeta e evolução do homem/mulher enquanto ser humano?

Claro que sim, enquanto seres humanos acredito que temos a responsabilidade de cuidar o nosso planeta e conservá-lo para as gerações futuras. Uma das questões que me preocupa como ser humano, cidadão e pai é, realmente, a poluição que assistimos e isso tem muito a ver com um cuidado que temos todos de ter na preservação do mundo em que vivemos. A poluição nos oceanos, a poluição atmosférica e até a poluição visual é algo que temos de reduzir, o máximo que conseguirmos. O primeiro passo é entender como podemos arranjar alternativas para que o nosso mundo continue a ser o lugar especial que é. Nós devemos perceber para onde queremos ir no futuro, fazer planos e traçar metas para serem cumpridas tornando o mundo mais equilibrado, entre nós e a natureza.

“Preocupo-me muito com o exemplo que dou, tanto como figura pública como cidadão e pai”

Como figura pública, sente uma responsabilidade acrescida relativamente às questões anteriores?

Sinto uma responsabilidade acrescida como cidadão e não apenas como figura pública. A minha profissão e a minha exposição podem contribuir para a divulgação de algum caso pertinente, seja bom ou mau. Há que saber utilizar esta capacidade para divulgar quando a situação assim o pedir. Acima de tudo pretendo associar-me e trazer à tona situações em que eu acredito e de algo que deva ser falado. Enaltecer projetos de pessoas que trabalham nas mais diversas áreas em prol daquilo que consideramos que seja bom para o nosso planeta. Preocupo-me muito com o exemplo que dou, tanto como figura pública como cidadão e pai. Procuro sempre utilizar a minha profissão para me associar a causas que eu acho que são importantes, dar-lhes mais força e mais visibilidade.

Agradecimento especial a Decenio.

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