Revista Rua

2021-03-04T16:17:16+00:00 Cultura, Fotografia

Ricardo Reis: “A fotografia tornou-se a representação mais realista da minha perspetiva”

Ricardo Reis tem 39 anos, é natural do Barreiro e é formado pelo Instituto Português de Fotografia de Lisboa.
Lisbon Surrealism ©Ricardo Reis
Andreia Filipa Ferreira3 Março, 2021
Ricardo Reis: “A fotografia tornou-se a representação mais realista da minha perspetiva”
Ricardo Reis tem 39 anos, é natural do Barreiro e é formado pelo Instituto Português de Fotografia de Lisboa.

Natural do Barreiro, Ricardo Reis é um fotógrafo com um percurso imenso: música, desporto, moda, street photography… O seu vasto currículo conta com exposições em cidades de renome, como Roma, Miami, Lisboa, Nova Iorque, etc. e as suas fotografias contam histórias infinitas de interpretações. “Quero criar diálogo. Quero fazer o observador sentir algo”, diz Ricardo Reis. Nesta entrevista, damos a conhecer o fotógrafo, os seus sonhos e anseios, numa viagem revelada por fotografias.

Ricardo Reis

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer melhor o Ricardo.

O meu nome é Ricardo Reis, tenho 39 anos e sou natural da cidade do Barreiro. Sou formado pelo Instituto Português de Fotografia (IPF) de Lisboa e terminei o curso em 2008. Tenho a felicidade de encarar a maior parte dos meus projetos profissionais como algo que também me dá muito prazer, que é isso que se retira de um hobby. Gosto muito de ler e de ouvir música, até porque esta sempre fez parte da minha vida. Toco alguns instrumentos e tenho variadíssimos projetos com bandas. Sempre estive ligado ao desporto – foi no basquetebol que me especializei – e era esse o meu caminho, até a fotografia me arrebatar.

Costuma dizer-se que um fotógrafo tem uma maneira própria de ver o mundo. Considera que esta afirmação se relaciona consigo? De que maneira é que a fotografia o inspira a ver o mundo noutras perspetivas?

Sim, considero. A determinada altura percebi que precisava de colocar para fora muitas emoções que estavam dentro de mim, emoções essas que iam para além do verbal, e rapidamente percebi que tinha uma maneira muito minha de ver o mundo. Mesmo que houvesse muitas pessoas a admirar a mesma situação, sentia que não estávamos a percecionar o mesmo.

A fotografia tornou-se a representação mais realista da minha perspetiva, mescla todos os meios de arte e é nisso que me inspiro para criar várias camadas do mundo, entre o sonho e o real.

Quando crio uma imagem fotográfica quero entrar num diálogo – fazer sentir algo a quem vê a obra, mesmo que seja uma reação negativa. Agradeço a reação negativa, por comparação a nenhuma reação, porque quero que as pessoas sintam.

Sabemos que um dos seus primeiros desejos era ter uma carreira como fotógrafo de guerra. Porquê? O que o motivava nesse tipo de trabalho fotográfico?

Sim, é verdade. Quando comecei queria ser fotógrafo de guerra, tenho um profundo respeito pela dor e não acredito que possa haver melhor cenário para tal. Por outro lado, acho que a ideia mexe com o meu íntimo mais altruísta, dar rosto e homenagear todos aqueles homens que estão dispostos a dar a vida pelas causas em que acreditam. Em Portugal é muito difícil conseguir as conexões necessárias para isso.

Acabou por não seguir esse caminho. No entanto, viajou imenso graças ao percurso no mundo da moda. Pode explicar-nos como tudo se desenrolou?

Sim, acabei por ter a possibilidade de fazer um estágio num jornal diário em Portugal, que fez com que o meu trabalho fosse publicado em vários jornais e revistas e aí comecei a traçar outro caminho. Comecei a trabalhar mais com fotografia de moda e nessa altura foram-me atribuídos alguns trabalhos na Europa. Durante os shows, descobri que preferia fotografar o backstage, onde tinha mais liberdade para fazer coisas diferentes, correr mais riscos.  Com isso veio, naturalmente, a possibilidade de explorar o lado mais artístico do meu trabalho que neste momento é representado em vários países como: Canadá, Reino Unido, França, Holanda, Austrália, China, Portugal e Estados Unidos.

Preto e branco. É assim que as suas fotografias nos chegam. É desta forma que a sua visão se mantém mais real? Porquê esta escolha?

A escolha do preto e branco surgiu naturalmente, não escolhi propositadamente, mas aprendi o processo de revelação e impressão de preto e branco em negativo e isso agradou-me. Interessava-me a dificuldade e o momento de descoberta quando a imagem, ainda latente no papel, aparecia. Percebi que seria mais fácil agarrar o observador através da cor e escolhi continuar mais com o preto e branco para apelar e transmitir emoção.

Mas há espaço para a cor no seu trabalho?

