Revista Rua

2018-05-03T10:59:47+00:00 Opinião

.Rir (ou não) com Bruno Nogueira.

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Cátia Faísco
Cátia Faísco
2 Fevereiro, 2018
.Rir (ou não) com Bruno Nogueira.

Há um fenómeno que acho, no mínimo, curioso que é o da transformação do público. E, na verdade, já não é a primeira vez que o menciono nesta crónica. Nem será a última, creio. No mês passado, esteve em cena no Teatro S. Luiz, em Lisboa, o espectáculo Actores, do encenador e realizador Marco Martins. No elenco, actores conhecidos pelos seus trabalhos no teatro, cinema e televisão. Entre eles, Bruno Nogueira. E, neste preciso momento, sei que apenas o facto de mencionar o nome dele é o suficiente para se esperar risos. Não? E se o Bruno Nogueira disser “melancia”, vais-te rir?

Quando entrei no teatro ainda era cedo. Sentei-me num dos sofás do andar superior a ler o programa e quando se aproximou a hora do espectáculo, comecei a descer. O cenário com que me deparei foi surpreendente: um mar de pessoas (sim, era mesmo!) invadia o hall de entrada e fazia fila para entrar. Pensei que seria maravilhoso que todos os espectáculos tivessem assim tantos espectadores. É certo que era apenas o segundo dia de apresentação. Mas, sejamos sinceros, ter o nome do Bruno Nogueira e do Nuno Lopes em cartaz é o suficiente para atrair pessoas que, normalmente, não vão ao teatro. E, atenção, não tenho nada contra isso. Muito pelo contrário: venham todos!

Ao meu lado, uma família composta por avós, netos e pais, tentava instalar-se confortavelmente nas suas cadeiras, para ver O Bruno Nogueira. A predisposição deles era, claramente, para se rirem. Era fácil adivinhá-lo pelos seus rostos. Mas, a confirmação chegaria apenas mais tarde.

Actores percorre um pouco do percurso artístico de quatro actores que estão em palco e de Luísa Cruz que está ausente. Através de várias abordagens, é-nos apresentado uma série de momentos violentos, difíceis ou simplesmente curiosos. Quem está no meio, obviamente, sente mais facilmente a dureza das narrativas pessoais. Mas, não seria de esperar que isso também gerasse algum tipo de compaixão nos restantes espectadores? Já vos disse que era um espectáculo de teatro e não de stand up comedy, certo? Pode parecer irrelevante este tipo de diferenciação, mas, para mim, é muito importante, porque ambos representam signos diferentes.

Então, de repente, começa a contar-se um momento em que Bruno Nogueira fez uma apresentação de stand up para uma empresa e há uma gargalhada geral na sala. Espera, digo eu, de que é que se estão a rir? Do facto de ele ter tentado fazer o seu trabalho no meio de pessoas que comiam croquetes e rissóis, ignorando completamente a sua presença? Ou será de lhe terem atribuído um pequeno palanque como se fosse um bobo da corte?

Mais tarde, num exercício entre a verdade e a ficção, Nuno Lopes atirava algo para o ar como “violentei a prima da minha namorada para me vingar dela”. E, novamente, gargalhada geral. Espera, será que não ouviram o mesmo que eu? Ou será que foi por ter sido o Nuno Lopes a dizê-lo? Ou será que imaginaram uma graçola?

Para quem faz comédia, há sempre o risco de o público não conseguir separar esse género de tudo o resto. Mas, confesso, perturba-me estar a tentar ver um espectáculo onde sou constantemente atingida por gargalhadas de cada vez que o Bruno Nogueira diz alguma coisa. Resta-me esperar pelos próximos dias, para voltar a ver o espectáculo no Teatro Nacional S. João (7-11 de Fevereiro) com outro tipo de público (ou não…).

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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