Até há muito pouco tempo estava a ver a preto e branco e com cinza pelo meio, mas isso mudou, estou cada vez mais a ver a cores. Isso não implica que irei acabar com o preto e branco, pois não conseguiria mesmo que quisesse; como uma pessoa próxima e especial me disse: “eu tenho e sou tanto de tanto”.  Por isso há espaço para o preto e branco e para a cor, opostos que se complementam e que me perfazem enquanto artista e pessoa.

“Quero criar diálogo. Quero fazer o observador sentir algo”. Escreveu que este era um dos seus propósitos enquanto fotógrafo. De que forma tenta organizar a sua visão para passar estes sentimentos ao espectador? Qual é o segredo (caso exista algum) para cativar através de uma fotografia?

Sim e continuo a pensar da mesma forma. Quero e pretendo uma reação ao meu trabalho, seja positiva ou não, isso quer dizer que cheguei à pessoa de alguma forma; a indiferença ao meu trabalho é o que não quero e tento evitar. Já conversa e discussão saudável sim, pois a mesma fotografia ou obra de arte podem querer dizer muitas coisas diferentes para pessoas distintas.

Existem truques para captar a atenção, em termos de técnicas de composição. Eu cuido muito da composição e, embora seja uma parte técnica, a verdade é que sinto como uma característica inata em mim, antes sequer de aprender.

Em relação a passar a minha visão e emoção para a minha obra, sim, faço-o seja de forma positiva ou negativa, seja partilha ou desabafo, depende do meu estado de espírito no momento, mas será sempre a minha visão. Nem sempre tudo o que eu vejo está pronto e disponível para ser captado à frente dos meus olhos, mas eu crio o resto.

Rostos, vida, paisagem, movimento, detalhes. Podíamos resumir a sua visão fotográfica deste modo? O que acrescentaria?

Emoções: tristeza e alegria. Quero que quem decida visitar a minha obra consiga sentir de tudo.

Unseen Face ©Ricardo Reis

Tem alguma fotografia (ou fotografias) que representam da melhor maneira a sua criatividade?

Unseen Face, uma polaroid.  Desde o cenário que pintei para o background até ao próprio ato de fotografar foi tudo um trabalho meu. Além do movimento da pessoa fotografada e iluminação planeada, eu estava a segurar uma placa de acrílico para refletir a luz mesmo à frente da câmara polaroid, de modo a conseguir o resultado que tinha imaginado na minha cabeça.

A sua visão? Pode falar-nos dessas memórias em específico?

Um bom exemplo é Lisbon Surrealism, uma fotografia da praça principal de Lisboa através dos meus olhos. Não há mais nada que possa dizer a não ser que de facto aquela fotografia é como eu vejo Lisboa. Também o projeto PeopleEeverywhere, Everyone’s Alone teve e tem um gosto e importância especial para mim, pois estava a passar por uma fase pessoal complicada e ajudou-me a verter, desabafar e partilhar emoções. Teve um forte impacto e ajudou-me muito, melhor ainda foi o facto de marcar o início do meu reconhecimento internacional com um prémio em Nova Iorque, em 2009.

Há algum processo criativo que cumpra ou deixa-se levar pelo que observa?

Eu sempre tive o meu próprio processo criativo, quem me conhece sabe bem que antes de eu pegar na câmara já as fotos estão prontas na minha cabeça.

A câmara serve para poder criar o resultado e partilhar com todos. A única altura em que me consigo desligar um pouco desse sistema é quando vou fazer fotografia de rua ou descobrir e conhecer um sítio novo. Aí tenho que apenas ter mente aberta e receber o que o sítio me dá. A arte de fotografia de rua está na capacidade de apanhar o “instante decisivo”, pois aquele momento não volta a acontecer e é outro tipo de treino para as minhas capacidades, todos necessários e que eu pretendo continuar a cultivar.

Existe algum lugar (espaço) onde vai repetir fotografias, onde precisa de voltar frequentemente para o transformar?

Eu estou sempre a voltar tanto a sítios no Barreiro, a minha cidade natal e onde vivo atualmente, assim como a Lisboa. É um ótimo treino que tento aprimorar cada vez mais, conseguir voltar aos mesmos sítios, mas de olhos abertos e lavados, página em branco, ver o que não vi nem reparei na última vez. Redescobrir o que pensávamos que já conhecíamos tão bem. Adoro essa sensação.

Como podem os nossos leitores conhecer melhor o seu trabalho?

Podem seguir-me nas minhas redes sociais de Instagram e Facebook, na minha página pessoal e na plataforma lensculture.

Que anseios profissionais tem para este 2021?

Tenho alguns projetos em mente e outros em andamento, embora ao ritmo pandémico que o mundo nos habituou. A fotografia é uma atividade individual cuja iniciativa se dá pela criatividade, como em qualquer forma de expressão de arte, por isso mesmo, em confinamento foi imprescindível continuar a criar. Tenho projetos dedicados a esses tempos de isolamento e agora mais recentemente outro em que a ideia é passar a mensagem de que as coisas vão melhorar, por isso fiquem atentos!

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